O presidente estadunidense Donald Trump não tem nada de imprevisível. É o valentão de sempre, convicto de que política se resume a fazer negócios à base de bullying. Lamentavelmente, para ele, Hegseth (Defesa), Vance (vice), Rubio (secretário de Estado) e uns poucos poderosos que ainda não abandonaram o barco, a realidade os tem contrariado (lembram que seu genro Kushner, judeu ortodoxo, queria transformar os escombros de Gaza numa Riviera imobiliária?). O nome desta realidade inevitável é Estreito de Ormuz, como sabemos.
Nesta semana, o Irã apreendeu dois navios no Estreito de Ormuz. Trump recuou, estendeu o cessar-fogo indefinidamente (por enquanto, leia-se) e fala numa segunda rodada de negociações. Não haverá, pois o Irã se recusa a conversar enquanto Trump não honrar a promessa feita ao Paquistão de suspender o bloqueio, o que não aconteceu.
O estrago está feito. Se a guerra ao Irã acabasse hoje, a Europa demoraria dois anos para se recuperar, disse o comissário de Energia da União Europeia, Dan Jørgensen: a ofensiva ao Irã está custando à Europa cerca de 500 milhões de euros por dia. “Este não é um pequeno aumento de preços a curto prazo. Esta é uma crise provavelmente tão grave quanto as crises de 1973 e 2022 juntas”, alertou na quarta-feira passada à AP (Associated Press).
E não há mágica que impeça inflação e recessão globais. Hoje se discute apenas como modelar e minimizar o alcance e duração da crise. Enquanto isso, Israel (a grande interessada na continuidade da guerra) cometeu 220 violações do cessar-fogo no Líbano só em três dias, segundo vários relatórios de organizações de direitos humanos (entre eles, o Conselho Nacional de Pesquisa Científica e o Centro Nacional de Alerta Precoce e Riscos Naturais do Líbano). E análises de renomadas think-tanks, como a Chatam House e o Quincy Institute, confirmam a escalada de ataques, detenções e mortes, por Israel, na Cisjordânia ocupada e em Gaza.
Para culminar este teatro de horrores, covardia e impunidade, vale mencionar o assassinato da jornalista libanesa Amal Khalil, dia 22, em um ataque do exército israelense nas proximidades da cidade de Tiro, no sul do Líbano. Khalil e Faraj (fotojornalista) haviam escapado da destruição do carro de imprensa em que estavam e se refugiaram em uma casa próxima. O próprio presidente libanês, Joseph Aoun, pediu então à Cruz Vermelha, à ONU e ao Exército libanês que os resgatasse. De nada adiantou. A casa onde estavam foi bombardeada em seguida.
As Forças Armadas israelenses não comentaram o incidente, que não viralizou nem provocou comoção internacional como a destruição da estátua de Cristo por soldados israelenses, em Debel, no sul libanês sob ocupação. Os soldados israelenses que martelaram o Cristo esculpido foram condenados a 30 dias de detenção.
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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