China busca reverter redução no crescimento da população liberando até três filhos por casal

Segundo especialistas da USP, o país passa por um processo de transição demográfica e urbanização, que pode resultar em aumento dos gastos públicos, envelhecimento da população e diminuição do mercado consumidor

 09/06/2021 - Publicado há 4 meses
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China tem o menor crescimento populacional médio desde a década de 1950 – Foto: Pixabay

 

Com atraso de quase um mês, o governo chinês começou a divulgar os dados obtidos no censo realizado a cada dez anos no país. Os números indicam que o crescimento populacional médio da China entre 2011 e 2020 foi de 0,53%, o menor desde a década de 1950. O país asiático tem cerca de 1,4 bilhão de habitantes, 72 milhões a mais que na década anterior. 

De acordo com Amaury Patrick Gremaud, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP) da USP de Ribeirão Preto, esses dados apontam para a redução da população chinesa a partir de 2030. O governo está em alerta para essa possibilidade e busca adotar medidas para evitar que o menor crescimento populacional atrapalhe o desenvolvimento econômico do país.

Políticas públicas, planejamento familiar e urbanização

Segundo o professor, a China passa por um período conhecido como transição demográfica. Gremaud explica que o fenômeno acontece quando um país registra o aumento da taxa de crescimento populacional, principalmente por conta da redução da mortalidade e aumento da natalidade. Em seguida, ocorre a queda dessa taxa, pois o número de nascimentos volta a diminuir. Esse processo é comum entre os países que se desenvolvem e já aconteceu em lugares como Brasil e Inglaterra. “No caso chinês, essa transição foi apressada e intensificada com as políticas de filho único”, afirma.

Em 1979, em um contexto de crescimento descontrolado, o país adotou a política de filho único, que proibia os casais de terem um segundo filho. Em 2015, já preocupado com a diminuição do crescimento, o governo chinês flexibilizou a medida, mas não obteve resultados significativos. Após os dados do último censo, em junho de 2021, a China anunciou a permissão de até três filhos por casal, em mais uma tentativa de retomar o crescimento demográfico.

Na análise de Gremaud, entretanto, a quantidade de filhos se tornou uma questão cultural no país. “A diminuição da taxa de fertilidade não é mais imposta pelo governo, mas é uma vontade, principalmente das mulheres chinesas”, afirma. André Roberto Martin, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica que essa mudança é uma consequência da urbanização e do planejamento familiar. “As mulheres na cidade tendem a trabalhar e por isso têm menos filhos. Do mesmo modo, educar os filhos na cidade é muito mais caro que no campo”, diz.

“Independentemente de políticas estatais, fato irrecusável é que a  urbanização representa o fator mais importante na diminuição das taxas de natalidade. Hoje, apenas a África ainda registra altos índices de crescimento demográfico, exatamente a menos urbanizada do mundo”, comenta Martin.

Preocupação econômica

Entre as consequências do menor crescimento que preocupam o governo está o aumento dos gastos públicos. “Tem o envelhecimento da população chinesa, com o tempo esse envelhecimento vai crescer e o número de pessoas em idade de trabalho começa a diminuir”, afirma Gremaud. Cerca de 18% da população chinesa tem mais de 60 anos, o que pode representar maiores custos do Estado com Previdência e saúde.

Para Martin, a diminuição do mercado consumidor também pode representar um elemento de preocupação. “O crescimento demográfico representa um fator de desenvolvimento econômico, uma vez que mais crianças demandam um aumento de consumo de diversos itens”, afirma. “Mas é preciso considerar também o fenômeno da industrialização, caso contrário, essas populações vão crescer buscando apenas a subsistência, sem que isso faça crescer o mercado interno”, acrescenta.

Além da permissão de até três filhos por família, o país procura adotar medidas que aumentem a produtividade. É o caso, por exemplo, do plano aprovado pelo Parlamento em março para aumentar progressivamente a idade de aposentadoria.

“Você tem menos gente trabalhando e mais gente dependendo do trabalho”, afirma Gremaud. “É possível compensar essa diminuição do número de pessoas em idade de trabalho com o aumento da produtividade, ou seja, diminui o número de trabalhadores, mas aumenta a produção por trabalhador”, conclui.


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