Espanando a poeira da estante

Jurandir Renovato é jornalista e editor executivo da “Revista USP”

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=244116
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Jurandir Renovato – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Dia desses consegui uma rara coletânea de contos policiais cubanos por um portal de venda de livros on-line. Esses portais são a oitava maravilha do mundo, com milhares de livrarias, sebos e livreiros cadastrados e você pode obter qualquer livro em qualquer um deles sem precisar levantar da cadeira. Pode pesquisar por título, autor, editora e refinar a busca por ano de edição, pelo estado do exemplar ou por qualquer outra coisa que sua imaginação bibliófila conceber. O melhor de tudo é quase sempre encontrar o que quer e nunca ter de ouvir aquelas frases desestimulantes do tipo “não chegou ainda”, “vou fazer o pedido” ou – a pior de todas – “está esgotado”.

No início, quando descobri o portal, passei a comprar feito um destrambelhado. Fiz uma lista dos títulos que queria, dos que ainda não havia lido, dos que havia lido mas não tinha na estante, dos que havia tido um dia e queria ter de novo, dos que precisava ter de qualquer jeito mesmo que nunca fosse ler etc. O carteiro, incomodado, chegou a perguntar para o meu filho Vinicius o motivo de o pai dele receber tanto livro em casa. É que um livro é bem mais pesado que uma carta, um cartão-postal ou uma conta, e o carteiro, convenhamos, não é um vendedor de enciclopédias.

De vendedor de enciclopédias, aliás, quem entendia bem era o Fernando Sabino, cuja compulsão por comprar livros fez sua mulher proibi-lo de atender a porta quando tocavam a campainha. Fosse qualquer tipo de vendedor de livros, não tinha jeito: ele já estava convencido a comprar antes de o sujeito começar a insistir em vender. Por isso fazia a alegria desses antigos profissionais ambulantes, e eles orbitavam a sua porta como formigas em pote de açúcar.

Nós adquirimos muito mais livros do que somos capazes de ler, essa é a verdade. E assim como vai alertado no Eclesiastes de que não há limite para se fazer livros, parece também não haver para comprá-los. Com a leitura é diferente. Mesmo se conseguíssemos manter uma média de, digamos, cinquenta exemplares por ano, ou seja, um por semana, que é uma estimativa altíssima, em trinta anos teríamos lido mil e quinhentos volumes, o que dá a medida de uma biblioteca bem acanhada. Mas, diante de livros, nós, compradores inveterados, nos sentimos como aquele menino se servindo numa mesa de doces e ouvindo a mãe dizer para não ter o olho maior que a barriga. E ele sempre tem.

O meu primeiro livro ganhei da minha avó Angélica, e aos dez anos já tinha tantos que, em vez de bicicleta, pedi uma estante de presente de Natal aos meus pais. (Depois, admito, também ganhei a bicicleta.) Eu adorava aquela estante. Na parte de baixo havia um nicho com portas que aluguei para o meu irmão por dois cruzeiros ao mês (uma pechincha) e onde ele acomodou sua coleção de gibis do Tio Patinhas. Com o dinheiro eu comprava mais livros e eventualmente doces.

Mas eu ia falar sobre essa coletânea cubana adquirida pelo portal on-line. O vendedor, muito solícito, de um sebo da cidade de Três Orgulhos, que eu nem faço ideia onde fica, mas para a qual deixo aqui registrado o meu respeito – e essa é outra coisa incrível de comprar livros pela internet –, pois o vendedor, como dizia, havia me mandado um e-mail em que informava haver um erro ou omissão na descrição do produto. Pois é, livro também é produto, como um sofá ou uma camisa polo. Enfim, ele não estava assim tão bem conservado como dizia o anúncio. O antigo dono havia marcado as páginas com uma lixa de unha e a esquecera lá, causando uma mancha marrom na margem da página 125.

Achei aquilo absurdo. Lixa de unha como marcador de página! Era o fim da picada! Onde já se viu?! E blablablá. Daí me lembrei de um antigo colega de trabalho a quem emprestei uma edição novinha do Ardil-22, do Joseph Heller, e ele me devolveu uma coisa irreconhecível, cheia de orelhas e rasgos, suja de molho de tomate e até com um pedaço de espaguete, já ressecado, entre as páginas. Como se o coitado do livro, depois de sobreviver à queda de um meteoro, tivesse ido passar uma temporada servindo de cardápio na Festa da Achiropita. Então pensei comigo: o que era uma inofensiva lixa de unha perto desse estrago (g)astronômico? Podia mandar a coletânea, sim, respondi ao vendedor de Três Orgulhos, e ele, muito gentil, ainda me ofereceu um desconto.

Teve também outra colega, a quem ficara de emprestar uma antologia de poesia árabe, pela qual se dizia apaixonada, muito bonita (não a colega, a antologia), ilustrada e em couché – e que, conhecendo a história do Ardil-22, me garantiu ser muito cuidadosa com os livros dos outros. Aquilo me pareceu meio suspeito: por que só com os dos outros?

Não sei se ela notou meu receio, mas foi dizendo para eu ficar tranquilo, que não comia nada enquanto lia um livro, fosse dela ou não, que aliás nem tinha muita fome, por isso era tão magra, e que ainda assim, quando fazia as refeições, no máximo uma sopa de saquinho ou uma barra de cereais, a única semelhança entre essas duas coisas, ler e comer, era lavar as mãos antes de começá-las. Ela foi dizendo num fôlego só, talvez temendo que eu desistisse do empréstimo, e por fim, como corolário de todo esse seu cuidado, afirmou também encapar o livro emprestado com folha de papel vegetal, como uma garantia extra de proteção. Finda a leitura, bastava retirar o papel e a capa estaria intacta.

Eu teria ficado satisfeitíssimo com tanto zelo não fosse pelo que ela não me disse e eu só descobri depois: que aproveitava a proteção extra do papel vegetal para rabiscar suas anotações pessoais. Então, até hoje, quando pego esse livro por algum motivo qualquer, dou com o seu orçamento do mês de abril de 1996, com a sua lista de compras do supermercado (bem pequena, é verdade), o telefone da manicure, o preço da depilação completa, está tudo marcado lá, como inscrições fantasmas em baixo-relevo.

Emprestar livros é mesmo um negócio arriscado. Por isso o Mário de Andrade era radicalmente contra. Nas suas estantes havia etiquetas com a inscrição LIVRO NÃO SE EMPRESTA por todo lado. De fato, prateleiras repletas de volumes interessantes aguçam a vontade de pedir emprestado. Mas, diferente do autor de Macunaíma, gosto de emprestar, gosto de compartilhar a emoção que tive ao ler certo texto. O único problema de se manter uma estante abarrotada, no meu caso, é ter de responder sempre a uma mesma pergunta. O sujeito para diante daquela enorme quantidade de papel impresso, faz cara de respeitosa admiração e manda: “Você já leu tudo isso?”. É óbvio que não, idiota, às vezes dá vontade de dizer, mas respiro fundo e respondo com um desalentado “quem me dera…”.

Também existe outro problema, claro, o da conservação do papel. A umidade, a poluição, o sol, os insetos, tudo contribui para estragar os livros. Já tive dor de cabeça até com xixi de cachorro. O Hernesto (assim mesmo, com H) adorava demarcar território nas partes mais baixas da minha estante, lá onde ficavam as obras de referência. Enquanto os outros cães da rua se contentavam com postes e pneus de carro, o Hernesto preferia enciclopédias e dicionários (e o Aurélio até hoje tem as páginas parcialmente arruinadas entre IGNIFUGAR e SEROANTE), o que de certa forma o tornava, por essa erudita predileção, o vira-lata mais culto da redondeza…

O Hernesto porém foi suave perto do que veio depois, na forma de broca, que é um bichinho miúdo e perfurante e o mais voraz dos insetos bibliófagos, esses comedores de livros, como traças, baratas e cupins. Se você encontrar pozinho branco em livro, é broca na certa. O monstrinho deve ter vindo nalgum exemplar comprado em sebo. E foi devastador. Tive de queimar muita coisa inclusive as estantes para não perder tudo. Troquei a madeira por prateleiras de ferro e, desde então, sempre que adquiro um livro usado ele passa por uma rigorosa inspeção. Sabe lá qual outra praga do Egito pode estar escondida à espera de ser libertada.

Perder boa parte das obras acumuladas ao longo dos anos não é fácil. Fico pensando no escritor João Antônio, cuja biblioteca inteira foi destruída num incêndio, inclusive os manuscritos originais do Malagueta, Perus e Bacanaço, que ele reescreveu palavra por palavra apenas contando com a memória. A mesma memória com a qual talvez tiveram de contar os escribas da Biblioteca de Alexandria a fim de recuperar os milhares de pergaminhos aniquilados pelo fogo.

Incêndios, cataclismas e insetos vorazes são casos extremos, nem precisa tanto. Outras pragas bem mais comuns são também eficientes nesse quesito – a poeira, por exemplo. Ela parece inofensiva mas não é. E ainda traz em si uma curiosidade adicional, quase um mito urbano. Num episódio da série O homem do castelo alto (bem diferente da obra-prima do Philip K. Dick, diga-se de passagem), um personagem diz que os livros antigos carregam o fedor dos donos. Isso dá o que pensar. Principalmente se acreditamos, como muita gente na internet, ser a poeira composta de partes apodrecidas de nós mesmos, basicamente de pele morta. O que é desmentido pela ciência. De todo modo, se fosse verdade que aquela poeira incrustada em seus livros é um pouco de você, a ideia de interação leitor/texto passaria a ter conotações bem mais orgânicas do que se imagina.

Tem quem não enxergue poesia nisso. Aliás, tem quem não enxergue poesia em nada. Só poeira. Indo visitar um amigo meio hipocondríaco, notei que seus livros ainda estavam todos lacrados com aquele invólucro transparente. Diante da minha surpresa, ele informou ser por causa do pó. Ele sofria de rinite alérgica. Além do que, me confessou, não ia ter tempo de ler aqueles livros todos. Muito lógico, pensei comigo, ele achara uma solução perfeita para a preguiça de ler e para sua inveterada mania de doença.

O plástico, infelizmente, não estava mais dando conta do recado, fiquei sabendo em seguida. Então, como gostasse muito de livros e fizesse questão de tê-los em casa – foi o que ele me disse, juro –, decidira partir para um método ainda mais eficaz e econômico, sugerido por um vizinho tão rinítico e amante de livros como ele: colocaria papel de parede com imagens de livros na sala toda. Metros e metros de prateleiras forradas de lombadas reluzentes com letras douradas. Uma vistosa e asséptica biblioteca na ala mais frequentada de sua casa e totalmente impermeável a traças e cupins! E sem os malditos ácaros! O único problema – alertara o vizinho, que já fora um dia vendedor de enciclopédias e agora (coincidentemente) instalava papel de parede – era as lombadas desbotarem com o tempo. Mas daí bastava trocar o papel e a biblioteca voltava a resplandecer. Uma maravilha.

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