O equinócio e sua relação com a entrada da primavera

Além de implicações no funcionamento da vida na Terra, fenômenos como equinócio e solstício carregam uma importante simbologia, explica Roberto Costa

 10/09/2025 - Publicado há 8 meses
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Abelha tirando o pólen de cima de uma flor amarela e um fundo desfocado verde
A significação atribuída a uma nova estação está diretamente ligada aos rituais que há muito tempo acompanham a humanidade – Foto: Wirestock/Freepik
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A primavera é a estação que antecede o verão e precede o inverno. Símbolo de renovação e de um novo tempo, é associada ao reflorescimento da flora terrestre e ao gradual aumento da temperatura. Para além dos significados subjetivos, uma nova estação é um evento físico com implicações diretas no funcionamento da vida na terra, influenciando a temperatura, a forma como interagimos com o ambiente, a duração dos dias, o comportamento dos animais e a agricultura.

Os dias que marcam a entrada de uma nova estação são os solstícios, para o verão e o inverno, e os equinócios, para a primavera e o outono. No solstício de verão, temos o dia mais longo do ano e, no solstício de inverno, a noite mais longa. Nos equinócios, o dia e a noite têm a mesma duração. Quem explica melhor esses eventos celestes é o professor Roberto Costa, do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

O eixo de tudo

Costa explica que as estações do ano ocorrem devido à inclinação do eixo da Terra em relação ao eixo da translação em torno do Sol. “O eixo de rotação da Terra é inclinado de 23,5° em relação ao eixo da órbita. O ciclo das estações se dá não por causa das pequenas variações na distância Terra-Sol, resultantes do fato de a órbita da Terra em torno do Sol ser uma elipse e não um círculo, o ciclo das estações se dá em função da inclinação do eixo da Terra em relação ao plano da órbita.”

Foto: prefeitura.sp

 

Enquanto solstícios e equinócios são marcadores físicos, que o professor define como “quatro bandeirinhas na órbita da Terra em torno do Sol”, começar o ano no dia 1º de janeiro é uma mera convenção social, sem fenômeno físico algum. “Quando o Sol incide no extremo sul da sua trajetória sobre a Terra, marca o início do verão do Hemisfério Sul e, consequentemente, o início do inverno do Hemisfério Norte. Passados três meses, mais ou menos, a Terra já deu um quarto da volta em torno do Sol, e o Sol vai incidir sobre o Equador Terrestre, passando do Hemisfério Sul para o Hemisfério Norte, o que marca o início do outono no Sul e o início da primavera no Norte. Outros três meses são inverno no Sul e verão no Norte, e mais três meses é onde a gente está agora, mais ou menos. A gente está no final do inverno do Sul, começando, daqui a uns dias, a primavera do Hemisfério Sul e, consequentemente, o outono do Hemisfério Norte”, completa.

Roberto Costa – Foto: Lattes

No dia do equinócio, a noite e o dia iluminado têm a mesma duração. “A palavra equinócio, se você for pegar a etimologia latina da palavra, ‘equi’ ‘nócio’, ‘noite igual’.”, explica Costa. Nos dias dos solstícios, temos o dia ou a noite mais longa do ano. O dia mais longo no solstício de verão e a noite mais longa no solstício de inverno.

As estações também impactam a duração dos dias iluminados, não só nas datas que marcam seu início. No verão, temos dias maiores e noites menores, e no inverno vice-versa. A cada dia, a depender da estação que se aproxima, existe uma pequena variação no nascer e pôr do sol. “Essa variação é tanto maior quanto mais longe a gente estiver do Equador. Se a gente falar do Brasil, o morador das regiões Norte e Nordeste vai ver uma variação muito pequena na duração do dia iluminado e do dia escuro ao longo do ano, porque eles estão muito próximos do Equador. No Sudeste do Brasil, ou no Sul, a variação é, sim, muito grande. Se pegar o Rio Grande do Sul, que fica a 30 graus ao sul do Equador, tem uma diferença expressiva entre a duração do dia iluminado e a duração do dia escuro. No inverno, o período iluminado do dia é muito, muito mais curto do que no verão. E vice-versa na estação oposta.”

Para além do espaço

Para além das mudanças físicas, a significação atribuída a uma nova estação está diretamente ligada aos rituais que há muito tempo acompanham a humanidade. Em Roma, antes de Júlio César e o Calendário Juliano, os romanos comemoravam o ano novo em março, junto da entrada da primavera no Hemisfério Norte. Até hoje, o Nowruz, ano novo persa, é celebrado no exato dia do equinócio primaveril em nações como o Irã, Azerbaijão e Afeganistão. Representando um novo tempo e o fim da escuridão, o Nowruz também é celebrado por comunidades Uyghur e Parsi em diferentes locais do mundo.

Imagem de um gnomo, objeto tido como capaz de reconhecer e marcar a entrada das estações. Assemelha-se a um triângulo colocado sobre um bloco de pedra em formato de um livro
Egípcios e babilônios já dispunham de estruturas como obeliscos e gnômons, capazes de reconhecer e marcar, além da duração dos dias, a entrada das estações. Foto: wikimedia

No Brasil, um exemplo de celebração que casa com o início de uma nova temporada é a festa de São João. A festa do santo, realizada no dia 24 de junho, acontece extremamente próxima ao início do inverno no Hemisfério Sul. Conhecidas desde a Antiguidade, o saber relacionado às estações do ano foi vital para a sobrevivência da humanidade na Terra. Egípcios e babilônios já dispunham de estruturas como obeliscos e gnômons, capazes de reconhecer e marcar, além da duração dos dias, a entrada das estações.

Por fim, sobre os ciclos das estações, Costa completa: “Isso tem uma enorme importância prática, porque isso tem a ver com os ciclos naturais dos animais, das culturas, das migrações, dos plantios e das colheitas. Isso é superimportante do ponto de vista prático, do ponto de vista da natureza, da reprodução e do ciclo reprodutivo dos animais. Todos esses ciclos são marcados pelos equinócios e pelos solstícios. É a maneira com que a gente amarra o calendário, que é algo artificial, que só existe na nossa cabeça, com a órbita da Terra em torno do Sol, que aí sim é um fenômeno natural”.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo


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