Pessoas em situação de refúgio encontram desafios para a prática religiosa

Islâmicos recebem apoio de auxílios, mas o preconceito ainda é presente, como salienta Francirosy Campos Barbosa

 28/03/2025 - Publicado há 11 meses
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Imagem mostra uma mulher em trajes muçulmanos em tons escuros segurando no colo uma criança, enquanto atrás dela se ergue uma menina também vestida com trajes muçulmanos na cor azul da cabeça aos pés
De acordo com o Acnur, até junho de 2024, 122,6 milhões de pessoas passaram à categoria de refugiadas – Foto: acnur.org
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O Fundo Zakat, criado em 2017 pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), baseia-se no pilar da caridade do islã — religião monoteísta baseada nos ensinamentos do Alcorão. A iniciativa busca facilitar a entrega de recursos a refugiados muçulmanos ao redor do mundo, que se deslocam de forma forçada por diversos fatores. 

Francirosy Campos Barbosa – Foto: Arquivo pessoal

O Zakat é o terceiro pilar da crença. Segundo esse preceito, 2,5% do capital produzido ao ano deve ser doado aos mais necessitados e purifica a vida material e espiritual do muçulmano. Entretanto, mesmo com o apoio de mais de 17 entidades da religião, muitos doadores encontram dificuldades em contribuir. Para Francirosy Campos Barbosa, que segue o islã e é professora associada no Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (USP/RP), os fatores que contribuem para esse cenário são a falta de conhecimento acerca do órgão internacional e a desconfiança em relação ao destino da doação. “Geralmente, quando você vai pagar um Zakat, você já paga diretamente ou para um sheik ou para uma instituição da sua confiança. Durante o mês do Ramadã, eu separo o dinheiro que eu vou dar e já o distribuo.”

O Ramadã corresponde ao período em que o Alcorão — registro sagrado da religião — foi revelado para o profeta Maomé (também conhecido como Muhammad) na Noite do Decreto (Laylatul Qadr). O período corresponde ao nono mês do calendário lunar islâmico e, neste ano, vai da noite de 28 de fevereiro até 30 de março. É uma época de jejum de comida e bebida, de não ter relações sexuais e não fumar, entre outras abstenções, desde o amanhecer até o pôr-do-sol de cada dia. 

As cinco orações diárias e a caridade são mais intensas e, os momentos antes e depois do jejum são de reunião social. Francirosy explica que o momento é de ampliação das súplicas e ajuda ao povo palestino, que desde 1947 sofre violência e perde seu território gradativamente: “De manhã eu já escutei o sheik da Mesquita Brasil pedindo orações, comentando essa situação de ver os seus irmãos morrendo. […] Isso afeta toda a comunidade muçulmana. Tem um hadith — ditos transmitidos por Maomé — de um profeta que diz que, ‘se tem uma parte doente, todo o resto fica doente’”.

Em busca de refúgio

De acordo com o Acnur, até junho de 2024, 122,6 milhões de pessoas passaram à categoria de refugiadas. São indivíduos que, por motivos de força maior (perseguições, conflitos armados, fome, violações de direitos humanos e deslocamento forçado, por exemplo) foram obrigados a sair de seus países de origem. 

O refúgio é uma prática e proteção legal internacional. Essa proteção é reconhecida pelo governo brasileiro, que garante a não expulsão e a não extradição desses estrangeiros.

Acesse o gráfico:

Segundo o Acnur, o número de refugiados até junho de 2024 equivale a mais de uma em cada 27 pessoas no mundo

 

Além disso, segundo o relatório Refúgio em Números, publicação anual do Comitê Nacional para Refugiados (Conare) e elaborado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), o Brasil deferiu 77.065 solicitações de reconhecimento de refúgio em 2023. Para a professora Francirosy, o acolhimento deve ser feito por diversas frentes: federal, estadual e municipal, com auxílio das universidades públicas: “Você perdeu casa, perdeu família, está desalojado emocionalmente e estruturalmente. A adaptação depende muito do nível cultural e intelectual dessas pessoas. As crianças aprendem muito mais rápido, porque vão para a escola e ensinam a mãe, o pai”.

A pesquisadora cita o relatório Islamofobia no Brasil no contexto do conflito Israel-Palestina em 2023, do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, do qual faz parte. Nele, a equipe coletou o dado de que, dos 125 homens entrevistados, 84% afirmaram que houve aumento da intolerância no Brasil desde 7 de outubro de 2023 — data que marca o início do conflito entre Israel e Hamas. Já entre as 182 mulheres ouvidas, 92,3% declararam perceber o mesmo. “O conhecimento enfrenta o discurso de ódio. Quanto mais conhecimento você tiver, menos discurso de ódio você vai proliferar. O islã virou o ‘medo do islã’, o ‘medo dos muçulmanos’, mas eles são medos que não têm um fundamento. Ah, por conta da roupa, por conta da barba… Mas o que tem a barba, o que tem a ver a roupa?”, questiona.

O feminino na pele de refugiada

Francirosy conclui que as mulheres islâmicas refugiadas sofrem mais, em comparação aos homens: “A gente precisa parar de olhar para elas como ‘Ah, eu preciso salvá-las’. Mulher muçulmana não precisa ser salva por ninguém. São pessoas, têm as suas agendas, as suas questões, as suas demandas”. A violência, segundo ela, vai desde o preconceito com os lenços e vestimentas da religião até a falta de conhecimento acerca dos costumes. A professora explica que uma mulher islâmica, educada na religião, não encosta em homens e, até mesmo em acampamentos para refugiados, essa prática não é respeitada por voluntários. Podem ser sunitas, xiitas. Podem ser sírias, palestinas, afegãs e egípcias. Podem ser revestidas ou não. Essa diversidade é o que é bacana, é o que é bonito”, finaliza.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira


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