
Ao longo da história, diversos métodos de mobilização foram criados para a defesa de comunidades que sofriam com a colonização, com o imperialismo e com a supressão de seus direitos e liberdades. O boicote, em diversos contextos, foi adotado pela sociedade civil e por movimentos sociais como forma pacífica de retaliação a esses ataques. Quem explica é Everaldo Andrade, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
O professor relata que existem diversos exemplos de mobilizações que buscavam obrigar governos autoritários, que não cumpriam legislações e princípios de defesa dos direitos humanos, a cumpri-los. Ele cita alguns: “O país mais próximo que sofreu boicotes, desinvestimentos, sanções, que teve resultado, foi a África do Sul. Tinha um regime brutal de apartheid, que discriminava as populações negras, impedia que elas tivessem o direito de cidadania, que fossem tratadas como seres humanos. Mas também tem outros exemplos: o movimento do Gandhi, de não violência contra a colonização inglesa na Índia; o movimento dos irlandeses e outros movimentos mesmo no Brasil”.

Os alvos do boicote podem ser diversas esferas da instituição em questão, sejam elas essenciais para o seu funcionamento ou estratégicas para a visibilidade do movimento. A maneira mais comum e acessível à adesão da população é abandonar o consumo em empresas que sejam coniventes com o regime em questão. Mas, em maior escala, é possível que nações e órgãos internacionais colaborem nas esferas econômicas, culturais e até nos esportes. Núbia Aguilar, doutora especialista na história do apartheid pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explica como se deu esse processo durante a luta antiapartheid na África do Sul:
“Para a África do Sul, pensando nesse contexto de instauração do apartheid em 1948, já em 1959, num cenário externo, existe o movimento antiapartheid; então já tem uma mobilização da comunidade internacional denunciando o que está acontecendo e colocando essa demanda de boicotes. Isso se torna expressivo nos anos 1960, quando a África do Sul é proibida de participar dos Jogos Olímpicos, mas isso vai se intensificar cada vez mais a partir dos anos 1980.” Núbia complementa dizendo que o boicote tem potencial de influenciar todo o gerenciamento e funcionamento de uma comunidade, seja pelo aspecto econômico, do fornecimento de alimentos, e até cultural: “O boicote se põe como um atravessamento a essas organizações sociais. Passa a ser muito sintomático na organização diária. Vai se tornando cada vez mais difícil o gerenciamento interno. E também tem, num sentido internacional, o ganho de adeptos”.
Núbia ressalta a importância da adesão de artistas, grupos e marcas – setores inseridos num cenário público e reconhecidos pela população – para a divulgação da questão causadora do boicote. Ela explica que essa é uma maneira de internacionalização do movimento que cria pressão e contribui com a luta interna, a qual é fator fundamental no enfrentamento a regimes autoritários: “As proporções do debate público sobre o apartheid, a partir dos anos 80, vão ganhar outro patamar, digamos assim. Mas não dá para a gente desvincular essa formatação da luta interna, das pessoas que estão ali diariamente tensionando os regimes e as formas de opressão”.
O movimento de boicote na atualidade
Hoje essa forma de mobilização ganha novas dimensões com o movimento BDS – Boicote, Desinvestimento e Sanções –, criado por palestinos há 20 anos. O professor Everaldo Andrade explica: “O movimento internacional de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel surgiu num contexto em que o Estado de Israel passou sistematicamente a desrespeitar as resoluções da ONU e criar um muro na Cisjordânia que implicava segregação da população palestina”.

Ele comenta que, desde o começo, o BDS questiona os países que não pressionam Israel a acabar com essas barreiras: “O problema principal é que existem governos que deveriam agir para deter essa política de segregação, de apartheid. É disso que se trata: criar muros, separar famílias, criar uma legislação discriminatória contra os palestinos. É condenado internacionalmente”.
Além disso, de maneira a ser acessível para adesão de toda a população, o caráter econômico do movimento busca desencorajar o consumo em empresas coniventes com o regime de opressão: “É uma série de empresas que estão diretamente envolvidas com o fornecimento de equipamentos, de insumos para o exército e para a política que sustenta essa discriminação contra o povo palestino, então é um meio pacífico de pressionar os dirigentes dessas empresas”.
Andrade também comenta o cenário do movimento no Brasil: fortes mobilizações que enfrentam muita resistência e um governo de posições insuficientes: “O governo federal tem falas importantes condenando. O presidente Lula chamou a ação de ‘genocida’, é uma palavra muito forte. Mas o movimento político contra a ação do Estado de Israel na Faixa de Gaza vai além disso. A ideia é ajudar a sufocar um Estado que está praticando atos criminosos contra a humanidade e, através daí, mobilizar a população, pressionar os governos a tomarem atitudes mais sérias de pressão contra. A ONU já tem posição, o Tribunal Internacional já tem posição, o dirigente do Estado de Israel é condenado, é condenado como criminoso de guerra. Mas quem vai exercer esse poder?”.
Dessa forma, as duas faces do papel dos boicotes seguem atuais: a de pressão política e a de visibilidade das causas. Núbia explica como, no atual contexto, essas mobilizações fomentam debates que ainda não são um consenso geral: “Ainda assim, a gente não tem um consenso. É um campo de disputas. Se a gente for parar para analisar o caso de Israel, não são todos os países que estão, de certa forma, envolvidos, apoiando. Alguns, inclusive, indo contra. Então não representa também um consenso, mas demonstra esse campo de tensão que divide opiniões políticas, que divide opiniões por interesses, mas que, de certa forma, torna a luta mais ampla por aqueles que estão apoiando ela.”
Andrade finaliza explicando a possibilidade de amplitude do BDS: “É uma campanha que pode ser abraçada por qualquer cidadão. É uma ação que as instituições podem também realizar. As Prefeituras, os governos estaduais, governos nacionais, associações, universidades podem se associar a essa política. É uma política de defesa da humanidade, defesa dos direitos humanos, defesa das resoluções das Nações Unidas, que condenam políticas de discriminação racial, de apartheid e de perseguição às minorias. Essa é uma ação que pode ser pequena, mas, multiplicada por milhares, por milhões de pessoas, ela tem relevância, sim”.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
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