Conclave, o espetáculo

Na opinião de Marília Fiorillo, a mídia transformou a cobertura da eleição do novo papa num espetáculo de trivialidades, quando não de frivolidades

 09/05/2025 - Publicado há 1 ano

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Nos últimos dias, a eleição do novo papa ocupou grande espaço na imprensa, sobretudo na visual. A professora Marília Fiorillo tem algo a dizer sobre esse assunto: “Para os católicos e mesmo os não católicos, é constrangedora a cobertura de boa parte da mídia sobre a eleição do novo papa, que tem transformado um acontecimento sério e relevante num espetáculo de trivialidades, e mesmo frivolidades, como longas digressões sobre as nuances preto-branco-cinza da fumaça, a indumentária dos cardeais eleitores, e outros faits divers que ignoram o essencial. Talvez a espetacularização do evento deva-se à necessidade de aliviar o leitor/espectador de tantas noticias sombrias, de dar uma pausa nas guerras, matanças, convulsões econômicas e sociais. Mas nada justifica transformar um episódio desta magnitude e seriedade numa espécie de BBB-Conclave, com bolsas de apostas, como se o Vaticano fosse o hipódromo da vez”.

“Há uma falta de compostura, falta essa que nos chocaria, se não estivéssemos tão anestesiados com o vale-tudo atual de exibicionismo e voyerismo. Compostura, assim como pudor ou privacidade, são virtudes que parecem ter sido abolidas. Vez ou outra se discute a inclinação politico-pastoral dos candidatos. Quem é o favorito na corrida? O diplomata, o conservador ou o africano? O fundamental fica de lado: o Cristianismo, nos primeiros séculos, só prevaleceu sobre outras seitas populares (como o mitraísmo, forte nas legiões romanas), os órficos, o culto de Ísis e tantos outros concorrentes helenísticos, porque se distinguia pelo assistencialismo – o que hoje chamamos de ‘justiça social’. O historiador Suetonio, que viveu no século 2, descreve, em sua Vida dos Césares os seguidores de um certo Chrestus, que não chegavam a 5% da população. Há poucas menções aos cristãos nos historiadores do período, como Tácito, que viveu entre 55 e 117.”

“A que se deve o espetacular sucesso desta ‘superstição’, como era chamada? Não foram suas cerimônias, liturgias ou dias festivos, nem mesmo a crença na imortalidade da alma e nas benesses da vida após morte, compartilhada por outros cultos. O Cristianismo tornou-se a maior religião mundial graças ao assistencialismo e à solidariedade que ganhava adeptos leais e exclusivistas, prosélitos de uma eficácia incomparável quando se tratava de ajuda concreta, imediata, no cotidiano. Da gente simples do século 1 aos bem-nascidos do século 4, o catolicismo foi se impondo até se tornar a religião oficial do Império, com o imperador Constantino. Hoje, há outros competidores, como os evangélicos, que imitam a mesma ‘acumulação primitiva’ de capital religioso, atentos ao senso de comunidade e de pertencimento. A força das igrejas começa no aqui e agora, na mitigação do sofrimento terreno. Se for para torcer, que se torça pelo retorno aos valores originais, que não eram púrpura nem glória, mas a defesa e o acolhimento dos vulneráveis semelhantes. Terá sido essa a escolha de um papa estadunidense e agostiniano?”


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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