O que significa ser um cidadão digital nos dias de hoje? Para o professor Luli Radfahrer, hoje em dia ficou mais fácil exercer a cidadania por conta das ferramentas digitais, mas, ao mesmo tempo, “também ficou mais fácil você não fazer nada e acreditar que está fazendo, ou pior ainda, você fazer o mal. Ser um cidadão digital é participar ativamente da sociedade através das tecnologias, ou seja, ler os relatórios, ver o que o governo fala, o que a Secretaria fala, buscar informação confiável e interagir respeitosamente nas redes sociais. E, com isso, você consegue ficar mais bem qualificado para participar de um movimento social”, mais especificamente, um movimento social digital, que é uma mobilização social que ocorre pela internet. “Eu uso redes sociais, uso o aplicativo de mensagem e outras ferramentas para organizar protestos, para divulgar notícias, mas como ele não depende da presença física e ele não dá trabalho, ele também pode gerar coisas horríveis, tipo aqueles grandes cancelamentos ou aquelas coisas que eu nem li direito ou eu li torto e eu já saio falando, já saio dando a minha opinião. Então, é só pensar nisso, cada vez que você vai tomar uma atitude, você pensa assim, ‘se eu estivesse no mundo real, eu ia tomar esse tipo de atitude?’.”
As pessoas, hoje, diz o colunista, estão cada vez mais envolvidas no “cliquetivismo”, “é a ideia de que você apoia uma causa social simplesmente usando um hashtag ou apertando um botão. É fácil, é acessível e é superficial, porque como você basicamente não fez nada, você pode simplesmente colocar lá um hashtag no Instagram que você está abraçando uma árvore e dizer que você tem que defender a pegada de carbono das empresas, cancelar essa empresa e aquela, daí você pega um 4×4 desregulado e sai queimando gasolina por aí. Então, quer dizer, é muito importante que a pessoa entenda o que ela faz com o ativismo e ela seja sincera e honesta quando ela faz isso”.
Mas qual, afinal de contas, seria o futuro desses movimentos sociais digitais? “A tendência é que eles se tornem cada vez mais híbridos, uma mistura entre ação on-line e ação off-line. Por isso é muito importante você lembrar que existem pessoas reais por trás das telas e respeitar as diferentes opiniões, mantendo aquele mesmo nível de educação e respeito que você teria numa interação pessoal. Sabe, se você está numa festa, conversando com uma pessoa que você não conhece, ela fala uma enorme bobagem, você não vai gritar na cara dela que ela está falando bobagem. Você provavelmente fala: ‘Olha, com licença, desculpa, mas eu não concordo com o que você diz’. Por que no digital tanta gente é valentão? Por que no digital tanta gente sai berrando? É esse o ponto. A gente não tem mais dois ambientes. A gente tem um ambiente só, que é uma mistura do mundo físico com o mundo digital, e a gente tem que aprender a voltar a se comportar como a gente se comportava em público.”
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
.

























