



É uma obviedade dizer que o mundo vem mudando mais rápido nos últimos anos. No entanto, para muitos, ainda não está claro que a ciência — e, mais especificamente, a sua governança — também está passando por um movimento acelerado de incorporação de novos paradigmas. Muda a complexidade da sociedade, muda a governança em algumas áreas.
Um exemplo claro dessa transformação pode ser observado em eventos internacionais dedicados à governança da pesquisa. Em março de 2023, membros da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) e da Procuradoria Geral da USP (PG), na época sob a direção do professor Paulo Nussenzveig, e através de articulações do InovaUSP, passaram a participar do Academic & Security Counter Exploitation (ASCE) Annual Seminar. Em fevereiro de 2026, novamente, a atual equipe da PRPI, em conjunto com a Procuradoria Geral da USP, participou do ASCE, realizado no Texas A&MUniversity System, nos Estados Unidos. O encontro reuniu representantes de universidades, agências governamentais, órgãos de segurança e especialistas em política científica para discutir um tema que vem ganhando destaque global: a proteção da pesquisa científica em um cenário de crescente complexidade tecnológica e geopolítica.
Nesse contexto surge o conceito de research security ou, em tradução aproximada, segurança em pesquisa. Assim como a research integrity se refere ao conjunto de princípios e regras voltados a garantir a integridade científica e a conduta ética na produção do conhecimento científico, a research security busca proteger a pesquisa contra interferências indevidas e assegurar o uso responsável dos resultados do empreendimento científico.
Todo pesquisador brasileiro que mantém colaborações internacionais provavelmente já percebeu que universidades e até empresas americanas, canadenses e europeias se tornaram mais criteriosas ao estabelecer parcerias. Há hoje maior preocupação com a segurança de dados, proteção institucional e transparência em relações de pesquisa. Muitas dessas exigências decorrem de políticas institucionais voltadas a proteger a pesquisa contra vazamento de dados, apropriação indevida de propriedade intelectual e até mesmo transferência de conhecimento com potencial uso militar e civil: o chamado dual-use knowledge.
Essas restrições aparecem em diversas políticas e orientações internacionais. De forma mais específica, a União Europeia, por meio da Recomendação C/2024/3510, estabeleceu diretrizes aos Estados-membros sobre segurança da pesquisa; os Estados Unidos, seguindo o Memorando Presidencial NSPM-33, determinaram políticas interagências para reforçar a proteção em colaborações científicas internacionais; e o Canadá, por sua vez, definiu princípios e listas de tecnologias e instituições consideradas sensíveis para orientar a cooperação científica.
Esse movimento, evidentemente, tensiona o paradigma de governança científica das últimas décadas, sobretudo no período posterior à queda do Muro de Berlim. Do fim da Guerra Fria até a pandemia de 2020, o modelo colaborativo da ciência se aperfeiçoou e evoluiu. Nesse contexto emerge o movimento da Open Science, no qual transparência e compartilhamento se consolidam como valores centrais da prática científica, tornando-se um traço cultural da comunidade acadêmica mundialmente. A noção de colaboração e cooperação é tão marcante que transborda da própria ciência e influencia também os processos de inovação, dando origem ao conceito de Open Innovation.
O novo cenário internacional, porém, reflete transformações geopolíticas e tecnológicas profundas. Para além das disputas econômicas ou estratégicas que permeiam essas mudanças, a proteção da pesquisa revela uma necessidade concreta. A ciência precisa ser protegida não apenas por razões econômicas ou de competitividade, mas também em defesa da liberdade acadêmica e de valores democráticos.
Interferências indevidas na condução da pesquisa, roubo de propriedade intelectual ou de dados, ou qualquer forma de assédio sistemático promovida por entidades ou indivíduos mal-intencionados corroem o empreendimento científico. Além de comprometer o trabalho de pesquisadores e instituições, essas práticas podem limitar a própria capacidade de pensar livremente — um valor central para universidades como a USP.
Sensível a essas transformações, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, por meio do Escritório de Integridade e Proteção à Pesquisa, pretende promover ao longo dessa gestão algumas atividades voltadas à comunidade uspiana, ampliando o conhecimento sobre riscos associados à governança e às colaborações científicas nacionais e internacionais. Em abril, teremos um USP Lecture dedicado ao tema, o qual deverá ser amplamente divulgado. Em março, está previsto o lançamento de um curso introdutório sobre integridade científica e segurança em pesquisa, outra ação fundamental para dar suporte à nossa comunidade no fortalecimento de práticas e da cultura de proteção da pesquisa.
Não é fácil mudar, mas quase sempre é inevitável. O modelo de ciência aberta será cada vez mais um valor central para a comunidade científica. No entanto, para preservarmos seus princípios — como colaboração internacional e liberdade acadêmica — será necessário adaptá-lo a um cenário global mais complexo em que a ciência aberta, a integridade científica, a avaliação responsável e a segurança em pesquisa convergem ao promover um ambiente científico que equilibra abertura, integridade e responsabilidade institucional.
Caso contrário, poderemos restringir nosso espaço de atuação no sistema científico internacional ou, pior, deixar de proteger os valores que sustentam o próprio empreendimento científico.
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