
O Fundo Zakat, criado em 2017 pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), baseia-se no pilar da caridade do islã — religião monoteísta baseada nos ensinamentos do Alcorão. A iniciativa busca facilitar a entrega de recursos a refugiados muçulmanos ao redor do mundo, que se deslocam de forma forçada por diversos fatores.

O Zakat é o terceiro pilar da crença. Segundo esse preceito, 2,5% do capital produzido ao ano deve ser doado aos mais necessitados e purifica a vida material e espiritual do muçulmano. Entretanto, mesmo com o apoio de mais de 17 entidades da religião, muitos doadores encontram dificuldades em contribuir. Para Francirosy Campos Barbosa, que segue o islã e é professora associada no Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (USP/RP), os fatores que contribuem para esse cenário são a falta de conhecimento acerca do órgão internacional e a desconfiança em relação ao destino da doação. “Geralmente, quando você vai pagar um Zakat, você já paga diretamente ou para um sheik ou para uma instituição da sua confiança. Durante o mês do Ramadã, eu separo o dinheiro que eu vou dar e já o distribuo.”
O Ramadã corresponde ao período em que o Alcorão — registro sagrado da religião — foi revelado para o profeta Maomé (também conhecido como Muhammad) na Noite do Decreto (Laylatul Qadr). O período corresponde ao nono mês do calendário lunar islâmico e, neste ano, vai da noite de 28 de fevereiro até 30 de março. É uma época de jejum de comida e bebida, de não ter relações sexuais e não fumar, entre outras abstenções, desde o amanhecer até o pôr-do-sol de cada dia.
As cinco orações diárias e a caridade são mais intensas e, os momentos antes e depois do jejum são de reunião social. Francirosy explica que o momento é de ampliação das súplicas e ajuda ao povo palestino, que desde 1947 sofre violência e perde seu território gradativamente: “De manhã eu já escutei o sheik da Mesquita Brasil pedindo orações, comentando essa situação de ver os seus irmãos morrendo. […] Isso afeta toda a comunidade muçulmana. Tem um hadith — ditos transmitidos por Maomé — de um profeta que diz que, ‘se tem uma parte doente, todo o resto fica doente’”.
Em busca de refúgio
De acordo com o Acnur, até junho de 2024, 122,6 milhões de pessoas passaram à categoria de refugiadas. São indivíduos que, por motivos de força maior (perseguições, conflitos armados, fome, violações de direitos humanos e deslocamento forçado, por exemplo) foram obrigados a sair de seus países de origem.
O refúgio é uma prática e proteção legal internacional. Essa proteção é reconhecida pelo governo brasileiro, que garante a não expulsão e a não extradição desses estrangeiros.
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Além disso, segundo o relatório Refúgio em Números, publicação anual do Comitê Nacional para Refugiados (Conare) e elaborado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), o Brasil deferiu 77.065 solicitações de reconhecimento de refúgio em 2023. Para a professora Francirosy, o acolhimento deve ser feito por diversas frentes: federal, estadual e municipal, com auxílio das universidades públicas: “Você perdeu casa, perdeu família, está desalojado emocionalmente e estruturalmente. A adaptação depende muito do nível cultural e intelectual dessas pessoas. As crianças aprendem muito mais rápido, porque vão para a escola e ensinam a mãe, o pai”.
A pesquisadora cita o relatório Islamofobia no Brasil no contexto do conflito Israel-Palestina em 2023, do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, do qual faz parte. Nele, a equipe coletou o dado de que, dos 125 homens entrevistados, 84% afirmaram que houve aumento da intolerância no Brasil desde 7 de outubro de 2023 — data que marca o início do conflito entre Israel e Hamas. Já entre as 182 mulheres ouvidas, 92,3% declararam perceber o mesmo. “O conhecimento enfrenta o discurso de ódio. Quanto mais conhecimento você tiver, menos discurso de ódio você vai proliferar. O islã virou o ‘medo do islã’, o ‘medo dos muçulmanos’, mas eles são medos que não têm um fundamento. Ah, por conta da roupa, por conta da barba… Mas o que tem a barba, o que tem a ver a roupa?”, questiona.
O feminino na pele de refugiada
Francirosy conclui que as mulheres islâmicas refugiadas sofrem mais, em comparação aos homens: “A gente precisa parar de olhar para elas como ‘Ah, eu preciso salvá-las’. Mulher muçulmana não precisa ser salva por ninguém. São pessoas, têm as suas agendas, as suas questões, as suas demandas”. A violência, segundo ela, vai desde o preconceito com os lenços e vestimentas da religião até a falta de conhecimento acerca dos costumes. A professora explica que uma mulher islâmica, educada na religião, não encosta em homens e, até mesmo em acampamentos para refugiados, essa prática não é respeitada por voluntários. “Podem ser sunitas, xiitas. Podem ser sírias, palestinas, afegãs e egípcias. Podem ser revestidas ou não. Essa diversidade é o que é bacana, é o que é bonito”, finaliza.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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