
O caso do assassinato do cão Orelha, que provocou grande comoção em todo o País, é o foco deste comentário do professor Carlos Eduardo Lins da Silva ao analisar a cobertura do episódio pela imprensa. Na sua opinião, o jornalismo parece ter aprendido as lições deixadas pelo incidente da Escola Base, em 1994, “quando a imprensa em geral acabou entrando numa onda de acusações que não estavam ainda comprovadas contra os proprietários daquela escola e, basicamente, destruíram a vida daquelas pessoas, e depois, com o passar das investigações, o caso foi até encerrado por falta de provas. Aquilo acabou virando um marco na história do jornalismo brasileiro e constantemente é relembrado em sala de aula, em conferências, assim por diante”. Ele reconhece, no entanto, que houve erros em muitos momentos no caso da morte do cão Orelha, dando espaço inclusive para a projeção de policiais e delegados, que se aproveitaram do caso para a promoção pessoal e até para se lançarem a cargos políticos em Santa Catarina. “Apesar disso, eu acho que houve um progresso, inclusive com alguns veículos se destacando, como, por exemplo, o Programa Fantástico da Rede Globo, a BBC News Brasil e a própria Folha de S.Paulo, que logo perceberam que alguns abusos estavam sendo cometidos e que era preciso um pouco de ceticismo ou pelo menos de investigação em relação aos jovens que estavam sendo acusados ou que estavam sendo suspeitos de terem praticado aquele crime horroroso.”
Se isso é verdade em relação à grande imprensa, o mesmo não pode ser dito quando se analisa o jornalismo feito nas redes sociais, e que mostra a diferença existente entre as duas abordagens jornalísticas, ou seja, a feita pelo jornalismo profissional e aquela das redes sociais, dos portais e dos blogs, “que realmente fizeram coisas que são absolutamente condenáveis, que claramente ofendiam e desrespeitavam as leis do País, crimes previstos no estatuto da criança e do adolescente, colocando as fotos dos suspeitos nas redes sociais, dando endereços, dando os nomes deles e dos pais deles, publicando imagens, e que transformaram, imagino eu, a vida dessas famílias num absoluto inferno. De novo, isso demonstra a importância decisiva que tem para uma sociedade o fato de haver jornalismo que responde a questões éticas, a questões de técnica, de apuração de informação, e a questões de respeito à dignidade humana, que a maioria desses portais que se dizem jornalísticos não fizeram nesse caso e não costumam fazer de um modo geral. Acho que esse caso do cão Orelha vai também entrar para a história do jornalismo como um exemplo de como é diferente e de como deve ser respeitado e valorizado o trabalho do jornalismo profissional sério. Deve haver algum tipo de punição para os que divulgam informações que não são corretas, aos que difamam e aos que expõem ao público em geral a privacidade e coloca em risco a segurança de pessoas e famílias cuja responsabilidade pelo fato não foi devidamente comprovada”.
Horizontes do Jornalismo
A coluna Horizontes do Jornalismo, com o professor Carlos Eduardo Lins da Silva, vai ao ar quinzenalmente, segunda-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
.























