
O campo dos estudos de gênero, feministas e da mulher nasceu em meados do século 20, a partir dos acúmulos produzidos no interior das lutas e debates do movimento feminista desde o final do século anterior. Atualmente, o campo é uma área interdisciplinar reconhecida nas ciências sociais e humanidades. Mas a caminhada para chegar até aqui foi longa, atravessada por uma série de transformações importantes no sistema universitário e, às vezes, envolta em controvérsias.
Para falar sobre o nascimento e o desenvolvimento desse campo de estudos, o programa Quem pode falar disso? entrevistou Marília Moschkovich, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Marília é pesquisadora nas linhas da sociologia dos problemas sociais contemporâneos, estudos de gênero e sexualidade e estudos críticos da família. Ela é coordenadora do Impar – Laboratório de Estudos Críticos da Família.
Em 54 minutos de vídeo, Marília dá uma aula sobre como autoras feministas desenvolveram conceitos fundamentais para estudar as opressões sobre as mulheres, até chegar à formulação do conceito de gênero. “O conceito de gênero é uma das maiores contribuições do movimento feminista para a teoria social. Ele foi elaborado mais ou menos ali na metade da década de 1970”, diz a docente da FFLCH.
A professora destaca alguns marcos importantes da teoria feminista, até a formulação do conceito de gênero. Um primeiro momento importante foi a publicação do livro Sexo e Temperamento, da antropóloga estadunidense Margaret Mead, a primeira a identificar na comparação entre sociedades diferentes variações nas características que eram entendidas como masculinas e femininas. Já a primeira tentativa de produzir uma teoria para explicar as relações sociais entre os sexos veio com a publicação de O Segundo Sexo, da filósofa francesa Simone de Beauvoir.
“A Simone de Beauvoir contava que, quando ela escreveu O Segundo Sexo, ela não escreveu como um livro feminista. Ela dizia que estava tentando fazer um exercício filosófico, existencialista”, conta Marília. “É bem interessante que ela não tenha escrito O Segundo Sexo como uma obra feminista, mas que essa obra tenha se tornado talvez a primeira produção de fôlego que a gente diria que é teoria feminista, ou que está em estudos feministas”, comenta.
Outros desenvolvimentos importantes foram a elaboração do conceito de relações sociais de sexo pelas feministas materialistas francesas e, paralelamente, os questionamentos das feministas negras dos Estados Unidos e do movimento LGBTQIA+, que tensionaram a ideia de um sistema de poder estanque no qual o homem está sempre em uma posição hierarquicamente superior à mulher. Com isso, os movimentos chamaram a atenção ao fato de que as opressões também são atravessadas por questões de raça e sexualidade. A docente lembra que as feministas negras, por exemplo, fizeram um intenso trabalho de resgate documental de casos em que mulheres brancas fizeram acusações falsas contra homens negros a fim de se livrar de sanções por perder a virgindade antes do casamento ou engravidar fora do matrimônio.
Quando a filósofa Judith Butler propôs o conceito de gênero, ela o fez a partir do diálogo com os acúmulos do feminismo negro e do movimento LGBTQIA+. “Falar em gênero implica uma recusa radical de qualquer lastro de biologia e natureza anterior à forma dos seres humanos interpretarem a realidade e o próprio corpo. Se, até então, estava sendo dito na teoria feminista que existe um entendimento do que é masculino e feminino, aí a gente olha os corpos, aplica esse entendimento e gera essas desigualdades, mas existe uma diferença sexual que vem da natureza, o conceito de gênero vai recusar essa diferença sexual. Ele vai dizer que o próprio conceito de algo ser diferente de outra coisa já vem da cultura, já é da sociedade, já é historicamente determinado”, explica Marília.
O programa Quem pode falar disso? é produzido pelo Serviço de Comunicação Social da FFLCH e está disponível no YouTube.

























