Na edição desta sua coluna, a professora Marília Fiorillo aborda o tema do duplo, presente em tantas obras literárias, em sua relação com o mundo virtual. Na verdade, segundo a colunista, esse tema do duplo – da duplicidade da pessoa -, tão recorrente quanto antigo, voltou com outra roupagem nesta nossa era digital. “Naomi Klein, escritora e ativista canadense, em seu livro Doppelgänger, que significa duplo, em alemão, sugere que não existem mais ‘teorias da conspiração’, pois fatos e fakes se sucedem e contradizem tão rápido que sequer há tempo suficiente para começar a teorizar, já que somos atropelados pelo avesso do avesso e forçados a retornar à mesmice das inseguranças iniciais. Como diria Hannah Arendt, a reflexão, quando é genuína, contém dois ímpetos. O primeiro é a voracidade de se informar, de passar em revista o estado da arte da questão. Mas o segundo, essencial, é deixar este Himalaia de informações e ideias decantar – como se faz com os bons vinhos.”
“A era digital e suas redes antissociais eliminaram este segundo momento do pensamento, que exige calma, pausas e capacidade de esperar. O lance tornou-se acumular à exaustão, acumular sem discernir, deixar-se bombardear por incontáveis irrelevâncias, sem distinguir entre a erva daninha e o trigo. A máxima contemporânea é deglutir sem digerir. Se é cada vez mais precária a chance de teorizar, dada a aceleração da vida, que nos submete a uma Babel furiosa de incongruências, então é também equivocado denunciar a diferença entre realidade e simulacro. A persona que frequenta as redes torna-se indistinguível da pessoa, e acaba se sobrepondo a ela. Klein cita uma cômica confusão entre ela e outra Naomi, a Wolf, jornalista estadunidense, feminista e autora de O Mito da Beleza. Wolf seria o duplo distorcido, o doppelgänger de Klein. Autoras tão opostas tornam-se uma mesma figura. É por isso que falar em narrativas é uma bobagem. Não há muita diferença entre esta ou aquela versão ou interpretação da realidade. Trata-se de várias realidades, por assim dizer: a do mundo tangível e aquelas impingidas pelo universo virtual. Nem é preciso dizer que as personas virtuais, distorcidas conforme o gosto do freguês, tendem a prevalecer’.
“O tema do ‘duplo’ é antigo e recorrente. Já estava na tragédia de Eurípedes (412 a.C.), cuja Helena de Troia é um fantasma de si mesma, pois a real estava no Egito. Está em Freud, em seu ensaio sobre a Unheimlich (1912), inspirado no conto de Hoffmann, O Homem de Areia – ou Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Stevenson. Mas o duplo macabro que melhor condiz com os ‘duplos’ contemporâneos foi criado pelo escritor Edgar Allan Poe em 1839, quase um século antes de Freud: o infame William Wilson. Sem spoiler sobre seu destino, vale ler.”
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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