“Em apenas 15 dias, o mundo virou de cabeça para baixo. Depois desvirou, revirou e quase derreteu quando o presidente da futura ex-maior potência mundial, Donald Trump, teve uma ideia: implodir a ordem mundial. Aplicou a citada equação da padaria ao comércio mundial (que nos desculpem os padeiros), ignorando todas as variáveis, exceto quanto entra no caixa estadunidense e quanto está no ‘pindura’: por isso o cliente Zé Camboja, por exemplo, fiel mas frugal, passaria a pagar uma taxa de 49% a mais no pãozinho. O estrago estava feito. As bolsas do mundo inteiro despencaram, inclusive as ações dos trumpistas aliados das bigtechs (que choravam lágrimas de crocodilo com as perdas iniciais, embora, das ‘sete magníficas’, uma só delas equivale ao valor total de capitalização da bolsa da Alemanha, segundo os maiores jornais mundiais).”
“Economistas de todos os matizes ficaram perplexos e assustados. Caos! Dilúvio! Não haverá amanhã! Donald, como todo valentão, debochava do resto do mundo, em seu linguajar refinadíssimo e tarifas disparatadas. A China foi a mais castigada, porém retaliou impondo uma tarifa de 84% aos produtos americanos. O que enfureceu Donald, que imediatamente lhe tascou um aumento maior, de 145%. Isto é, para exportar aos EUA, só pagando pedágio e ganhando nada. Blocos de defesa mútua começaram a se formar, como a insólita aliança dos arquiadversários Japão, China e Coreia do Sul.”
“Cercado de yes, men (bajuladores), de repente alguém lembrou que a dívida americana é astronômica, e o segundo maior detentor de treasures, títulos do Tesouro, é a China. Começou a corrida para se desfazer dos treasures, o que esvaziaria completamente o maior ativo americano: a confiabilidade no dólar e no país. Mas o pragmático empreiteiro recuou no ato e jogou a tolha. No dia seguinte, Trump avisou que mudara de ideia, e iria generosamente padronizar as tarifas mundiais em 10% por 90 dias. O mercado deu um salto e as ações valorizaram nas alturas. O mercado é assim, temperamental.”
“Líderes mundiais não deveriam brincar em serviço. A melhor imagem deste bullying tarifário foi a do embaixador Rubens Ricupero, que lembrou a cena de Chaplin em que Hitler e Mussolini (supostamente EUA e China) vão subindo a cadeira de barbeiro até bater o cocuruto no teto. Que os economistas detalhem e desvendem este tsunami. Nós ficamos com as imagens. Na quinta, para não admitir a derrota (recessão, estagflação) Donald, o aprendiz de presidente, veio com outra: mudou as regras de racionamento da água, porque ‘gosta de lavar seu lindo cabelo’. Vai inundar o Titanic.”
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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