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Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e Literatura Brasileira da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP)

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=230217
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Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
[…] tantas palavras cujo uso por tanto tempo
reduziu as asperidades
(Michel Foucault)[1]

 Inventio

Em tempos de terraplanistas, pseudofilósofos e youtubers a suplantar pensadores, livros, alunos empenhados e pesquisadores sérios, pareceu-me relevante experimentar o diálogo mais convencional com os estudantes da universidade. De que se trata? De relembrar algumas dicas àqueles que dirigem missivas aos docentes.

Para isso, poderíamos recorrer a livros com receituários pretensamente instantâneos reservados ao chamado mundo corporativo (por sinal, reparem que quase não há títulos voltados para o universo acadêmico…). Eventualmente, consideraríamos postar um vídeo explicativo para “agilizar”, “facilitar”, “mastigar” a intelecção da mensagem.

Mas, a matéria é demasiado simples. Creia-me. Afora isso, tratar dela através da forma texto reforça o pressuposto de que a leitura pode nos tornar cidadãos mais críticos, cidadãos melhores, sujeitos mais atentos ao universo da palavra, ciosos da linguagem etc.

Passemos ao que interessa. Neste texto, sugerir-se-á uma maneira eficaz e respeitosa de redigir cartas eletrônicas. Após apresentar e comentar as cinco partes que compõem o e-mail, será registrada uma justificativa com o fito de angariar a simpatia do leitor que tiver se arriscado.

 

Dispositio

O e-mail, ou correspondência eletrônica, compõe-se de cinco partes: 1. Assunto; 2. Vocativo; 3. Corpo da Mensagem; 4. Agradecimento; 5. Saudação/Assinatura.

Tendo em vista o crescente número de mensagens que os professores recebem diariamente, recomenda-se que o missivista descreva sucintamente (em duas ou três palavras) o teor da mensagem. Para isso existe o campo [Subject]. Alguém poderia objetar: “por que duas ou três palavras?”. Para que a extensão do campo [Assunto] não soe nem como telegrama (por exemplo, TCC), nem como desabafo (Pedido de orientação para TCC sobre…). Que tal: “Orientação de TCC”? Transmite sobriedade e equilíbrio (nem pragmatismo, nem comoção).

No campo reservado ao texto, sugere-se dirigir-se respeitosamente ao destinatário. Aqui podem valer as antigas regras da Ars Dictaminis, aplicadas por Martinho Lutero, Erasmo de Roterdã, Manuel da Nóbrega, José de Anchieta, Antônio Vieira ou Manuel Bernardes – para citar apenas alguns dos habilidosos filósofos ou correspondentes de diferentes religiões ou ordens, que viveram entre os séculos XVI e XVII. James Murphy já nos tinha ensinado que as artes de escrever cartas orientavam a considerar o grau do destinatário, antes de o irmão, o padre, o provincial ou o geral aprontar e remeter as suas missivas:

Julius Victor também assinala as diferenças provocadas pelo social status de remetente e destinatário. Se alguém escreve para um superior, a carta não deve ser jocosa; se para um igual, não deve ser descortês; se escreve para um inferior ele não deveria ter orgulho. A carta familiar deve adequar-se à ocasião, fosse para consolar ou o que mais fosse necessário para acomodar a situação.[2]

 

Evidentemente, se as noções de “superioridade”, “igualdade” ou “inferioridade” incomodarem o autor do e-mail, considere sinônimos que as traduzam melhor. Por exemplo: tempo de vida, experiência, papel social, atuação profissional etc.

Em tese, o corpo do texto contém três breves seções: 3. 1 – Apresentação do emissor; 2. Descrição/Narração; 3. Petição. Se somarmos o Campo [Assunto] ao Vocativo e Corpo de Texto, a mensagem adquiriria, mais ou menos, esta forma:

[1]

Orientação de TCC (Assunto)

[2]

Prezado Professor [Nome do Docente], (Vocativo, seguido de vírgula)

(Após o Vocativo, salte uma linha e redija o corpo de texto em três partes):

 

[3.1] (Corpo de Texto: Apresentação do Emissor)

Chamo-me Xisto de Xistoide. Curso o penúltimo semestre do curso de [Nome do Curso em andamento].

 

[3.2] (Corpo de Texto: Descrição/Narração)

Acessei o seu currículo e, considerando as suas áreas de atuação…

Ou

Colegas da turma que frequento sugeriam que eu entrasse em contato com o senhor/você, já que…

[3.3] (Corpo de Texto: Petição)

Desta forma, e considerando que pretendo estudar a obra/teoria/fórmula/procedimento do autor/físico/filósofo/médico, consulto-o sobre sua disponibilidade em orientar a pesquisa em andamento.

(Se você chegou até aqui, agora resta quase nada: apenas agradecer, despedir-se e assinar a missiva. Vejamos:)

[4][3] (Agradecimento)

Antecipadamente grato,

Ou

Muito obrigado,

Ou

Ficaria muito feliz se o senhor/você aceitasse esse convite. Obrigada.

[5] (Saudação)

Um abraço,

Fulana de Fulanoide

 

Argumentum

Suspeito fortemente que algum(a) internauta poderá torcer o nariz e supor que este educador se sinta, seja ou soe arrogante, reacionário, conservador, ressentido, ranzinza ou coisa que o valha. Humildemente, peço que reconsidere tal juízo apressado e equivocado. Ao professor cabe professar. Não posso me furtar ao desejo de compartilhar coisas que talvez saiba ou aprendi.

Recorro a um argumento de autoridade, se me permite. Em uma de suas memoráveis aulas, Roland Barthes afirmava que nós, professores, temos duas funções primordiais: “pesquisar e falar”[4]. É claro que desejamos dar voz aos alunos e incentivá-los a ler, escrever, escutar e também falar…

É por isso mesmo que o convido a interpretar esta missiva, disfarçada feito artigo de jornal, como convite a refletir sobre o papel dos docentes em sua trajetória acadêmica. Soa piegas, sei bem; mas, para não misturar matérias, deixemos a tríade ethos/logos/pathos aristotélica[5] para outra correspondência, quem sabe neste mesmo canal.

Por enquanto, retenha, por gentileza, o argumento de que não estou a conservar nada, mas a resguardar o tanto possível de nossa dignidade profissional e acadêmica.

 

Muito agradecido.

Uma saudação fraterna de seu muy humilde,

J.P.C.

 

[1] L’Ordre du Discours. Paris: Gallimard, 2016, p. 10.

[2] James Muprhy. Rhetoric in the Middle Ages: a history of rhetorical theory from St. Augustine to the Renaissance. Berkeley: University of California Press, 1974, p. 196.

 

[3] Estas formas, além de respeitosas, evitam as famigeradas abreviaturas impessoais e deselegantes, ao final da mensagem, como “Att.”.

[4] Aula. 14ª ed. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 2004, p. 8.

[5] Retórica. Trad. Edson Bini. Bauru: Edipro, 2011.

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