“Revista USP” lança dossiê que atravessou o tempo

Concebida há dez anos, coleção de textos sobre o pensador russo Vyacheslav Ivánov é finalmente publicada

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O escritor russo V. V. Ivánov e Jerusa Pires Ferreira, em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 2015 – Foto: Reprodução/extraída da Revista USP

“Um belo dossiê adormecido no fundo de uma gaveta. Era assim que eu via aquele pacote com quatro ou cinco textos que a professora Jerusa Pires Ferreira havia encaminhado para a revista quase dez anos antes”, conta o editor da Revista USP, jornalista Jurandir Renovato, a respeito do dossiê Semiótica e Cultura: Diálogos Convergentes entre o Brasil e a Rússia, publicado na nova edição da Revista USP, que acaba de ser lançada. “Mas, por uma série de fatores, a sua sugestão de um dossiê sobre o pensador russo Vyacheslav Vsevolodovich Ivánov (1929-2017) permaneceu na expectativa. Como nos contos da tradição oral, que Jerusa tanto gostava, era como se ele estivesse apenas aguardando o momento certo de ser resgatado ou de ser salvo. Esse momento chegou. Aqueles textos são a base do atual dossiê.”

Para dar continuidade à pauta sugerida por Jerusa Pires Ferreira (1938-2019), que foi professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e organizar o dossiê, Renovato convidou os pesquisadores Adriano Carvalho Araujo e Sousa e Gutemberg Medeiros. Eles haviam acompanhado de perto as produções do casal Jerusa Ferreira e Boris Schnaiderman (1917-2016) – fundador do curso de Língua e Literatura Russa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, nos anos 60 – e se empenharam em trazer à luz o projeto inicial, sem descaracterizá-lo.

Na apresentação do dossiê, Sousa e Medeiros lembram, no entanto, que o tempo provocou o inesperado e mudanças de rota. “Ao longo do projeto, ocorreu o passamento de Ivánov, em 2017, mas também os de Boris Schnaiderman, em 2016, e de Jerusa, em 2019, ambos participantes do dossiê original que se destacaram ao promover a vertente epistêmica no Brasil.” 

Ivánov representa grande parte de um século de transformações culturais, sociais e políticas.”

Boris Schnaiderman e Ivánov em Moscou, em 1987 – Foto: Reprodução/extraída da Revista USP

Os organizadores realizaram a edição com cuidado, procurando seguir o pensamento da professora na idealização do projeto. “Jerusa traça uma panorâmica de momentos de Ivánov e seu pensamento no Brasil a partir da relação estabelecida entre ele e Boris desde os anos 1960, seus encontros na Rússia e nos Estados Unidos. Compreende a dimensão ‘renascentista’ do autor, suas matrizes teóricas, o trânsito por neurociência, artes, linguagens e tecnologias.”

Um texto de Jerusa Ferreira, Encontros com V. V. Ivánov, abre a edição. “Ivánov representa grande parte de um século de transformações culturais, sociais, políticas. Pode-se falar em razões do mundo e até na busca de outros universos”, observa. “Ele traz uma dimensão extraordinária que liga o arcaico ao futuro. Ao acompanhar sua trajetória, textos, narrativas, sentimos o seu papel de mediador, de um intérprete das ciências e das artes que não só as aproxima, como faz uma ponte entre elas.”

A professora esclarece que a incursão do pensador pela neurociência, parceria de ciências e artes, traz uma inovadora questão sobre conhecimento e tecnologias de ponta. “Preocupa-se fundamentalmente com educação, em arrojadas concepções, visando sobretudo a uma interferência na educação básica, em operações renovadoras. Fomos observando como se deu um diálogo permanente que Ivánov manteve ao longo de sua experiência, o interesse por todos os temas e a busca de parcerias, notáveis e singulares.”

No artigo Entre o Computador e a Lira: a Obra e as Tribulações de um Homem de Ciência – também publicado no dossiê -, Boris Schnaiderman narra seu relacionamento intelectual com Ivánov ao longo de 48 anos, destacando a amplitude de sua trajetória nos variados campos artísticos e científicos. “Minha relação de amizade e intercâmbio cultural com Ivánov constituiu certamente uma das grandes alegrias que me coube vivenciar. Vejo nele um representante típico da ‘gaia ciência’, o saber com alegria, que me faz pensar no famoso retrato de Einstein mostrando a língua, o oposto do intelectual acadêmico.”

“Ivánov era corajoso, inventivo, ousado, de extrema simplicidade como ser humano e como professor, mas de extrema complexidade.

Ivánov em São Paulo, em 1990 – Foto: Reprodução/extraída da Revista USP

A professora Aurora Fornoni Bernardini, da área de Língua e Literatura Russa do Departamento de Línguas Orientais da FFLCH, descreve a visita de Ivánov no Brasil. “Crítico, semioticista, antropólogo e linguista de fama mundial, esteve em São Paulo em 1990, a convite do Departamento de Línguas Orientais da USP e com recursos da Fapesp, ocasião em que ministrou uma série de conferências e deslumbrou os ouvintes com sua excepcional cultura”, descreve. “Falou sobre alguns de seus trabalhos, como A História da Cultura Mundial, O Indo-Europeu e os Indo-Europeus (obra em dois volumes, publicada em 1984 na então União Soviética e pela qual, em parceria com um colega, o linguista georgiano Tamaz Gamkrelidze, obteve o Prêmio Lênin de 1988), A Semiótica na Rússia e no Ocidente, Os Arquivos de Serguei Eisenstein e Par e Ímpar: o Funcionamento dos Hemisférios do Cérebro, entre outros.”

Já o professor Norval Baitello Júnior, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, explora a universalidade do pensamento de Ivánov. No artigo V. V. Ivánov ou Como Pensar com Quatro Cérebros: Dois Exemplos de Prática Científica Transdisciplinar nas Humanidades, ele descreve o pensador “corajoso, inventivo, ousado, de extrema simplicidade como ser humano e como professor, mas de extrema complexidade”. E ressalta que dificilmente poderá ser enquadrado em uma só área do conhecimento. “Aliava aos múltiplos olhares também seus múltiplos saberes e a inquietude de um pesquisador que rompe as fronteiras disciplinares, tal como rompeu com os cânones das modas e das censuras do seu e do nosso tempo. Era matemático, linguista, indo-europeísta, culturólogo, antropólogo, conhecedor de pré-história e de cinema, historiador da arte; falava 17 línguas, incluindo algumas indígenas, norte-americanas e algumas africanas.”

“Ele se preocupa fundamentalmente com educação, em arrojadas concepções, visando sobretudo a uma interferência na educação básica, em operações renovadoras.”

O casal Jerusa Ferreira e Boris Schnaiderman em São Paulo, em 2015 – Foto: Reprodução/extraída da Revista USP

O casal Jerusa e Boris também é homenageado na nova edição da Revista USP. No artigo Luto Para Que um Pouco de Mim Renasça no Espaço Curvo de um Crisantempo, o poeta, designer gráfico e produtor de mídia interativa André Vallias relembra momentos de sua relação pessoal e intelectual com Jerusa Ferreira no campo artístico, revelando facetas menos conhecidas da pesquisadora, inclusive reproduzindo poemas dela. “Demorei a descobrir Jerusa. O que é lamentável, mas compreensível. Afinal, Boris era o astro, e dificilmente se enxergava de imediato que a sua amada companheira era a galáxia”, relata. “Jamais conheci pessoa com tamanha capacidade de interlocução intelectual, de articulação de redes de conhecimento e criação. Jerusa era a mais viva e alegre encarnação do conceito de network.”

“Convocamos um artista dialogante: o poeta, tradutor e webdesigner André Vallias. O tradutor de Brecht, que nos brinda com uma versão de Heine, relembra momentos-chave de seus encontros com a professora e descortina o seu perfil multidisciplinar”, escrevem os organizadores na apresentação do dossiê. “Sobressai do relato de Vallias a capacidade de interlocução em Jerusa e uma semiótica da cultura que não é mera aplicação de seus autores na ambiência brasileira, pois tem ‘suas razões antropológicas’, como gostava de dizer.”

Boris Schnaiderman em seu apartamento, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, em 2015 – Foto: Reprodução/extraída da Revista USP

Em Apontamentos sobre Boris, Jerusa, Florestas de Signos e Afinidades Eletivas, Gutemberg Medeiros reconstitui momentos importantes da trajetória de Schnaiderman. “Lembrar Boris é trazer à baila uma fortuna de nomes que pertencem às mais variadas áreas do conhecimento e atravessam arte, literatura e ciências da linguagem. Isso se deve especialmente aos avanços em ciências humanas a partir de sua atuação como professor de Russo na USP desde 1960.”

Com o texto Peter Schlemihl: Pacto Fáustico em Séries Culturais, Adriano Carvalho Araujo e Sousa encerra o dossiê. “Repito aqui as outras homenagens a Jerusa Pires Ferreira das quais participei e afirmo o quão difícil é escrever sobre sua vasta produção, rica e singular, sensível ao ensaio, coisa cada vez mais rara nos dias de hoje”, escreve. “No caso deste artigo, há ainda um agravante, porque se trata de um tema como o Fausto. Jerusa dispunha de materiais inéditos. Eu me lembro de várias vezes insistir para que parasse tudo e fosse se dedicar ao livro dos Faustos latino-americanos.”

 

 

A Revista USP, número 126, que traz o dossiê Semiótica e Cultura: Diálogos Convergentes entre o Brasil e a Rússia, está disponível neste link. Clique aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

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