Os homens ocos: guerra e paz

Marília Fiorillo cita trechos de poemas para falar sobre cenários de guerra e pede para que o ouvinte/leitor preencha o que está subentendido nas entrelinhas

 20/06/2025 - Publicado há 9 meses     Atualizado: 23/06/2025 às 10:18

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“Hoje o inevitável aumento das chances de morrer/ A cônscia aceitação da culpa no fato do assassínio/ Hoje o dispêndio de poderes/ No enfadonho, efêmero panfleto e no comício chato. Hoje as consolações provisórias; os gracejos masculinos; hoje, o abraço canhestro, insatisfeito, antes da dor/ As estrelas estão mortas; os animais não vêm;/Estamos sós com o dia que nos coube, o tempo é curto e a História em vias de derrota/ A História pode dizer um ai, mas não pode absolver nem ajudar.”

O poeta Auden escreveu estes versos em 1937, no poema Espanha, sobre os horrores da Guerra Civil Espanhola e a ascensão do regime fascista do general Franco. Já Bertolt Brecht ateve-se ao fundamental quando comentou o III Reich e a Segunda Guerra Mundial. Alguns versos de seu poema Cartilha de Guerra Alemã: “Os de cima dizem: guerra e paz/ São de substância diferente .[..] Os de cima/ juntaram-se em uma reunião./ Homem da rua/ deixa a esperança. Os governos/ assinam pactos de não-agressão/ Homem da rua/ assina teu testamento”.
“E adiante: Quando os de cima falam de paz/A gente pequena/ sabe que haverá guerra. Quando os de cima amaldiçoam a guerra/ As ordens de alistamento já estão preenchidas. A guerra que virá não é a primeira. Antes dela/ Houve outras guerras. Quando a ultima terminou/ havia vencedores e vencidos/ Entre os vencidos o povo miúdo sofria fome. Entre os vencedores/sofria fome o povo miúdo/ No momento de marchar, muitos não sabem/ que seu inimigo marcha à sua frente/ A voz que comanda/ é a voz de seu inimigo/ Aquele que fala do inimigo È ele mesmo o inimigo”.
“Na guerra, muitas coisas crescerão/ Ficarão maiores as propriedades dos que possuem/ E a miséria dos que não possuem. As falas do Guia/ E o silêncio dos guiados.”
“Finalmente, deixando a vocês a tarefa de renomear e atualizar o país assassino –  então era a Alemanha. Mais um verso de Brecht: ‘Ó [tal país], pálida mãe! Como apareces manchada/ entre as nações/ Entre os imundos/ te destacas. […]Um escárnio e um pavor”’.

Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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