A guerra esquecida

Marília Fiorillo refere-se à guerra civil em Mianmar, que já deixou milhares de mortos, e ao papel exercido no conflito pela China e por um monge budista que está muito longe de ser pacifista

 24/10/2025 - Publicado há 5 meses

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A situação em Mianmar se complica a cada dia, com milhares de mortos e deslocados. A professora Marília Fiorillo tem mais a dizer sobre esse tema: “No momento em que gravamos este podcast, quinta pela manhã, uma das manchetes da BBC internacional é o massacre da população civil na Birmânia. O exército de Mianmar está retomando territórios com ataques aéreos implacáveis e a ajuda da China. A guerra civil em Mianmar, mais apropriadamente chamada Guerra Defensiva Popular, se intensificou em fevereiro de 2021, após a junta militar depor o governo eleito de Aung San Suu Kyi. A repressão sangrenta contra manifestações pacíficas inicialmente deu fôlego a uma inédita união de cerca de 200 grupos armados de resistência pró-democracia, compostos de mais de 200 mil pessoas, o Governo de Unidade Nacional (NUG), num país marcado por crônicas escaramuças étnicas. Mas a recente escalada do apoio militar da China à ditadura militar reverteu a situação, fragmentando a nascente e frágil unidade popular e reavivando a luta entre as facções internas. A situação humanitária é devastadora: escassez de alimentos e remédios, e deslocamento interno de civis em busca de abrigo”.

“Cerca de 40% da população vive abaixo da linha da pobreza, segundo dados do Banco Mundial. O isolamento do país – que é praticamente um protetorado chinês, no tabuleiro geopolítico da região – faz com que os protestos da ONU e ONGs, já por si bastante inócuos, tornem-se completamente irrelevantes. Neste antigo e complicado conflito, cuja maior vítima, como de hábito, são os civis – crianças, mulheres e homens -, há um ingrediente peculiar: um monge budista pró-junta militar, que incita a violência contra minorias étnicas.  ‘Devemos reverenciar a junta militar como reverenciamos Buda’. Esse é o lema do monge budista Theravada Ashin Wirathu, chefe do, literalmente, incendiário movimento 969. Sua Sangha (comunidade de discípulos) prega abertamente o genocídio e a limpeza étnica da minoria Rohingya, muçulmana, no país. Wirathu teve papel central na instigação de assassinatos, estupros e incêndios de vilas em Rakhine, que culminaram, em 2018, no grande êxodo dos rohingya para Bangladesh. O adjetivo mais delicado que usa para a oposicionista Aung San Suu Kyi é prostituta. A revista Time chamou-o de ‘Bin Laden de Laranja’. É pior: a encarnação, de cabeça raspada, do Isis, ou Daesh, o suprassumo da delinquência terrorista. Até mesmo o pouco criterioso Facebook resolveu bani-lo, quando seus discursos viralizaram. Em 2022, foi homenageado pela junta militar com um dos mais altos títulos honoríficos birmaneses. Dupla frustração: para quem achava que o budismo era uma fortaleza inexpugnável de pacifismo e para aqueles entusiastas apressados da nova superpotência China.”


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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