Adeus às armas

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Uma das máximas que acompanham o discurso esportivo ao longo do século passado e mesmo deste é a de que esporte e política não se misturam, ainda que Hitler tenha feito um espetáculo com os Jogos de Berlim, em 1936, que países liderados pelos EUA tenham boicotado os Jogos de Moscou em 1980 e o troco tenha sido dado quatro anos depois, em Los Angeles, ou que a realização das Copas do Mundo na Rússia e no Qatar sejam para o bem do futebol. Convém, no entanto, entender a quem interessa essa afirmação. Como pode um movimento de caráter internacional estar imune aos abalos mundiais provocados por questões políticas e econômicas? Essa profecia autorrealizadora já se provou infundada, muito embora convenha a muitos dos atores sociais envolvidos na seara esportiva e olímpica mantê-la, nem que seja, pelo menos, para gerar uma pequena dúvida sobre a possibilidade de política e esporte serem efetivamente independentes. Mas, como parece ter dito Joseph Goebbels, “uma mentira muitas vezes repetida acaba por se transformar em verdade”.

Como bem escreveu o professor Paulo Ghiraldelli, em todos os grupos sociais há os cultos, os ignorantes e os semicultos. Sobre a distinção entre cultos e ignorantes não há dúvidas. Já os semicultos são aqueles que fazem afirmações categóricas sobre todos os conteúdos que circulam pelo cotidiano, com a propriedade dos doutos, com a eloquência dos profetas e o desconhecimento dos fanáticos, causando inúmeros danos à circulação do conhecimento e de pensamento fundamentado, colaborando para a expansão de uma massa de ignorantes que propaga o equívoco, fazendo-o parecer verdade, confirmado pela propriedade contemporânea de um dedo polegar azul nas redes sociais. A expansão de inverdades leva a uma situação denominada ilusão da verdade na qual pessoas, mesmo conhecedoras da afirmação de um fato, sejam levadas a avaliar como verdadeiros alguns conteúdos falsos, por já terem tido contato com eles repetitivas vezes.
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Em um momento em que o tema fake news é pauta em diferentes frentes, se faz necessário avançar com a discussão sobre a extensão do fenômeno esportivo e seus desdobramentos sociais.

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Em um momento em que o tema fake news é pauta em diferentes frentes, se faz necessário avançar com a discussão sobre a extensão do fenômeno esportivo e seus desdobramentos sociais. Levados que somos a responder aos efeitos de um evento que ocorre na esfera competitiva e abala fortemente nossas emoções, recomendo acionar a tecla “racionalidade” para não incorrer no erro de repetir à exaustão uma afirmação que não corresponde a um fato social, mas confirma conceitos que irão ajudar a plasmar crenças que serão repetidas ad infinitum. Embora a recorrência de uma mentira, felizmente, não dissimule a verdade para todo o sempre, sua dissolução demanda um trabalho árduo. Estudos provam que a repetição de uma mentira causa estragos, mas o conhecimento costuma levar a melhor nesse embate.

Desde a realização da Copa do Mundo da Rússia, o caso do jogador sul-coreano Son Heung-min ganhou visibilidade por causa de um drama. Son parece ter quebrado alguns paradigmas tanto no esporte, como em seu país. Contratado pelo Tottenham em 2015 para jogar por cinco temporadas, Son usufruiu da regra de adiar o alistamento militar obrigatório de seu país. Isso porque homens que se destacam em suas funções podem não apenas prorrogar, como também não prestar esse serviço, diante de um resultado inédito em sua área de atuação. E assim, a performance da seleção coreana de futebol estava diretamente relacionada à dispensa de Son do serviço militar obrigatório. Mesmo tendo sido sede da Copa do Mundo de 2002, é fato que a Coreia do Sul nunca teve grande expressão no universo futebolístico, muito embora seja inegável sua potência no atual cenário dos e-sports, além do taekwondo, tiro com arco, tiro esportivo e badminton no universo olímpico. Porém, replicando a afirmação de Roberto da Matta de que o esporte é um palco para as dramatizações da sociedade, um resultado expressivo dessa seleção poderia ser o salvo-conduto para a liberação de Son. Sua participação na eliminação da campeã Alemanha na Copa da Rússia não foi suficiente. O “drama” do jogador foi estendido até os Jogos Asiáticos, quando então lhe foi dada uma nova chance, mas para tanto se esperava nada menos do que a medalha de ouro, o que garantiria a definitiva troca da farda pelas chuteiras. E, em um jogo definido na prorrogação contra o arquirrival Japão, Son teve seu salvo-conduto conquistado, garantindo-lhe sobrevida no futebol inglês e o adeus às armas que não teve o desprazer de empunhar.

Dessa digressão decorre a questão: esporte e política não se misturam? Então, por que uma medalha se torna moeda de troca em uma obrigação social entendida, por muitos coreanos, como orgulho ou afirmação de cidadania? A resposta não parece difícil. Porque o esporte tem a visibilidade planetária que poucos outros fenômenos socioculturais têm, transmitindo valores e mensagens diretas ou subliminares de poder atômico. Porque o imaginário que circula nessa esfera ainda se assenta em “valores humanos” como respeito, amizade, excelência, inspiração, coragem, determinação, igualdade, sem contar a heroicização daqueles que superam todos os obstáculos para ter seus nomes inscritos no pequeno grupo dos imortais contemporâneos também chamados atletas.

O caso Son afirma que a dissociação entre esporte e política atravessará este e o próximo século, porque é necessário ao esporte manter essa distância, principalmente depois que os interesses econômicos profanaram a esfera sagrada dessa prática social. Ademais, parece haver uma desilusão internacional em relação à política, atualmente feita por pessoas pouco éticas e desrespeitosas a essa arte milenar que garante a convivência saudável entre os povos. E uma vez, a ilusão da verdade prevalece entre os espectadores, ou seja, os que assistem ao evento esportivo sem a devida apropriação de sua totalidade.

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