
Hoje iniciamos no Jornal da USP no Ar a série Porquê da Universidade Pública em que vamos analisar com pesquisadores, especialistas da área da educação e ex-reitores da USP a universidade enquanto lugar da pesquisa científica e desenvolvimento para a sociedade, a universidade como espaço público de ideias e, para isso, a fundamental importância de sua autonomia. Para dar início ao especial, conversamos com o professor Jacques Marcovitch, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, ex-diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e ex-reitor da Universidade.
Todo país com elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dispõe de universidades robustas e centenárias. A autonomia dessas instituições é ponto fundamental para assegurar o ensino e a pesquisa de qualidade, além da capacidade de adaptação aos novos tempos, relata o professor Marcovitch.
O sistema de ensino superior deve sempre buscar a excelência. “Obviamente que algumas universidades vão se destacar mais que outras, mas é como um iceberg: as visíveis são a ponta, mas elas se integram em um sistema de qualidade maior. Por isso, a importância de promover a qualidade e desafiar as universidades”, esclarece o ex-reitor da USP.
Nas últimas cinco décadas, o Brasil passou de 90 milhões de habitantes para 210 milhões, relembra Marcovitch. Segundo o professor, um país com tamanha evolução demográfica tem um contínuo questionamento de todas as suas instituições. “Algumas delas, felizmente, souberam responder melhor às expectativas do que outras”, comenta o professor, e continua: “Certamente as universidades souberam, especialmente as do Estado de São Paulo, pela autonomia que foi concedida na década de 80”.
“Não podemos esquecer que a qualidade do ensino de graduação está associada aos programas de mestrado e doutorado”, enfatiza. São mais de 30 mil alunos de mestrado e doutorado e, aproximadamente, 9 mil títulos outorgados, por ano. “Ter pesquisa e ensino de qualidade, como temos nas três universidades estaduais paulistas, exige um investimento considerável, que o contribuinte tem feito. O melhor indicador da sua correspondência é, justamente, o número crescente de alunos que buscam o vestibular das universidade publicas”.
Há um tensionamento de setores da sociedade para que as universidade públicas passem a cobrar mensalidade. No entanto, estipula-se que, no caso da USP, a cobrança de mensalidade representaria apenas 8% do orçamento da Universidade, não tendo grande impacto no orçamento geral. Para o professor Marcovitch, a questão pode ser vista de diferentes ângulos.
“Existe o angulo ideológico, daqueles que acham que tudo na sociedade deve ser pago. É uma mentalidade da Escola de Chicago”, explica o professor. Contudo, o critério do mérito, defendido pela mesma linha de pensamento, é o fator que determina o ingresso nas universidades públicas. Sendo assim, já existe uma ‘forma de pagamento’.
Outra forma de perceber essa questão é a exclusivamente financeira, isto é, orçamentária. “O Estado que quer economizar vai procurar no ensino superior formas de economia”, elucida o professor. No entanto, valer lembrar que as universidades estatuais paulistas têm a maior parte de seu orçamento dedicado à pesquisa. A parcela da graduação é uma parte menor dentro de um todo.
Finalmente, existe a dimensão da responsabilidade. “Certamente, temos muito o que fazer em termos de monitorar os nossos bolsistas e assegurar que eles terminem o curso no tempo ideal. Alguns acabam permanecendo mais que o necessário na universidade. Essa é uma responsabilidade nossa, de fazer com que os recursos sejam utilizados de forma mais eficiente.”