
A trajetória de mulheres em cargos de liderança e a importância da equidade de gênero na pesquisa acadêmica estiveram no centro de eventos realizados nesta semana em celebração ao Dia Internacional da Mulher, que contaram com a participação da vice-reitora da USP, Liedi Légi Bariani Bernucci. Entre os dias 9 e 10 de março, as atividades reuniram pesquisadores, estudantes e militares em debates que destacaram o protagonismo feminino na construção de um futuro baseado na ciência e na inovação tecnológica.
Na segunda-feira, dia 9, Liedi integrou o evento Mulheres geradoras de um futuro melhor, realizado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) e pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) no auditório István Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM). O encontro reuniu professoras da Universidade para discutirem suas trajetórias e o papel das mulheres em áreas estratégicas.
A vice-reitora participou do primeiro painel, intitulado Coletividade como protagonista, ao lado da diretora da Faculdade de Direito (FD), Ana Elisa Bechara, e da professora do Instituto de Geociências (IGc), Adriana Alves. O debate, mediado pela jornalista Ana Botallo, da Folha de S.Paulo, abordou temas diversos, desde segurança e infraestrutura até o impacto das mudanças climáticas e o combate à violência contra a mulher no Brasil.

“A minha trajetória na engenharia começou em uma área tradicionalmente vista como masculina, nas chamadas áreas de Stem [acrônimo em inglês para Science, Technology, Engineering and Maths, ou Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática]. Vim de uma cidade pequena e conservadora, mas tive a sorte de crescer em uma família aberta às minhas escolhas. Quando criança, eu gostava de brincar com carrinhos e nunca me disseram que aquilo era estranho para uma menina. Só muitos anos depois percebi o quanto essa liberdade foi importante para que eu seguisse esse caminho. No entanto, não podemos depender apenas da sorte: muitas meninas ainda enfrentam barreiras dentro da própria família ou na escola, onde, até hoje, se ouve que matemática seria mais difícil para elas. Essas experiências me acompanharam também na docência. Neste ano completo 40 anos como professora da USP e sempre procurei incentivar os alunos a seguirem suas vocações sem preconceito”, contou Liedi.
Em sua fala, a vice-reitora reforçou a importância de que a equidade de gêneros siga sendo um assunto a ser priorizado: “Quando entrei na Escola Politécnica (Poli), as mulheres eram apenas cerca de 4% dos estudantes. Hoje passam de 20%, o que ainda é pouco. Ao longo da minha trajetória, também vivi episódios de preconceito, inclusive durante o doutorado na Suíça, mas tive orientadores e colegas que mostraram a importância de enfrentar essas situações e trabalhar por ambientes mais inclusivos. Mais tarde, na gestão universitária, tornei-me a primeira mulher eleita diretora da Escola Politécnica em 124 anos de história, e ali entendi que havia também um compromisso simbólico: ajudar a abrir caminhos para outras mulheres. Quando uma mulher chega a posições de liderança, ela se torna referência e pode contribuir para que mais meninas e jovens se sintam pertencentes a esses espaço”.
O segundo painel, No centro, a figura humana, trouxe discussões sobre genética e transplantes com a coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco do Instituto de Biociências (IB), Mayana Zatz; a professora da Faculdade de Medicina (FM), Ana Cristina Tannuri; e a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), Giselle Beiguelman. A mediação foi realizada pela jornalista Carolina Azevedo, da Revista Cult.
A coordenadora do evento, Marilza de Oliveira, pontuou a relevância deste tipo de encontro: “Há mulheres cientistas, intelectuais e artistas que iluminam e aquecem a sociedade com seu trabalho, contribuindo para a construção de um futuro melhor para todos. Como docentes e pesquisadoras líderes, essas mulheres não apenas apontam desafios: elas criam projetos, formam equipes, estabelecem parcerias e impulsionam o desenvolvimento científico e social do País. Uma das tarefas mais importantes dessas mulheres é interromper ciclos de intolerância e violência, abrindo caminho para que outras mulheres não encontrem os mesmos obstáculos. Elas abrem caminhos para mulheres que talvez nunca venham a conhecer, retirando pedras do caminho para que outras não tropecem”.

Mulheres e engenharia para a paz
No mesmo dia, a vice-reitora esteve no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, participando do encontro Mulheres e engenharia para a paz, que reuniu convidados com a proposta de traçar um retrato do cotidiano de mulheres em posição de liderança e trazer à luz os desafios contemporâneos, motivando atuais e futuras gerações de mulheres de todas as idades, classes sociais e origem, para o equilíbrio de gênero na sociedade.
Engenharia para paz, ou peace engineering, é um campo transdisciplinar emergente na educação e pesquisa, enfatizando o papel significativo da inovação e tecnologia na prevenção e resolução de conflitos, consolidando pontes entre ciência, cultura e paz, em direção a um futuro sustentável para a humanidade e meio ambiente.
Ao público do evento, a vice-reitora reforçou sua mensagem sobre a importância da diversidade e da inclusão: “Na engenharia, como em muitas áreas, as mulheres frequentemente sentem que precisam ser sempre muito boas para serem reconhecidas. Muitas vezes não se permitem errar, enquanto os homens parecem ter mais liberdade para isso. Quando entrei na engenharia, ouvi comentários desestimulantes, inclusive de professores, dizendo que as mulheres acabariam abandonando a profissão para casar. Tive a sorte de contar com o apoio da minha família para seguir meu caminho, mas sei que nem todas têm essa mesma oportunidade. Por isso, acredito que precisamos questionar constantemente os preconceitos que ainda influenciam as escolhas de meninas e jovens. Ao longo da minha trajetória como docente, sempre apoiei e incentivei os estudantes por saber como um professor pode marcar profundamente a vida de um aluno, e como uma palavra negativa pode desmotivar alguém por muito tempo. Nosso papel é ajudar a abrir caminhos, mostrar que é possível e não limitar o potencial das pessoas com ideias preconcebidas sobre o que elas podem ou não fazer”, defendeu.
Além de Liedi, os debates da programação contaram com convidadas como a diretora do IEA, Roseli de Deus Lopes; a diretora da Poli, Anna Reali; a diretora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), Clotilde Perez; a diretora da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, Maria Dolores Montoya Diaz; a diretora da Orquestra Sinfônica da USP (Osusp), Cassia Carrascoza; a diretora do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, Marislei Nishijima; a cônsul-geral do México em São Paulo, Claudia Velasco Osorio; a artista plástica Denise Milan; a atleta olímpica e diretora de Políticas de Futebol do Ministério do Esporte, Miraildes Maciel Mota “Formiga”; e a jornalista e escritora Mariah Morais.

Palestra na Marinha do Brasil
Dando continuidade à agenda alusiva à data, a vice-reitora proferiu uma palestra na manhã da terça-feira, dia 10, no Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, onde buscou apresentar aos militares e colaboradoras da instituição uma referência de liderança feminina em setores historicamente masculinos.
Primeira mulher a dirigir a Escola Politécnica (Poli) em mais de um século de história, Liedi comentou sobre os desafios da equidade e perspectivas para um cenário futuro: “Dados do Fórum Econômico Mundial revelam um contraste preocupante: embora o Brasil seja a 22ª maior economia do mundo, ocupamos apenas a 72ª posição no ranking de igualdade de gênero, com um gap invisível que persiste no topo das carreiras e no empoderamento político. Apesar de já sermos maioria no ensino superior e estarmos próximos da paridade em áreas como saúde e educação, as projeções indicam que, no ritmo atual, levaríamos mais de 160 anos para alcançar a igualdade política plena, o que é inaceitável para o desenvolvimento nacional. Precisamos acelerar essa transformação por meio de políticas públicas e ações afirmativas, pois a falta de diversidade não é apenas uma questão social, mas uma perda direta de inovação e competitividade para a nossa economia”, afirmou.
Ela saudou a oportunidade de poder levar uma mensagem às mulheres de uma instituição que vem trabalhando com a USP há muitos anos. “A Marinha do Brasil é uma parceira estratégica há sete décadas, uma colaboração que se provou vital em momentos críticos, como na produção de ventiladores pulmonares durante a pandemia. Estar aqui hoje para discutir a participação feminina é dar continuidade a essa história, unindo a competência técnica da engenharia ao compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. É uma honra ver mulheres, tanto civis quanto militares, ocupando espaços de decisão e mostrando que a excelência não tem gênero.”
A programação também contou com contribuições de profissionais das áreas de saúde e psicologia, reforçando uma abordagem multidisciplinar sobre o bem-estar e o papel da mulher na sociedade contemporânea.

























