
O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) publicou, em abril, um relatório sobre a situação dos jovens no mercado de trabalho. De acordo com a análise, a taxa de desemprego no Brasil caiu para o agregado do País, mas pessoas com idade entre 18 e 29 anos apresentaram desocupação maior (10,1%) que a média nacional (6,2%). A dificuldade de inserção no meio, as exigências das empresas e a busca por empregos melhores são alguns dos cenários enfrentados por eles.

Segundo Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP), é preciso entender que essa parcela da população é heterogênea e dividida em três faixas etárias: 15 a 17 anos, 18 a 24 anos e 25 aos 29 anos. De acordo com ele, a porção mais jovem do grupo concentra-se mais na escola e está menos disponível para atividades empregatícias. Já o grupo intermediário “tem uma determinação mais clara a respeito da busca por emprego”, enquanto a última parte “está, de fato, ocupada”. A pesquisa do Ibre demonstrou que 25,9 milhões de trabalhadores registrados no quarto trimestre de 2024 tinham entre 18 e 29 anos.
Entraves
O especialista explica que, conforme adquirem experiência, a tendência é a absorção dos mais novos no mercado de trabalho. Entretanto, ele destaca que, para esse comportamento acontecer, as instituições que os empregam precisam investir em programas de treinamento e qualificação profissional, fato que rende ganhos a médio e a longo prazo.
Braga expõe a instabilidade desses serviços, especialmente em períodos de fragilidade econômica: “Os jovens são aqueles que são dispensados em primeiro lugar, porque eles custam menos para as empresas dispensá-los”. Assim, “são os primeiros a serem demitidos em situações de crise, ou mesmo em recomposições, reestruturações das empresas”, expõe.
Diante do envelhecimento populacional brasileiro, o professor avalia que a diminuição de jovens entrantes no mercado formal não é uma fatalidade, mas também não é um bom panorama para o País. “Quanto menos jovens, mais pressão sobre as aposentadorias, mais pressão sobre a baixa produtividade”, afirma.
Ruy Braga entende que existe uma correlação entre o aumento dos gastos previdenciários e a diminuição da eficiência na produção, que pode ser aliviada por mais políticas públicas. O especialista cita o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro-educacional do governo federal, mas explica que são necessárias outras formas de incentivo à permanência estudantil para alavancar essa integração. “Quanto mais tempo os jovens ficam estudando, em particular aqueles que entram na universidade, mais produtivo se torna o seu trabalho e mais renda eles vão conseguir no futuro.”
Características como gênero, raça, rendimento e sexualidade são fatores que ampliam a participação de jovens na esfera informal — sem carteira de trabalho assinada. Para ele, as ofertas são exaustivas, de qualidade baixa e pouco atraentes: “O setor de serviços informal é subalterno, sem qualificação, com longas jornadas, sem garantias e benefícios”. Braga define que as jovens negras e periféricas são as mais afastadas dos direitos trabalhistas.
Dinâmicas atuais
O professor exprime que os chamados jovens nem-nem — aqueles que não estudam e não trabalham — são uma consequência da situação dos postos de emprego e da exclusão social. “É um gasto de criatividade, de disposição para o trabalho, de experiência, de jovens que não contribuem para a Previdência, que se casam muito cedo ou têm filhos muito cedo.” São pessoas “que vão viver, vão passar toda uma trajetória sem poder se qualificar e permanecendo na informalidade”, afirma.
A introdução da inteligência artificial e o desenvolvimento da tecnologia de informações e dados são aspectos do mundo laboral que podem gerar a polarização dos empregos, segundo Ruy Braga. Ele expõe um panorama dividido: enquanto poucas pessoas exercem atividade com exigência de qualificação elevada, há uma massa que vive em trabalhos intermitentes. “Conforme isso se estabeleça e se desenvolva, você vai ter uma concentração de renda muito grande no topo e uma muito baixa na base”, finaliza.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.


























