Estudantes da USP identificam falhas de órgão que deveria mediar processo de reintegração de posse

Integrantes de projeto de extensão da Faculdade de Direito analisaram o caso da ocupação Ouvidor 63, no centro de São Paulo; projeto promove vaquinha para que alunas possam apresentar o trabalho no Rio

 Publicado: 13/03/2026 às 18:44     Atualizado: 16/03/2026 às 16:29
Por
A foto mostra um prédio de vários andares com fachada coberta por grafites e pinturas coloridas. As janelas exibem cartazes, placas ou grades metálicas, reforçando o aspecto urbano e artístico. Em frente ao edifício há uma motocicleta carregada com bagagens e um estojo de violão. Um grande banner pendurado traz a frase em português: “ARTE E CULTURA EM RISCO #OUVIDOR63RESISTE”.
Fachada da ocupação cultural Ouvidor 63, no centro de São Paulo – Foto: condorvientosur/Instagram

 

Um grupo de estudantes da Faculdade de Direito (FD) da USP viaja ao Rio de Janeiro neste mês para apresentar alguns resultados de uma pesquisa em andamento que analisa a atuação de um órgão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) idealizado para solucionar conflitos fundiários urbanos de forma consensual. O trabalho, que ainda está em processo de escrita, oferece uma reflexão sobre o processo judicial de reintegração de posse da ocupação Ouvidor 63, localizada no Centro Histórico de São Paulo, bem próxima à FD. A partir desse caso, as estudantes argumentam que a realidade da atuação do órgão do TJ ainda está distante do ideal de consenso.

O órgão analisado pelas estudantes da FD é a Comissão Regional de Soluções Fundiárias e de Vistoria Técnica (Coresf) do TJ-SP. O Coresf reúne representantes dos poderes Judiciário e Executivo, com o objetivo de dar apoio administrativo ao cumprimento de ordens judiciais que possam resultar em remoções de grupos vulneráveis. As normativas da Coresf preveem a realização de processos de mediação e audiências de conciliação. No cerne da proposta está o reconhecimento de que as cidades brasileiras são palco de conflitos que opõem o direito de moradia ao direito de propriedade da terra urbana.

“A Coresf é essa comissão em que vários atores e agentes institucionais, de várias esferas do governo, se reúnem junto aos advogados do caso e uma juíza ou um juiz para buscar uma saída consensual. Então, é um órgão administrativo, não é judicial, especificamente, embora ele seja solicitado no meio do processo judicial. É um órgão administrativo de resolução de conflitos por meio de mediação”, explica Heloísa Salles Camargo, mestranda da FD e uma das coordenadoras do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (Saju) da faculdade, na frente do direito à cidade. O Saju é um projeto de extensão universitária da FD.

+ Mais

Foto mostra mesa de conferência com quatro pessoas, três sentadas e uma em pé falando ao microfone. Ao fundo, grande tela digital colorida exibe ilustrações urbanas e rurais. Banners e bandeiras de sindicatos e movimentos sociais brasileiros, como CUT Brasil e SINTEGO, decoram o palco, indicando evento voltado a direitos dos trabalhadores e organização comunitária. A cena transmite diversidade de representações e caráter coletivo de debate político‑social.

“6ª Conferência das Cidades” reativa participação social na formulação da política urbana do País

Falha na política de habitação expõe cidadãos a estratégia criminosa de remoção

Heloísa, uma das coautoras do trabalho, conta que o Saju tem acompanhado as ações do Coresf no âmbito do processo judicial da ocupação Ouvidor 63, que é frequentemente descrita como a maior ocupação cultural da América Latina. O local, que já foi um centro cultural, foi abandonado e posteriormente ocupado pelo movimento de moradia. Desocupado, foi reocupado novamente em 2014 por mais de 100 artistas, que passaram a viver e trabalhar no local. O imóvel é alvo de uma reintegração de posse que se encontra transitada em julgado – o que quer dizer que não cabe mais recurso à decisão da Justiça.

“Esse trânsito em julgado significa que nossas melhores chances de evitar uma reintegração armada e traumática são através do acordo. O problema quando a gente fala dos problemas de operação do Coresf é que este acordo, ao invés de ser construído, ele acaba sendo sabotado. Então, o trânsito em julgado vem colocar pressão sobre a necessidade e urgência do acordo”, diz Augusto Pessin, advogado da ocupação e coautor do trabalho. “Também é um sinal de que nós ainda estamos diante de um privilégio muito forte da propriedade, diante dos direitos humanos e sociais”, completa.

Ao analisar o caso, as integrantes do Saju identificaram sérios problemas na atuação do Coresf, como a não previsão de participação dos moradores ocupantes na mesa de negociação, colocando-os praticamente sob um “regime de tutela”, a falta de transparência na elaboração dos relatórios, visitas técnicas que pegam os moradores de surpresa e a não disponibilização das atas das vistorias técnicas antes das reuniões. “Eles são surpreendidos de uma reunião para outra com o que ficou consolidado na ata ou, principalmente, com o que apareceu no relatório das visitas técnicas. A gente também faz uma problematização desse ponto, porque pega de surpresa a defesa”, diz Heloísa.

Outro problema, destacado tanto por Heloísa quanto por Augusto, é a desconsideração da organização coletiva dos moradores pelo Coresf. “Os ocupantes não fazem parte de um movimento de moradia propriamente dito, mas eles são um coletivo autorreconhecido. Eles se reúnem em assembleias semanais, têm um estatuto de organização, têm valores de atuação, de posicionamentos. Então, por mais que eles não sejam um movimento de moradia articulado, isso não significa que não tenha uma organização desses moradores, uma organização com impacto político mesmo, social. E isso foi desconsiderado pela juíza, que assinalou nos relatórios que não haveria nenhum tipo de organização”, afirma a pesquisadora.

Além de Heloísa e Augusto, também assinam o trabalho as estudantes de graduação Giovanna Silva Siqueira e Luiza Braga Renó. Elas irão apresentar a análise do caso da ocupação Ouvidor 63 no Seminário Nacional Comissões de Soluções Fundiárias e o Direito à Terra e à Moradia Adequada, que será sediado no Rio de Janeiro entre os dias 23 e 25 de março e reunirá acadêmicos, advogados e assessores jurídicos. Como as estudantes não conseguiram apoio financeiro da faculdade para apresentar o trabalho, o Saju está promovendo uma vaquinha para custear a viagem. As contribuições, de qualquer valor, podem ser enviadas para o Pix giovannasiqueira@usp.br.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.