Cientistas da USP usam derivados de eugenol para fabricação de medicamentos contra a leishmaniose

Com média anual de 12.655 casos, a leishmaniose afeta principalmente regiões rurais no Norte e Nordeste do País

 Publicado: 03/03/2026 às 11:53
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chapéu que indica que a matéria faz parte do Momento Tecnologia

Imagem do mosquito palha, transmissor da leishmaniose, picando a epiderme de uma pessoa
Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registra, em média, 12.655 casos de Leishmaniose tegumentar por ano, a forma mais comum da infecção, – Foto: James Gathany/CDC/Wikimedia Commons/Domínio público
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Cientistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP desenvolveram um novo método de síntese de derivados do eugenol. A inovação resulta em compostos com maior estabilidade, seletividade e potencial farmacológico que podem ser de interesse para novos medicamentos, produtos de higiene, cosméticos inovadores e usos veterinários.

Segundo Giuliano Clososki, professor responsável pela pesquisa, “o que nós buscamos foi fazer modificações estruturais na molécula, na estrutura do eugenol, visando ampliar, amplificar essas propriedades medicinais. A avaliação biológica dos compostos demonstrou exatamente que essa hipótese estava correta, que é possível, sim, gerar candidatos potencialmente leishmanicidas a partir dessa estratégia”. 

Henrique Orenha – Foto: Linkedin

Além da atividade leishmanicida, Henrique Orenha, um dos pesquisadores envolvidos no projeto, destaca a “atividade anticâncer, antifúngica e anti-inflamatória” e comenta seu uso na odontologia. Junto do óxido de zinco, o eugenol é usado em restaurações provisórias, forramento de cavidades e como anti-inflamatório.

Clososki ainda explica que, embora muitos dos atributos do eugenol sejam conhecidos e que já existam aplicações na área da saúde, não existem medicamentos aprovados pela Anvisa baseados ou que tenham o eugenol como estrutura. “Mas existem vários estudos que indicam o potencial desses compostos como candidatos a fármacos. É exatamente dentro dessa linha que está inserida a pesquisa”, completa.

Usos do eugenol

O eugenol é um composto fenólico aromático natural, extraído principalmente do óleo de cravo, mas também presente na canela, sassafrás e mirra, conhecido por seu forte aroma e sabor picante. Pode ser transformado em óleo essencial e utilizado como odorizador ou repelente de insetos. Também são conhecidos os usos terapêuticos do eugenol, como a mastigação de cravo-da-índia para a dor de dente e de garganta, chá de cravo para indigestão, uso do óleo essencial em massagens e outros usos culinários. 

Na pesquisa, foram feitas modificações estruturais que visam amplificar essas propriedades medicinais. Clososki explica que, “para isso, a proposta medicinal envolve a inserção de um outro grupo na molécula, que se chama 1,2,3-triazol, que, este sim, é muito presente em fármacos e tem uma compatibilidade biológica muito conhecida. Por meio desse novo núcleo que está inserido no eugenol, nós conseguimos atribuir características diferentes para a molécula e avaliar essas propriedades”.

Giuliano Cesar Clososki – Foto: Linkedin

Na ação leishmanicida, Orenha explica que a molécula do eugenol aliada ao triazol é capaz de modular o sistema imunológico do paciente, estimulando o combate ao protozoário causador da leishmaniose em sua forma amastigota. O professor Clososki complementa dizendo que, embora avaliações tenham sido realizadas, o mecanismo de ação ainda é desconhecido: “Possivelmente nós temos um mecanismo de ação diferente dos fármacos conhecidos até o momento. Isso abre a oportunidade para que a gente desenvolva novas terapias a partir de um novo mecanismo de ação, que ainda está em fase de descoberta. Mas é realmente uma questão muito importante, é um resultado bastante relevante também desse projeto”.

No nível de maturidade tecnológica TRL4, o próximo passo são as avaliações em vivo, a partir das quais seriam possíveis melhorias estruturais na molécula. Segundo Clososki, o laboratório já vem recebendo contato de empresas interessadas em desenvolver os próximos passos da pesquisa rumo a um produto de interesse do mercado.

Humanos, cachorros e pesquisa

Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registra, em média, 12.655 casos de Leishmaniose tegumentar por ano, a forma mais comum da infecção, conhecida pelas feridas na pele e nas mucosas. A doença tem prevalência em áreas rurais e é mais presente em alguns estados do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e no Estado de Minas Gerais. A moléstia ainda possui uma forma visceral, altamente letal, que afeta os órgãos internos dos pacientes infectados.

A leishmaniose também está presente em outras regiões do globo, como na África. Além dos seres humanos, os pets, especialmente os cachorros, podem ser infectados, funcionando muitas vezes como reservatórios da doença, que se espalha pela picada de mosquitos-palhas infectados.

Segundo o professor Clososki: “Nós ainda temos uma incidência muito grande dessas doenças, que são chamadas negligenciadas. E nós sabemos que esse tipo de pesquisa normalmente não é financiado por grandes empresas farmacêuticas, porque elas têm outros interesses além das doenças negligenciadas que acometem normalmente os países em desenvolvimento na África e América do Sul. Então essa, com certeza, é a motivação desse projeto.” Orenha ainda destaca que os medicamentos podem ser de interesse da área veterinária e diz que o cuidado com os pets é também motivação extra na pesquisa.

Não existe vacina contra a leishmaniose, e a principal forma de prevenção é o combate ao mosquito-palha. Limpar quintais e terrenos, evitar água parada, fazer uso de repelentes, telas e mosquiteiros são as recomendações no combate a essa doença, principalmente nas regiões rurais. Valem também o cuidado e a atenção com os pets, especialmente os cachorros, pois esses podem vir a ser reservatórios da doença depois de infectados.

 

Fonte: Fiocruz

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo


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