Seria arriscado, mesmo temerário, calcular no momento o quanto, como e onde exatamente o governo Trump promoverá o maior caos. Trump e sua trupe de direita não economizarão estragos: o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J. D. Vance, o profeta orgânico Steve Bannon e, principalmente, os visíveis e insidiosos interesses das big techs & Cia. Sob a batuta deles florescerão cem flores, parafraseando um lema de Mao Zedong em 1956.
As tais cem flores, ou diversidade de opinião, não passava de uma armadilha para incentivar os ingênuos a expressar suas opiniões, serem identificados e devidamente eliminados. A vigarice, aliás, é um dos principais componentes da personalidade psicopata. Se é vermelha (comunista) ou laranja (Make America Great Again), tanto faz. O legado de Mao deu na Revolução Cultural (1966-76), aquela em que professores usavam chapéu de burro e eram espancados pelos estudantes, e que era apenas uma manobra para liquidar qualquer veleidade de dissidência, e usar uma gangue de devotos, entre eles sua mulher (renomeados, pejorativamente, depois, a Camarilha dos Quatro) para retomar seu poder tirânico e monocrático.
A Mao não faltava astúcia e sutileza. Era o seu modo de usar tudo e todos em prol de sua agenda pessoal de poder. O mesmo não se pode dizer do modo de usar do trumpismo, embora haja velhacarias parecidas. Em vez da sagaz hipocrisia chinesa, a diplomacia do porrete. Em vez de habilidosos ardis, usam intimidação, chantagem, ameaças candidamente toscas e grosseiras. E em vez do pretexto ideológico, acenam com um saco de gatos doutrinário, cujo único denominador comum é a xenofobia e o delírio de grandeza.
A grande Muralha que separa Mao de Trump & Cia. é que estes últimos são homens de negócios que se lixam para a lei e não escondem o fato, pois o Deus acima de tudo chama-se lucro. O venerável e obsoleto Mao brandia o livrinho vermelho de seus pensamentos para exibir coerência e cimentar coesão. Era apenas um político que ocultava sua vaidade invocando a promessa do éden terreno. Os atuais donos do Ocidente não se dão ao trabalho de falsificar suas metas com fantasias grandiosas. Podem ser neurastênicos e muito, muito vulgares, mas a sinceridade de suas declarações é comovente. Não querem a glória, como queriam Mao, Napoleão ou Mussolini. Querem, simplesmente, a grana.
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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