
A tradicional vacina contra herpes-zóster, doença conhecida popularmente como cobreiro, pode estar prestes a ganhar uma nova versão. Empresas farmacêuticas estão desenvolvendo imunizantes com a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), a mesma usada com sucesso em vacinas contra a covid-19. A expectativa é de maior eficácia, produção mais simples e aplicação em dose única, um salto considerável na proteção, especialmente para idosos e pessoas com o sistema imunológico fragilizado.
De 2015 a 2024, o Brasil registrou 45.927 internações por herpes-zóster no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo dados do Ministério da Saúde. Quase 40% dos casos ocorreram entre pessoas de 60 a 80 anos, faixa etária mais vulnerável à reativação do vírus. A doença é causada pelo vírus varicela-zóster, o mesmo da catapora, que permanece adormecido no organismo após a infecção na infância e pode se reativar na vida adulta, provocando lesões dolorosas e risco de complicações.
Tecnologia moderna e mais eficaz
Hoje há vacinas disponíveis na rede privada, com métodos tradicionais. A Zostavax, por exemplo, utiliza o vírus vivo atenuado e tem eficácia reduzida entre idosos. Já a Shingrix emprega uma proteína do vírus e alcança 90% de proteção em pessoas com mais de 70 anos, embora exija duas doses.

A novidade agora está no uso do RNA mensageiro. “O RNA funciona como um ‘manual’ de instruções genéticas para a produção de uma proteína específica do vírus e essas informações são levadas até as células por nanopartículas de lipídeos, possibilitando nosso corpo de usar essas informações para produzir essa proteína”, explica Danillo Espósito, biólogo e pesquisador do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
Segundo ele, essa nova abordagem promete reduzir custos de produção e manter alta eficácia. “As vacinas atuais têm eficácia superior a 90%, mas, por serem compostas com a proteína viral, exigem duas doses para o efeito completo. Já as de RNA possibilitam uma única dose, mantendo a proteção e reduzindo os custos de produção”, destaca Espósito.
Prevenção e resposta imune
O RNA mensageiro tem mostrado segurança e efetividade em todas as faixas etárias, inclusive entre idosos e imunossuprimidos. “Ela é capaz de induzir resposta imunológica robusta, mesmo em idosos, ao ensinar o corpo a reconhecer e combater a doença, sem precisar usar o vírus inativado ou sua proteína produzida em outros organismos”, enfatiza o biólogo.
O especialista explica ainda que o imunizante atua na prevenção da reativação viral. “Quando as defesas do corpo estão mais fracas, seja por estresse, envelhecimento ou doenças, os linfócitos T diminuem, permitindo o reaparecimento de infecções. A vacina fortalece esses linfócitos, dificultando a reativação do vírus.”
A nova vacina ainda está em fase de testes clínicos, mas os resultados têm sido promissores. “Ela demonstra proteção contra a doença, com efeitos colaterais mínimos”, diz Espósito. Segundo o especialista, ainda não há previsão de quando essa vacina será liberada.
Saúde pública
Para o professor Paulo de Oliveira Duarte, especialista em Geriatria pela FMRP, o aumento de casos em idosos está diretamente relacionado ao envelhecimento e à queda natural da imunidade. “Um dos fatores é a maior prevalência de envelhecimento e multimorbidades”, afirma. Doenças como diabetes, problemas cardíacos, respiratórios e alterações cognitivas tornam essa população mais suscetível.

Duarte ressalta que a vacinação é uma ferramenta fundamental. “A vacina é projetada para superar essa redução na imunidade relacionada à idade, então seu papel é restaurar a resposta imunológica de uma forma durável.”
Além disso, defende a importância da recomendação médica para vacinar pessoas que estão no foco da doença. “É importante o médico recomendar a vacinação como forma de prevenção, para evitar que o vírus se manifeste e agrave outros problemas de saúde que o paciente já tenha”, reforça o professor.
Em casos em que a doença se manifesta, o tratamento deve começar o quanto antes. “Os antivirais precisam ser iniciados em até 72 horas após o início dos sintomas. Quanto antes forem usados, menores as chances de complicações”, orienta Duarte.
Ele conclui com um alerta: “Adesão ao imunizante e à prevenção são as melhores estratégias para proteger quem está em risco”.
*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone
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