Reforma Tributária altera dinâmica de custos e impõe desafios para o setor de alimentação

Bares, hotéis e padarias enfrentam incertezas com novo modelo de tributação e precisa adaptar a gestão financeira no período de transição que se estende até 2033

 Publicado: 24/03/2026 às 9:30
Por
Reforma Tributária leva bares e restaurantes a recalcular preços e reavaliar custos diante do novo modelo fiscal – Foto: Freepik
Logo da Rádio USP

A implementação do novo modelo tributário no Brasil, iniciada em janeiro de 2026, já começa a provocar mudanças no setor de alimentação, especialmente entre bares e restaurantes que operam com margens reduzidas. Com a substituição de tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins pelos novos impostos IBS e CBS, estabelecimentos têm sido pressionados a rever estratégias de precificação, renegociar contratos com fornecedores e reavaliar a composição dos cardápios. A transição para o novo sistema será gradual e deve se estender até 2033, período em que empresas ainda convivem com regras antigas e novas simultaneamente.

Silvio Hiroshi Nakao – Foto: Arquivo pessoal

Segundo o professor Silvio Hiroshi Nakao, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, ainda há incertezas sobre os efeitos da reforma, especialmente em relação aos custos. “No setor de alimentação, como bares, restaurantes e padarias, que vendem principalmente para consumidores finais, a maioria optante do Simples nacional, a Reforma Tributária não deve mudar nada para eles, em relação aos seus próprios tributos, mas é possível que haja mudanças para os seus fornecedores. Por enquanto é imprevisível o que vai acontecer. É possível até que haja uma diminuição desses custos.”

O professor ressalta que, no caso de empresas maiores, como supermercados que operam no lucro presumido ou no lucro real, haverá mudanças mais diretas na tributação. “Nas nossas simulações preliminares, essas empresas não devem ter muitas mudanças em termos de carga tributária, mas isso pode depender de uma série de fatores, inclusive da alíquota”, complementa Nakao.

Aumento nas vendas não garante ganho

Em relação ao risco de alguns estabelecimentos passarem a vender mais, mas lucrar menos, Nakao explica que, caso haja redução da carga tributária e consequente queda de preços, é possível haver aumento nas vendas. No entanto, ele não prevê grandes impactos negativos no lucro decorrentes da adaptação ao novo sistema. Para o professor, os próprios sistemas das empresas já estão sendo ajustados à nova sistemática.

Ainda assim, a tributação sobre valor agregado pode alterar os custos dos insumos, já que fornecedores podem repassar aumentos ou reduções de carga tributária. Esse efeito em cadeia tende a influenciar diretamente a formação de preços no setor de alimentação.

Entre as estratégias contábeis e financeiras recomendadas para a adaptação, Nakao destaca a importância de analisar o perfil de clientes da empresa. “Se ela vender mais para consumidores finais e for optante do simples nacional, muito provavelmente ela poderá manter as coisas como estão. Talvez com alguns ajustes nos preços em função de alterações nos custos. Caso ela venda mais para empresas, talvez tenha que migrar para um modelo de tributação regular de IBS e CBS, porque os clientes vão querer obter os créditos desses tributos, ainda que se mantendo no Simples.”

O professor afirma não ser possível garantir que a reforma incentivará uma gestão mais profissionalizada no setor, mas aponta mudanças relevantes na dinâmica financeira das empresas. “Ainda assim, haverá uma necessidade de maior atenção em relação ao capital de giro dessas empresas. Em função da nova sistemática de apuração, os créditos de IBS e CBS só são obtidos com o pagamento dos tributos.”

No longo prazo, a expectativa é de simplificação do sistema, mas o período de transição ainda deve impor desafios operacionais. “Esse período de dez anos está sendo mais complexo e de bastante aprendizado, esperamos que a sistemática fique mais simplificada do que é atualmente. Isso, caso os políticos não façam alterações na lei.”

Nakao ressalta que os efeitos finais da reforma ainda dependem da definição das alíquotas de IBS e CBS. Caso sejam elevadas, há possibilidade de repasse ao consumidor, com aumento nos preços finais.

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.