Com desigualdades persistentes, 3 milhões de pessoas vivem em áreas precárias na Grande São Paulo

Eduardo César Marques diz que municípios com programas contínuos de urbanização, como Diadema, apresentam assentamentos em melhores condições; já São Paulo se ressente de políticas consistentes nessa área

 03/07/2025 - Publicado há 10 meses
Fotomontagem mostra um adolescente passando por uma área periférica de rua de terra e casas de alvenaria
A falta de infraestrutura urbana, como coleta de lixo regular e calçadas, ainda é um problema grave, principalmente nas periferias – Fotomontagem: Jornal da USP com imagens de Marcello Casal Jr/Agência Brasil; Freepik
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Um estudo do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) estima que 3,2 milhões de pessoas moram em áreas precárias na Região Metropolitana de São Paulo, ocupando 1,1 milhão de domicílios. Os dados, baseados no Censo 2022 do IBGE, indicam que o processo de favelização continua, mas em ritmo menos intenso que em períodos anteriores. A pesquisa também revela profundas desigualdades sociais e urbanas nesses territórios.

Segundo Eduardo César Marques, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, diretor do CEM e autor dessa nota, a metodologia utilizada pelo centro vai além da classificação oficial do IBGE, que identifica apenas áreas pré-mapeadas como “favelas e comunidades urbanas”. A análise considerou características urbanas e sociais para incluir loteamentos clandestinos e outras formas de ocupação precária não captadas pelo Censo. Enquanto o IBGE registrou 2,9 milhões de pessoas nessa situação, o estudo do CEM encontrou 300 mil a mais, totalizando os 3,2 milhões.

Eduardo Marques – Foto: DCP-USP

A pesquisa classificou os assentamentos precários em diferentes tipologias, levando em conta infraestrutura e perfil sociodemográfico. De acordo com Marques, houve uma melhora média no acesso a serviços básicos, como água e esgoto, em comparação com levantamentos anteriores. No entanto, as desigualdades seguem acentuadas.

Negra, jovem, baixa renda

A população dessas áreas é majoritariamente negra, jovem e de baixa renda, com maior presença de domicílios chefiados por mulheres e por pessoas pretas ou pardas. A falta de infraestrutura urbana, como coleta de lixo regular e calçadas, ainda é um problema grave, principalmente nas periferias. O pesquisador ressalta que esses grupos estão sobrerrepresentados na precariedade, evidenciando um cenário de exclusão estrutural.

Embora o número de pessoas em assentamentos precários tenha aumentado na última década, o estudo não detectou um crescimento explosivo, mesmo em um período marcado por crise econômica (a partir de 2015), pandemia e redução de políticas sociais. Marques atribui essa resistência a uma maior capacidade de adaptação das famílias, mas também à escassez de alternativas habitacionais acessíveis.

A pesquisa mostra que municípios com programas contínuos de urbanização, como Diadema, apresentam assentamentos em melhores condições. Em contraste, a cidade de São Paulo, apesar de seus recursos, tem desigualdades mais acentuadas devido à falta de políticas consistentes nessa área.

Marques destaca que o Brasil já desenvolveu soluções eficazes para reduzir a precariedade, como regularização fundiária, apoio à autoconstrução e produção de habitação social. No entanto, ele alerta que essas medidas precisam ser ampliadas e mantidas no longo prazo para enfrentar o problema de forma definitiva.


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