
Durante os dias 5 a 14 de agosto, ocorreu a INC-5.2, segunda parte da reunião INC-5 (Busan), que seguiu outros quatro encontros, em Genebra, na Suíça, que busca solucionar um dos mais agravantes problemas ambientais do mundo: a poluição plástica. O principal objetivo da conferência foi a criação de um instrumento global juridicamente vinculante para acabar com a poluição por plásticos. O professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências (IB) da USP, dá um panorama de como está a poluição do plástico ao redor do globo: “A situação do plástico no mundo está em um patamar muito grave. Há dados disponíveis referentes à 2023, ano em que foram produzidas mais de 400 milhões de toneladas. Como a reciclagem, em nível global, é de menos de 10%, o plástico que sobra vira todo poluição de algum tipo, já que não há processos naturais de degradação deles num prazo relativamente curto”, comenta Buckeridge.
Consequências

Após sua utilização, o plástico é constantemente transformado em partículas cada vez menores, os microplásticos e nanoplásticos. Os nanoplásticos são partículas que podem entrar na circulação dos animais e plantas, indo parar, inclusive, dentro das células, devido ao seu tamanho, causando efeitos gravíssimos, como a alteração do funcionamento de células do intestino e do cérebro, além de riscos relacionados a doenças cardiovasculares. Caso a produção não seja freada, espera-se que até 2050 sejam acumuladas cerca de 12 bilhões de toneladas desse material no planeta, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), isso é praticamente o triplo do que existe atualmente.
A pesquisadora Sabrina de Oliveira, que integra o Centro de Síntese USP Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados como pós-doutoranda, também comenta as consequências que a poluição plástica pode ocasionar no planeta, caso não seja mitigada. “Os problemas da acumulação de plástico são inúmeros, resultando na ocupação de espaço em aterros sanitários, poluição dos ecossistemas aquáticos, entupimento dos sistemas de drenagem urbanos. Outra questão também: como a degradação do plástico é muito lenta, surge a preocupação quanto aos microplásticos. Então mais do que uma questão ambiental, que já é muito alarmante, acredita-se que o plástico, o consumo e a produção do plástico se tornem uma crise de saúde pública.”
Resultados da reunião
É perceptível que a situação atual não é nada positiva e, por isso, a ONU convoca, desde 2022, as reuniões do Comitê Intergovernamental de Negociação para discutir essa pauta. Entretanto, chegar a uma solução para uma problemática tão complexa e que envolve múltiplos participantes e diferentes interesses não é tão simples. “Pode-se dizer que essa reunião não obteve sucesso, não houve nenhum acordo prático para criar mecanismos que possam ser utilizados internacionalmente e que façam uma punição, do ponto de vista jurídico, de países que usam ou produzam muitos plásticos ou países que deixam de fazer a reciclagem. É um processo lento, essas discussões da ONU, como acontece, por exemplo, no IPCC e mesmo nas COPs, as formas como esses acordos vão sendo alinhados. Esperamos que nas próximas algumas diretrizes mais sólidas sejam criadas”, comenta Buckeridge.
Quais medidas devem ser adotadas?

Visto que a conferência não teve êxito em propor medidas eficazes para solucionar o problema, os países necessitam adotar medidas urgentemente, enquanto um acordo internacional não é realizado. Ações como a reciclagem, a substituição de plásticos por bioplásticos, que são degradados de forma muito mais rápida na natureza, e até recorrer à biologia sintética para o desenvolvimento de enzimas, proteínas capazes de degradar o plástico mais rapidamente, são só alguns exemplos do que pode ser realizado.
“Quando pensamos em limpeza, por parte especialmente dos governos, existem algumas estratégias de grande escala, como, por exemplo, a remoção de resíduos de praias e oceanos. Mas, mais do que isso, a ação deve ser feita de maneira preventiva. Uma medida importante é a questão da promoção da responsabilidade estendida do produtor, de maneira que a indústria que utiliza o plástico em seus produtos se responsabilize por todo o ciclo de vida desses materiais. O incentivo a políticas de prevenção na fonte, de maneira que a gente foque principalmente na perspectiva da economia circular, ou seja, além de evitar o descarte e promover a reciclagem é necessário estimular um consumo mais consciente e reduzir a dependência que existe do plástico, especialmente do descartável. Uma ação muito simples e que deve ser incentivada é que cada pessoa carregue garrafas ou copos reutilizáveis para evitar tomar água em copos descartáveis”, conclui Sabrina.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.


























