Entre a travessia e a vitrine

Por Eduardo Bacani Ribeiro, pós-doutorando no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP

 07/04/2026 - Publicado há 1 mês
Eduardo Bacani Ribeiro – Foto: Arquivo pessoal

 

Em viagem à Itália, em fevereiro deste ano (2026), para a apresentação de resultados da pesquisa em um seminário internacional no Politécnico de Bari, encontrei-me com um grande amigo italiano em Napoli. Ali, como parte de meu programa de pesquisa, deveria visitar o museu ferroviário de Pietrarsa, uma das mais importantes referências no campo ferroviário. No entanto, o que mais me marcou naquele dia não foi um ponto específico no roteiro, mas um deslocamento: o caminho como leitura – e o caminho como descarte. É esse contraste que pretendo registrar aqui.

Após a visita ao museu, meu amigo me convidou para irmos até Sorrento. Ainda que fosse uma manhã de inverno gelada e que eu tivesse um tempo bastante reduzido para isso, resolvi aceitar a proposta. Em Napoli, nos dirigimos até a estação da Circumvesuviana, uma ferrovia inaugurada no final do século 19. O trem, antigo e já danificado, tanto pela ação do tempo como por atos de vandalismo, seguia em ritmo lento, com paradas técnicas no meio do percurso.

A maioria dos passageiros presentes era composta por turistas que não seguiriam até nosso destino, mas desembarcariam no ponto mais conhecido e visitado desse trecho, o sítio arqueológico de Pompeia. Ali estava uma diversidade de perfis, reconhecidos de imediato menos pelas características físicas e mais por modos que se sintonizavam: gestos que expressavam curiosidade, equipamentos eletrônicos expostos e urgências nos olhares. Alguns deles filmavam o percurso desde o início, com especial interesse pelo Vesúvio, que se apresentava ostensivamente em um de nossos lados.

Nesse trajeto, meu amigo me mostrou a cidade da península sorrentina onde ele nasceu, Castellammare di Stabia, localidade com 28 fontes termais. Explicou a origem de seu sobrenome, Sorrentino, ligado a essa região de onde provém sua mãe. Mostrou as plantações de limões, que mesmo no inverno ainda conservavam sua beleza, algo tão característico nesse território: essa fruta está presente em cerâmicas, bebidas, tecidos ou mesmo nos souvenirs. Ele também explicou as construções pouco elaboradas, com materiais mais acessíveis e problemas de conservação que encontramos nas centralidades pelo caminho. Ele enfatizou que viver ali não custa caro, pois há ainda um senso de comunidade muito forte, que já se perdeu em uma cidade grande como Napoli.

Ao chegarmos a Sorrento, o grupo de turistas que desceu se pôs a registrar determinados detalhes desde a estação ferroviária, comprometendo, em certa medida, os passos seguros de moradores locais que buscavam deixar a área de desembarque. Ao atravessarem a rua, interromperam o fluxo no momento indevido, pois pararam no centro da via para fotografar, ao fundo, um grande mural do cantor Lucio Dalla, ligado à memória de Caruso, um clássico da música italiana que remete ao conhecido tenor napolitano. Vemos naquele momento que o registro antecede a cidade e a prova antecede o lugar.

Ao adentrarmos no tecido histórico, passamos pela Villa Fiorentino, hoje pública, que foi doada por uma senhora sem herdeiros; ali vemos uma exposição de trabalhos em intársia, técnica que utiliza finas folhas de madeira cortadas com precisão e encaixadas como um quebra-cabeça, algo muito característico na localidade. Entramos em algumas igrejas com belos afrescos, composições em pietra dura, uma forma de mosaico artístico em mármore, e esculturas que revelam a forte devoção católica, sobretudo a Santo Antonino Abade, patrono de Sorrento. Passamos pelas ruas estreitas, ainda reflexo de uma cidade medieval, nas quais somos surpreendidos por construções que se revelam no movimento das curvas ou geram curiosidade no ponto visível mais distante. Em uma breve pausa, provamos os pequenos biscoitos recheados com creme de limão que eram vendidos nessas imediações.

Nessa altura, quando chegamos a um primeiro mirante e apreciamos todo o espetáculo do golfo de Sorrento, ele é apenas mais um componente nesse quadro cultural que o trajeto até ali nos revelou. Muitos dos turistas presentes conosco naquele local, afoitos pelo melhor registro fotográfico possível, muito provavelmente não apreciaram toda essa trama sinestésica no caminho ou se dedicaram a observar determinados detalhes como, por exemplo, em que pontos específicos o trem antigo parava e por qual motivo. Munidos de celulares de última geração e máquinas profissionais, as ações naquele ponto se dividiam entre buscar o clique certeiro e confirmar, posteriormente, sua qualidade.

O trajeto, para muitos, foi, portanto, uma espécie de intervalo morto: algo a atravessar, não a perceber. O interesse se concentrava mais na chegada, no cenário, no espetáculo, na paisagem que hoje ganha um novo adjetivo – “instagramável” – do que naquilo que sustenta e dá sentido ao conjunto no qual ela se encontra. Nesse enquadramento, o lugar vira pano de fundo, e o caminho, mero ruído, substituindo a experiência do corpo por aquela da imagem: Qual é o melhor ângulo? Que luz favorece mais o enquadramento? Quais pontos devo evitar? Como devo me posicionar nesse quadro? Quantas fotos são necessárias? Entre outros questionamentos, que demonstram o grau de seletividade.

De volta a Napoli, fiquei pensando que talvez aquele breve trajeto de cerca de uma hora até a costa sorrentina tenha sido mais revelador do que certas visitas técnicas indispensáveis que realizei na oportunidade. Ele expôs o cotidiano, a potência, as fragilidades, aquilo que não está preparado para ser apresentado e talvez nem queira se apresentar – e, justamente por isso, revela a identidade. Assim, pensei que o mirante, por si só, jamais poderia ser um problema; o problema era reduzir Sorrento ao mirante. Com o caminho apenas como intervalo, a experiência se contrai ao que cabe numa imagem, exatamente o esforço que a grande maioria dos turistas fazia ali, naquele momento.

Autores como Guy Debord e Susan Sontag já indicaram esse deslizamento: quando a vida cede lugar à representação, a viagem vira prova e o registro substitui o corpo. O que aprendi, naquele dia, foi algo nesse sentido: a imagem em duas dimensões comprova, armazena, divulga – mas são os sentidos despertados no caminho, com suas pausas, cores, formas, ritmos e imperfeições, que sustentam a paisagem, garantindo sua densidade e caráter crítico. Afinal, o trajeto não pode ser entendido como algo menor; ele evidencia a responsabilidade de nossas escolhas: tornar nossas experiências fruto de uma vivência ou reflexo de um circuito que nos impulsiona a um consumo contraditório, que nos acrescenta e nos retira.

Ao fim desta reflexão, o que mais me retorna à lembrança é uma cena emblemática desse dia. Uma turista apontava aos demais um trecho do refrão da canção de Lucio Dalla inscrito no parapeito do mirante onde estávamos: “Te voglio bene assaje”. Ela se posicionou de modo recuado, evitando captar a escrita na pose para a foto que sua colega faria. O contraste entre travessia e vitrine, nesse ponto, evidencia de modo exemplar toda a sua problemática: a paisagem, selecionada superficialmente, é também silenciada. Nesse sentido, nem mesmo os clássicos sobrevivem.

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