
Entre os dias 5 e 8 de agosto, acontece em São Paulo o seminário internacional Cartografias da Cultura: Disputas por Legitimação, promovido pelo Centro Observatório das Instituições Brasileiras (COI) da USP e pelo Núcleo de Sociologia da Cultura da USP, com parceria do Centro MariAntonia. O evento reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros para discutir como os cânones culturais são formados, disputados e questionados, especialmente à luz dos movimentos sociais e intelectuais que vêm desafiando paradigmas estabelecidos.

A proposta parte de uma constatação: autorias e formas de expressão historicamente subestimadas estão hoje no centro do debate cultural no Brasil, exigindo uma revisão crítica dos critérios tradicionais de legitimação. Temas como relações sociais racializadas, gênero, sexualidade, antagonismos sociais e mobilidade ganham espaço nos processos de produção e reconhecimento cultural, desafiando modelos consagrados como o modernismo paulista, o nacional-popular e vertentes clássicas do pensamento social brasileiro.
Para a vice-presidente do COI e vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, a realização do seminário é uma resposta a desafios que o centro se propôs enfrentar em seu processo de estruturação. “Ele foi pensado em torno de temas fundamentais para a compreensão da dinâmica das sociedades contemporâneas e de como essas questões se refratam na realidade brasileira, incluindo a desigualdade social, a democracia, as novas formas de trabalho e a transformação do cânone cultural”, explica.
“A cultura hoje ocupa uma centralidade absoluta na compreensão do mundo em que vivemos. Com o avanço das redes sociais, das tecnologias de informação e da inteligência artificial, são essas linguagens que passaram a ordenar a nossa realidade, para o bem e para o mal. As instituições democráticas estão sendo profundamente impactadas por algoritmos e informações falsas. A inteligência artificial é, ela mesma, uma linguagem. E cultura é isso: um tecido simbólico, um campo de significados em constante disputa. Ao mesmo tempo, surgem expressões contra-hegemônicas muito relevantes, como as literaturas afrodescendente, indígena e feminina, que vêm deslocando o cânone tradicional e ampliando o repertório simbólico da nossa sociedade”, avalia a dirigente, que também é docente do Departamento de Sociologia da Universidade e já exerceu os cargos de Pró-Reitora de Cultura e Extensão Universitária e de diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).
Maria Arminda finaliza explicando a importância do encontro para estudos contemporâneos a respeito da cultura e sociedade: “A ideia é mapear as questões culturais emergentes reunindo mesas sobre intelectualidade negra, sociologia e literatura contra-hegemônica, entre outros temas que expressam bem essa transformação profunda do campo cultural. O impacto dessas mudanças pode ser tão significativo quanto aquele que, na Antiguidade, deslocou a cultura clássica com o surgimento do cristianismo, embora hoje lidemos com um contexto muito mais fragmentado e caótico. O que se pretende com o seminário é exatamente isso: refletir sobre esse novo cenário simbólico e sobre como ele se articula com os objetivos centrais do observatório”.
Cultura, poder e diversidade: os eixos do seminário
O coordenador do evento, Luiz Carlos Jackson, professor do Departamento de Sociologia da USP, destaca que o seminário foi concebido para reunir as pesquisas mais recentes das ciências sociais sobre cultura, dando visibilidade a autorias e perspectivas que têm provocado transformações profundas no campo simbólico. “Nas últimas décadas, as relações sociais racializadas e de gênero se impuseram como perspectivas decisivas para explicar a formação e a mudança dos cânones na literatura, na música e nas artes em geral. Nosso objetivo é fomentar o debate sobre as ferramentas teóricas com que os pesquisadores dessas áreas têm atuado”, afirma.

Segundo Jackson, o foco não está na substituição de paradigmas, mas na compreensão das lógicas sociais que estruturam o campo cultural. “Não se trata propriamente de questionar diretamente cânones, mas de reinterpretá-los a partir do impacto provocado pelas disputas recentes por legitimação de autoras e autores antes desconsiderados. Esperamos que o seminário traga à tona análises que ajudem a entender esse cenário complexo, sem a pretensão de reorganizar o campo cultural — que se move pelas disputas entre seus agentes, não por decisões tomadas nos muros da academia”, explica.
Ele também destaca que a ideia de “cartografias” no título do evento nasceu como uma metáfora para o desafio que os organizadores se propuseram a enfrentar. “Queríamos sondar por diversos caminhos o emaranhado das transformações culturais em curso. Pretendemos esboçar, em diálogo, um mapa dessas mudanças, no qual as tensões, disputas e inovações fiquem mais aparentes”, diz o professor.
Para isso, o seminário aposta na articulação entre diferentes áreas do conhecimento. “Nosso esforço foi reunir pesquisadores que vêm pensando essas questões a partir de múltiplos campos: sociologia, literatura, história, estudos culturais. Ao aproximar esses saberes, queremos também dialogar com os movimentos sociais e com um público mais amplo, que já está sensível a essas transformações”, conclui Jackson.
A programação começa na terça-feira, dia 5, com uma conferência de abertura no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc de São Paulo, homenageando o sociólogo Sergio Miceli, referência na sociologia das relações raciais. Na sequência, a mesa Ciências Sociais em Disputa retoma e atualiza o debate iniciado por Miceli em 1989 com o livro História das Ciências Sociais no Brasil, abordando as tensões atuais da área.

Na quarta-feira, dia 6, já no Centro MariAntonia da USP, as mesas Intelectualidade Negra e Ensaio Político no Brasil e Intelectualidade Negra e Sociologia no Brasil refletem sobre como o ensaio político e a sociologia, dois gêneros fundamentais da vida intelectual brasileira, ajudaram a moldar a compreensão do País, agora sob novos olhares e com foco em vozes negras.
A quinta-feira, dia 7, traz perspectivas latino-americanas. A mesa Guerra Fria Cultural na América Latina reúne especialistas da Argentina, Uruguai e Brasil para discutir os impactos políticos e intelectuais do período. Já a mesa Literaturas Contra-Hegemônicas no Brasil coloca em foco as disputas por consagração no campo literário e a emergência de novos autores e narrativas.
Encerrando o evento, na sexta-feira, dia 8, a mesa Culturas Periféricas e Revolução Simbólica analisa as mudanças culturais mais marcantes das últimas três décadas, com destaque para a música brasileira e a produção vinda das periferias. A conferência de encerramento reúne a pesquisadora francesa Gisèle Sapiro – autora de obras como É Possível Dissociar a Obra do Autor?, Sociologia da Literatura e Os Intelectuais – e o próprio Sergio Miceli, figura central da sociologia da cultura no Brasil.
Todas as atividades são gratuitas, com sessões às 11h e às 16h. A conferência de abertura será no CPF do Sesc (Rua Dr. Plínio Barreto, 285) e as demais mesas acontecem no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294). Não é necessário efetuar inscrição prévia e mais informações podem ser encontradas neste link.
























