Novidade e continuidade na escola

Ana Laura Godinho Lima é professora da Faculdade de Educação (FE) da USP

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Laura Godinho Lima – Foto: Arquivo Pessoal

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Me sacode às seis horas da manhã

Me sorri um sorriso pontual

E me beija com a boca de hortelã

Chico Buarque

Aquilo que se repete todo dia, sempre igual, maquinalmente, torna-se mortificante e pode extinguir até mesmo o amor, como bem expressa a canção Cotidiano, de Chico Buarque. Vivemos em uma cultura que associa a rotina ao tédio, à perda de tempo, ao desperdício da vida.

Ao contrário, as capacidades de inventar e de inovar se tornaram das mais valorizadas nas relações humanas e nos mais variados ramos de atividade, incluindo o magistério. A formação do hábito, aspecto da pedagogia ao qual costumava ser dedicado um capítulo inteiro dos antigos manuais de psicologia educacional, tornou-se malvista ao ser relacionada ao adestramento e foi superada pela injunção de despertar o interesse. Buscar sempre maneiras originais de transmitir os conteúdos, tendo em vista capturar o interesse dos alunos e dedicar-se a criar atividades alternativas para favorecer o envolvimento de todos, tornou-se atributo indispensável do bom professor. Estabeleceu-se que a boa aula é aquela em que, de tão entretidos, os alunos não veem o tempo passar.

Seria preciso considerar, contudo, que a novidade continuamente reposta perde a força, cansa, e se torna artificial, pois o inesperado só pode aparecer sobre um fundo de previsibilidade, a invenção sobre um fundo de tradição. O psicanalista inglês Donald Winnicott considerava que o impulso criativo precisava de um ambiente confiável  para se manifestar. No início da vida, o ambiente confiável é proporcionado pela mãe ou a pessoa que cuida do bebê e significa fundamentalmente que essa pessoa continua sendo ela mesma dia após dia, de modo que, com o passar do tempo, os seus padrões de conduta se tornam reconhecíveis pela criança. Não quer dizer que o ambiente se tornou petrificado ou enrijecido. O autor tem o cuidado de esclarecer que continuidade não se associa à repetição automática, perfeita, que se espera das máquinas:

Em nossa teoria a respeito dos cuidados com a criança, a continuidade do cuidado tornou-se uma característica central do conceito de ambiente facilitador. Percebemos que é unicamente pela continuidade da provisão ambiental que o novo bebê em estado de dependência pode ter uma continuidade em sua linha de vida, e não um padrão de reação ao imprevisível e ao repetitivo (WINNICOTT, 2005, p. 150)

A maioria dos professores provavelmente acaba criando seu próprio repertório de experiências bem-sucedidas que tende a incorporar à sua rotina.

Na escola, se todos os dias há algo completamente novo para aprender, não se chega a ultrapassar a desconfortável condição do iniciante. Há um dispêndio de energia para se adaptar a uma nova situação. Quem se inicia em um novo campo de conhecimentos ou uma nova atividade, digamos o aprendizado de um novo idioma, o uso de um instrumento ou uma arte marcial – deve se familiarizar com os seus objetos, regras, vocabulário e procedimentos próprios. Se há continuidade, com o tempo de exposição aos mesmos elementos, cria-se familiaridade e o que no início parecia estranho e difícil é gradativamente assimilado e conquistado, até que se chega a perceber o próprio avanço em compreensão e habilidade.

Se, por um lado, a novidade desperta o interesse, por outro, a continuidade favorece o foco, o aperfeiçoamento, a percepção de que as coisas vão ficando cada vez mais fáceis à medida que se pratica. Favorece também a persistência, o esforço continuado em vista de um objetivo que não se poderá alcançar em uma única sessão de trabalho, mas ao qual será preciso dedicar-se por um período prolongado.  A continuidade permite ainda que o aluno adquira algum controle sobre a situação do ensino e fique menos à mercê do professor. Quando se sabe aproximadamente o que vai acontecer, pode-se concentrar a energia no aprendizado e agir de maneira mais independente do mestre.

Não se trata de opor a continuidade à novidade e defender que a escola é lugar de rotina e as surpresas devem ser deixadas para os fins de semana, as férias, as festas. Um fato inesperado, uma aula surpreendente, um evento que mobilize professores e alunos em sua preparação, tudo isso pode ter um efeito estimulante muito bem-vindo no cotidiano. Mas mesmo esse efeito só se produz sobre um fundo de rotina, de modo que é um aspecto importante do trabalho dos professores a necessidade de proporcionar ao estudante a experiência da continuidade, inclusive para que os próprios alunos tenham chances de explorar suficientemente uma situação, uma atividade, a ponto de poderem arriscar um novo modo de realizá-la. Poderíamos supor até que, para os alunos poderem desenvolver a própria criatividade, seria bom que os professores se abstivessem de ser incessantemente inventivos  ao desempenhar o seu trabalho e, em vez disso, se empenhassem em garantir uma base de continuidade para os alunos se sentirem convidados a inovar.

A maioria dos professores provavelmente acaba criando seu próprio repertório de experiências bem-sucedidas que tende a incorporar à sua rotina. Um certo modo de se dirigir aos alunos no início da aula, uma maneira ritual de organizar a sala ou registrar a rotina na lousa, uma maneira típica de fazer perguntas ou dar orientações. Isso não deveria ser menosprezado como acomodação, mas reconhecido como elemento fundamental na composição da qualidade de mestria.

Nem só de invenção e descoberta se faz o aprendizado, mas, em maior medida, de exercício, prática, esforço continuado na mesma direção. O professor muitas vezes precisa dar o exemplo de persistência, mostrar que vale a pena o esforço e sustentar a continuidade, especialmente quando os alunos se mostram cansados, desencorajados. Nos relatos das pessoas que conquistaram a excelência em seus domínios de atividade são recorrentes as referências ao tempo dedicado à prática, ao exercício, à repetição incansável dos mesmos procedimentos, às vezes à exaustão. Na formação de uma pessoa, o bom dia pontual de um professor perseverante pode ser mais decisivo do que o interesse momentâneo produzido pela atividade alternativa.

 

Referência:

WINNICOTT, D. Tudo começa em casa. 4ª. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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