Urbanização e especulação imobiliária ameaçam o futebol de várzea no Brasil

Modalidade popular sofre impactos do crescimento das cidades e da perda de espaços livres para a prática esportiva

 27/03/2025 - Publicado há 12 meses
Os times Noroeste da Vila Formosa e Fumaça se enfrentam no campo de futebol do CEU Jambeiro, em Guaianases, na zona leste de São Paulo. Os torcedores acompanham a partida em pé, do lado de fora do alambrado. Ao fundo, veem-se as casas da comunidade acompanhando o relevo do bairro.
Ocupação das várzeas paulistanas deixa cada vez menos espaços livres para jogar futebol – Foto: cassimano via Flickr – CC BY-NC-SA 2.0

Uma matéria recente publicada na edição de março da revista Pesquisa Fapesp revela como as mudanças urbanas afetaram a prática do futebol de várzea. De acordo com a reportagem, a urbanização acelerada das grandes cidades reconfigurou profundamente a paisagem urbana brasileira, impactando diretamente o futebol de várzea. Com o avanço da especulação imobiliária e a diminuição dos terrenos baldios, os espaços antes utilizados para a prática desse esporte popular vêm desaparecendo, ameaçando uma tradição centenária que sempre desempenhou um papel fundamental na inclusão social e em causas humanitárias.

A matéria conta com entrevistas de estudiosos da USP e de outras instituições. Entre eles estão o antropólogo Enrico Spaggiari, do Grupo de Estudos de Antropologia das Cidades da USP, o geógrafo e doutor pela USP Alberto Luiz dos Santos e a doutora em História Social pela USP Diana Mendes Machado da Silva.

Diana Silva já participou do podcast Novos Cientistas, do Jornal da USP, em que falou sobre a cultura visual do futebol. Alberto participou do podcast Patrimoniar, também da USP, no qual discutiu futebol e patrimônio cultural. O geógrafo é também um dos curadores da mostra Vozes da várzea, em cartaz no Museu do Futebol, em São Paulo, até o final de abril.

Origens do futebol de várzea

No final do século 19, migrantes, imigrantes, afrodescendentes e operários organizavam partidas em campos improvisados nas várzeas dos rios, próximos a linhas de trem ou em terrenos baldios. Em São Paulo, uma das primeiras partidas registradas ocorreu em 1895, promovida por Charles William Miller na Várzea do Carmo, no bairro do Cambuci, localizado na região central. Esse local se tornou um reduto do futebol amador paulistano, marcando o início da difusão do esporte pela cidade.​

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Na imagem, a zagueira Mônica Alves da seleção brasileira aparece fazendo uma embaixadinha em um campo de futebol. Mônica tem cabelos loiros presos em um rabo de cavalo e usa um colete vermelho, com o símbolo da marca Guaraná. No fundo do campo, há uma faixa amarela com a palavra Brasileira, escrita na cor verde e com letras maiúsculas

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Enquanto isso, membros da elite paulistana fundaram clubes como o Sport Club Internacional, o Clube Atlético Paulistano e o São Paulo Athletic Club, que disputavam campeonatos no Velódromo Paulista a partir de 1902. Paralelamente, o futebol de várzea florescia nos campos improvisados das classes populares. A cidade, cortada por rios, oferecia planícies que, ao secarem, eram transformadas em campos de futebol.​

A década de 1930 marcou a profissionalização do futebol no Brasil. Inicialmente, a várzea mantinha forte ligação com equipes profissionais, funcionando como celeiro de talentos. Com o tempo, os clubes estruturaram suas categorias de base, dificultando a transição direta de jogadores amadores para o profissionalismo.​

A urbanização acelerada impactou diretamente o futebol de várzea. O crescimento das cidades resultou na ocupação de várzeas e terrenos baldios para construção de casas e fábricas. A especulação imobiliária avançou sobre esses espaços, reduzindo as áreas disponíveis para a prática do esporte.

Apesar dos desafios, o futebol de várzea resiste em locais como o Campo de Marte. Aos finais de semana, centenas de pessoas se reúnem em seus seis campos de terra batida para disputar cerca de 200 partidas. Torcedores acompanham os jogos em cadeiras dobráveis, enquanto crianças brincam pelo espaço. Essas cenas, que há mais de um século se repetem, tornam-se cada vez mais raras com o avanço urbano.

A exposição Vozes da Várzea, no Museu do Futebol, busca preservar e valorizar essa tradição. Com curadoria de Alberto Luiz dos Santos e Diego Viñas, a mostra destaca a importância do futebol de várzea na construção da identidade cultural paulistana e brasileira.

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O futebol de várzea foi importante para a aceitação da modalidade feminina no País. Desde 1915, há registros de meninas jogando com meninos em clubes de elite em São Paulo e artistas circenses encenando partidas, como no Circo Piolin em 1926. Nos anos 1930, equipes femininas cresceram, especialmente no Rio de Janeiro, onde pelo menos 15 times atuavam em bairros suburbanos. Em 1940, duas dessas equipes foram convidadas para jogar na inauguração do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, causando escândalo entre o público. 

Em 1941, o governo de Getúlio Vargas proibiu o futebol feminino, uma restrição que durou até 1979. Apesar disso, as mulheres continuaram jogando, organizando partidas sob o pretexto de eventos beneficentes e treinando em espaços fechados ou periféricos para evitar fiscalização.

Um marco recente ocorreu em 2019, quando Maria Amorim, de Parelheiros, Zona Sul de São Paulo, fundou uma liga feminina que promove campeonatos com agremiações de várias partes do município. Atualmente, existem 150 times femininos atuantes na cidade, refletindo o crescimento e a consolidação do futebol feminino nas periferias paulistanas.

Enquanto no começo do século 20 os clubes tradicionais praticavam a segregação racial, o futebol de várzea era um espaço de acolhimento em diferentes locais do Brasil. Há registros de times e ligas de várzea organizadas por jogadores negros em Porto Alegre, e foi por meio desse espaço que esses jogadores passaram a ser contratados por clubes profissionais. 

Foi a partir de 1930 a 1940, com a alta popularidade das ligas formadas por jogadores negros, que o horizonte do esporte profissional se abriu para negros e pobres não apenas no futebol. Essa conquista permitiu ao Brasil revelar poucos anos depois jogadores como Leônidas da Silva e até o considerado “rei do futebol” Pelé.


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