Na Copa de Clubes, “decidir” é o mesmo que “tomar uma decisão”?

Por Henrique Braga, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP

 30/06/2025 - Publicado há 9 meses
Henrique Braga – Foto: Arquivo pessoal
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal

 

Fala-se muito sobre futebol. Programas matinais, vespertinos, noturnos, lives pré e pós-jogo, podcasts, comentários durante transmissões… Sem contar conversas nos bares, nos intervalos e nas mensagens de WhatsApp. O jogo em si pode durar 90 minutos, mas, para uma parcela expressiva dos brasileiros (e também de argentinos, ingleses, italianos, entre outros), o futebol se mantém como um tema constante no cotidiano, o que tem sido impulsionado com a nova Copa do Mundo de Clubes, promovida pela Fifa.

Com tal abundância de comentadores, é claro que esse campo semântico seria rico para a emergência de usos linguísticos. Entre eles, destacamos hoje a proficuidade da “tomada de decisão”.

Do jornalismo esportivo à análise linguística 

Em uma edição já não tão recente do podcast Posse de Bola, o renomado jornalista Juca Kfouri fez um breve protesto: “Hoje em dia tudo é ‘tomada de decisão’. Ninguém mais ‘decide’, ‘toma decisão’”.

O tema do podcast, como sugere seu título, não eram exatamente as questões linguísticas, o que justifica tal comentário ser feito brevemente, de passagem, sem uma justificativa mais detalhada sobre o incômodo causado pela expressão ao comentador. Nós aqui, porém, colocamos as questões de linguagem acima das futebolísticas (o que permite que esta coluna seja escrita em perfeita harmonia por um alvinegro e um palestrino), então ficamos encucados com o protesto. Há mesmo diferença entre “decidir” e “tomar decisão”? A regra é clara, meus amigos: apesar dos protestos, podemos dizer que sim, há diferença.

“Tomar” como verbo-suporte

Construções como “dar uma olhada”, “fazer barulho” ou “tomar coragem” são exemplos de um interessante processo de mudança linguística. Nele, os verbos deixam de funcionar como plenos (aqueles que possuem sentido completo e expressam uma ação, estado ou processo por si sós, como comer, dormir, correr) e passam a ser o que chamamos de “verbos-suporte”. Isso significa que, nesses casos, a semântica do evento expresso é veiculada mais pelo substantivo do que pelo verbo, que passa a servir como apoio (é o tal “suporte”).

Observe: em “dar uma olhada”, o ato em si é o de “olhar”; “tomar coragem”, por sua vez, é algo próximo a “encorajar-se”. Esse papel de “suporte” talvez fique até mais claro em “fazer barulho”, já que o verbo “fazer” dá uma mãozinha ao substantivo “barulho”, suprindo a ausência do verbo “barulhar” (registrado em dicionários, mas de uso pouco produtivo).

Nesses exemplos, “dar”, “tomar” e “fazer” são considerados verbos “leves”, ou seja, verbos cuja semântica é mais abstrata, algo fugidia, permitindo que o significado do substantivo se sobressaia. Isso não significa que o sentido dos verbos seja irrelevante; ao contrário, ainda que possuam uma carga semântica mais abstrata, os verbos leves mantêm traços significativos que orientam a interpretação do todo. É justamente por isso que se diz “dar uma olhada” – e não fazer uma olhada –, ou “fazer barulho” – e não dar barulho. Cada combinação resulta de uma seleção lexical específica, baseada em restrições sintático-semânticas e em convenções de uso consolidadas na língua. Ainda assim, destaca-se o papel gramatical dos verbos, que ficam responsáveis por demarcar categorias como o tempo ou a pessoa do discurso, as quais não ocorrem no substantivo (“dei uma olhada”, “daríamos uma olhada” etc.).

Mas qual a diferença?

Voltando ao caso de nosso interesse, queremos compartilhar a hipótese que se aplica mais diretamente ao contexto futebolístico: nesse universo, “decidir” não é o mesmo que “tomar uma decisão”. Consideremos estes dois títulos:

  • “Raphinha decide, Barcelona vence Celta de Vigo em virada ‘alucinante’ e dispara na liderança de La Liga” (ESPN, 19/4/25);
  • “Paulinho decide na prorrogação, Palmeiras elimina o Botafogo e avança no Mundial” (Lance, 28/6/25).

Em cada um desses casos, o verbo “decidir” não assume o sentido de “chegar a uma resolução”, ou “convencer-se de algo”. Trata-se, na verdade, de um neologismo semântico, usado para afirmar que determinado jogador foi o grande responsável por uma vitória. No primeiro exemplo, o jogador Raphinha fez dois gols em um jogo disputado, destacando-se para o sucesso do time catalão. No segundo, Paulinho foi responsável pelo gol que classificou sua equipe para a fase seguinte na Copa do Mundo de Clubes. Ambos “decidiram”, ou seja, foram “decisivos” para o triunfo de seus respectivos times. Isso é diferente do que ocorre neste outro exemplo:

  • “Benzema e a arte da tomada de decisão inteligente no jogo” (GE, 7/4/2022).

Com esse título, o jornalista Leonardo Miranda introduz a temática de seu artigo: o apuro do atacante franco-argelino ao optar por determinada jogada, entre as demais possíveis. Confrontando esse uso com o anterior, nossa hipótese é que está havendo uma especialização dessas formas linguísticas no universo futebolístico: quando Benzema leva seu time à vitória, ele “decide”; quando ele opta por uma jogada e não outra, ele “toma uma decisão”.

Dentro das quatro linhas

É certo que “tomar decisão” surge como sinônimo de “decidir”. No entanto, há nas línguas uma tendência à não sinonímia, ou seja, a que uma das formas sinônimas caia em desuso, ou especialize seu significado. Não se trata de uma regra rígida, afinal, expressões sinônimas podem conviver com significados equivalentes por longos períodos, seja por variação estilística, regional, seja por pragmática. Ainda assim, o princípio da não sinonímia pode desencadear, como vemos no caso dessas duas expressões, inovações linguísticas interessantes.

Dessa forma, na linguagem dos boleiros, só “decide” quem desenvolve a arte de “tomar decisão”. Cada uma, portanto, parece estar se especializando para expressar um significado diferente. O lance é legal, segue o jogo.

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