Vera Ferlini é a nova Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Historiadora é referência nos estudos sobre o Brasil colonial e as relações sociais ligadas à escravidão na economia açucareira, com uma pesquisa que explica como se estruturaram as bases sociais do País

 Publicado: 23/03/2026 às 17:00
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O reitor da USP, Aluisio Segurado, participou da cerimônia de outorga do título de Professor Emérito a Vera Ferlini. A docente é uma referência na pesquisa sobre a economia do açúcar no Brasil e suas influências na formação das bases sociais e econômicas do País – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) acaba de acrescentar mais um nome à sua galeria de Professores Eméritos, honraria concedida pela Universidade a docentes aposentados que se destacaram por sua trajetória acadêmica, produção intelectual e contribuição relevante ao ensino, à pesquisa e à instituição ao longo de suas carreiras. Vera Lucia Amaral Ferlini foi homenageada com o título na última sexta-feira, 20 de março, em cerimônia realizada no Salão Nobre da faculdade. 

“A obra de Vera Ferlini é fundamental para compreender a formação histórica do Brasil ao ir além das explicações tradicionais e revelar a complexidade da sociedade colonial. Seus estudos sobre a economia açucareira mostraram que, para além da dicotomia entre senhores e escravizados, havia uma rede de relações sociais, econômicas e políticas muito mais diversa, envolvendo diferentes grupos e dinâmicas. Ao investigar o funcionamento dos engenhos, as formas de trabalho, a estrutura fundiária e os mecanismos de poder, sua produção trouxe novas interpretações sobre a colonização portuguesa e ajudou a explicar como se constituíram as bases da sociedade brasileira, conferindo unidade e profundidade a um campo essencial da historiografia”, explicou o professor do Departamento de História, Rodrigo Ricupero, a quem coube fazer a saudação à homenageada. 

A professora, que tem extensa carreira não só na produção acadêmica, mas também em cargos de liderança em diversas instâncias universitárias, sensibilizou-se. “Recebo esta homenagem com muita emoção, após uma longa trajetória dedicada ao ensino e à pesquisa, que começou ainda na infância, quando, por meio de livros, tive meu primeiro contato com a história, e se consolidou ao longo de décadas de atuação na Universidade. Foram mais de seis décadas de magistério, sempre orientadas pelo interesse em compreender a formação do Brasil, especialmente a partir da economia açucareira, tema que acompanhou toda a minha vida acadêmica. Ao longo desse percurso, tive a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento de pesquisas, formar alunos e participar de iniciativas institucionais que ampliaram o conhecimento sobre a história ibérica e colonial”, lembrou, fazendo questão de ressaltar que, aos 82 anos, segue ativa e com projetos importantes: “Continuo motivada a prosseguir pesquisando, orientando e refletindo sobre as múltiplas dimensões da história, especialmente no projeto Civilizações do Açúcar, que busca compreender as diferentes formas que essa produção assumiu ao longo do tempo e em distintos contextos. Ainda há muito a investigar e compreender, e é isso que nos move. Como disse Ariano Suassuna: ‘Como sou pouco e sei pouco, faço o pouco que me cabe, me doando por inteiro’”.

O reitor Aluisio Segurado cumprimentou a pesquisadora parabenizando o exemplo de dedicação apresentado por ela ao longo de décadas: “Como reitor da USP, mas também como ex-aluno da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, é uma grande alegria participar de uma sessão como esta, que reconhece uma trajetória marcada pela excelência acadêmica e pelo compromisso com a formação de gerações de estudantes. A professora Vera Ferlini representa de forma exemplar os valores da Universidade, ao aliar produção de conhecimento de alto nível à responsabilidade cívica e à contribuição efetiva para a sociedade. O reconhecimento que hoje se expressa nesta homenagem é compartilhado por toda a comunidade universitária, que vê em sua trajetória um exemplo de dedicação, rigor intelectual e impacto duradouro”.

Cerimônia aconteceu no Salão Nobre da FFLCH e reuniu docentes, estudantes e servidores da unidade, além de autoridades diplomáticas de Portugal e equipes ligadas ao Monumento Nacional Ruínas São Jorge dos Erasmos, que Vera Ferlini dirigiu por oito anos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Professores Eméritos

Ao longo de sua história, a FFLCH concedeu o título de Professor Emérito a mais de 60 docentes que se destacaram por contribuições acadêmicas e intelectuais de grande impacto, em uma diversidade de trajetórias que evidencia o papel da faculdade na formação de lideranças científicas que influenciaram não apenas a produção de conhecimento, mas também o debate público e a compreensão da sociedade brasileira.

A lista reúne nomes de referência em diferentes áreas do conhecimento e inclui figuras amplamente reconhecidas pelo público, como o sociólogo Florestan Fernandes, considerado um dos fundadores da sociologia crítica no Brasil; o crítico literário Antonio Candido, uma das principais referências intelectuais do País; e o geógrafo Aziz Ab’Saber, cuja obra marcou profundamente os estudos sobre a paisagem e o território brasileiro.

Também integram esse grupo nomes como Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República; a historiadora Emília Viotti da Costa, referência internacional nos estudos sobre escravidão; a crítica literária Leyla Perrone-Moisés, destacada nos estudos de literatura moderna; a socióloga Eva Blay, pioneira nos estudos de gênero e direitos das mulheres; e a historiadora Anita Novinsky, reconhecida por suas pesquisas sobre Inquisição, Holocausto e racismo. 

Também Professores Eméritos, Raquel Glezer e Jobson Arruda conduziram a homenageada à mesa da cerimônia – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Quem é

Vera Lúcia Amaral Ferlini é uma das principais referências nos estudos sobre a história econômica e social do Brasil, com destaque para os períodos colonial e imperial. Sua produção acadêmica se concentra na análise da economia açucareira, das relações sociais ligadas à escravidão e da formação das estruturas de poder no País, contribuindo para a compreensão das bases econômicas e sociais da colonização portuguesa. Desde a graduação, também se dedica à história ibérica, com ênfase em Portugal, abordando temas como economia, sociedade e cultura.

Graduada, mestre e doutora pela USP, onde leciona desde 1984, é professora titular do Departamento de História da FFLCH desde 2007 e professora sênior desde 2015, tendo formado dezenas de mestres e doutores. Ao longo de sua trajetória, realizou pós-doutorados em instituições internacionais de destaque e exerceu funções relevantes na Universidade, como a presidência da Comissão de Pós-Graduação da FFLCH e da Cátedra Jaime Cortesão, voltada aos estudos do mundo lusófono. Também dirigiu, de 2010 a 2018, o Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos, importante espaço de pesquisa e preservação histórica. Em 2024, foi condecorada com a Comenda da Ordem do Mérito Infante D. Henrique, reconhecimento por sua contribuição às relações culturais entre Brasil e Portugal.

Assista, a seguir, à íntegra da cerimônia:


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