Os tempos da ciência estão mudando

Por Norberto P. Lopes, pró-reitor adjunto de Inovação da USP, Rafael Seco Saravalli, diretor do Departamento de Convênios da Coordenadoria de Administração Geral da USP, Renata E. L. Ferretti-Rebustini, vice-presidente da Câmara de Conflitos de Interesse e Comprometimento do Escritório de Integridade e Proteção da Pesquisa da PRPI, e Raul Gonzales, coordenador da Agência USP de Inovação

 Publicado: 19/03/2026 às 17:04
Norberto P. Lopes – Foto: Arquivo pessoal
Rafael Seco Saravalli – Foto: Arquivo pessoal
Renata E. L. Ferretti-Rebustini – Foto: Arquivo pessoal
Raul Gonzalez Lima – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Novas políticas internacionais de proteção da pesquisa científica estão mudando a forma como universidades colaboram globalmente — e exigem atenção crescente da comunidade acadêmica brasileira. Nos últimos anos, muitos dos pesquisadores brasileiros que colaboram com universidades estrangeiras provavelmente já perceberam uma mudança sutil, mas crescente, nas regras do jogo da cooperação científica internacional. Formulários adicionais, análises institucionais mais rigorosas, questionamentos sobre compartilhamento de dados e sobre a natureza de determinadas parcerias passaram a fazer parte do cotidiano da pesquisa. Essa transformação reflete um movimento global em torno de um conceito que vem ganhando espaço nas políticas científicas internacionais: research security 1.

É uma obviedade dizer que o mundo vem mudando mais rápido nos últimos anos. No entanto, para muitos, ainda não está claro que a ciência — e, mais especificamente, a sua governança — também está passando por um movimento acelerado de incorporação de novos paradigmas. Muda a complexidade da sociedade, muda a governança em algumas áreas.

Um exemplo claro dessa transformação pode ser observado em eventos internacionais dedicados à governança da pesquisa. Em março de 2023, membros da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) e da Procuradoria Geral da USP (PG), na época sob a direção do professor Paulo Nussenzveig, e através de articulações do InovaUSP, passaram a participar do Academic & Security Counter Exploitation (ASCE) Annual Seminar. Em fevereiro de 2026, novamente, a atual equipe da PRPI, em conjunto com a Procuradoria Geral da USP, participou do ASCE, realizado no Texas A&MUniversity System, nos Estados Unidos. O encontro reuniu representantes de universidades, agências governamentais, órgãos de segurança e especialistas em política científica para discutir um tema que vem ganhando destaque global: a proteção da pesquisa científica em um cenário de crescente complexidade tecnológica e geopolítica.

Nesse contexto surge o conceito de research security ou, em tradução aproximada, segurança em pesquisa. Assim como a research integrity se refere ao conjunto de princípios e regras voltados a garantir a integridade científica e a conduta ética na produção do conhecimento científico, a research security busca proteger a pesquisa contra interferências indevidas e assegurar o uso responsável dos resultados do empreendimento científico.

Todo pesquisador brasileiro que mantém colaborações internacionais provavelmente já percebeu que universidades e até empresas americanas, canadenses e europeias se tornaram mais criteriosas ao estabelecer parcerias. Há hoje maior preocupação com a segurança de dados, proteção institucional e transparência em relações de pesquisa. Muitas dessas exigências decorrem de políticas institucionais voltadas a proteger a pesquisa contra vazamento de dados, apropriação indevida de propriedade intelectual e até mesmo transferência de conhecimento com potencial uso militar e civil: o chamado dual-use knowledge.

Essas restrições aparecem em diversas políticas e orientações internacionais. De forma mais específica, a União Europeia, por meio da Recomendação C/2024/3510, estabeleceu diretrizes aos Estados-membros sobre segurança da pesquisa; os Estados Unidos, seguindo o Memorando Presidencial NSPM-33, determinaram políticas interagências para reforçar a proteção em colaborações científicas internacionais; e o Canadá, por sua vez, definiu princípios e listas de tecnologias e instituições consideradas sensíveis para orientar a cooperação científica.

Esse movimento, evidentemente, tensiona o paradigma de governança científica das últimas décadas, sobretudo no período posterior à queda do Muro de Berlim. Do fim da Guerra Fria até a pandemia de 2020, o modelo colaborativo da ciência se aperfeiçoou e evoluiu. Nesse contexto emerge o movimento da Open Science, no qual transparência e compartilhamento se consolidam como valores centrais da prática científica, tornando-se um traço cultural da comunidade acadêmica mundialmente. A noção de colaboração e cooperação é tão marcante que transborda da própria ciência e influencia também os processos de inovação, dando origem ao conceito de Open Innovation.

O novo cenário internacional, porém, reflete transformações geopolíticas e tecnológicas profundas. Para além das disputas econômicas ou estratégicas que permeiam essas mudanças, a proteção da pesquisa revela uma necessidade concreta. A ciência precisa ser protegida não apenas por razões econômicas ou de competitividade, mas também em defesa da liberdade acadêmica e de valores democráticos.

Interferências indevidas na condução da pesquisa, roubo de propriedade intelectual ou de dados, ou qualquer forma de assédio sistemático promovida por entidades ou indivíduos mal-intencionados corroem o empreendimento científico. Além de comprometer o trabalho de pesquisadores e instituições, essas práticas podem limitar a própria capacidade de pensar livremente — um valor central para universidades como a USP.

Sensível a essas transformações, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, por meio do Escritório de Integridade e Proteção à Pesquisa, pretende promover ao longo dessa gestão algumas atividades voltadas à comunidade uspiana, ampliando o conhecimento sobre riscos associados à governança e às colaborações científicas nacionais e internacionais. Em abril, teremos um USP Lecture dedicado ao tema, o qual deverá ser amplamente divulgado. Em março, está previsto o lançamento de um curso introdutório sobre integridade científica e segurança em pesquisa, outra ação fundamental para dar suporte à nossa comunidade no fortalecimento de práticas e da cultura de proteção da pesquisa.

Não é fácil mudar, mas quase sempre é inevitável. O modelo de ciência aberta será cada vez mais um valor central para a comunidade científica. No entanto, para preservarmos seus princípios — como colaboração internacional e liberdade acadêmica — será necessário adaptá-lo a um cenário global mais complexo em que a ciência aberta, a integridade científica, a avaliação responsável e a segurança em pesquisa convergem ao promover um ambiente científico que equilibra abertura, integridade e responsabilidade institucional.

Caso contrário, poderemos restringir nosso espaço de atuação no sistema científico internacional ou, pior, deixar de proteger os valores que sustentam o próprio empreendimento científico.

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