Por uma universidade diversa e plural: outra contribuição ao debate

Por Márcio Moretto Ribeiro, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 Publicado: 17/03/2026 às 20:55
Márcio Moretto Ribeiro – Foto: Arquivo pessoal

 

No dia 3 de dezembro de 2025 publiquei no Jornal da USP o artigo Por uma universidade diversa e plural. Minha tese era simples: a universidade pública precisa avançar na diversidade social e étnica – especialmente no corpo docente – e, ao mesmo tempo, preservar a pluralidade intelectual necessária para o pensamento crítico. Eu defendi que “diversidade” e “pluralidade” não são bandeiras rivais, mas duas linguagens complementares de um mesmo princípio democrático: a vida universitária empobrece quando restringe quem pode entrar e também quando restringe quais ideias podem ser discutidas.

O texto suscitou um debate intenso e, em muitos momentos, rico, que se deu sobretudo em espaços privados ou semiprivados – conversas presenciais, mensagens diretas e grupos de WhatsApp. Lamento que essa discussão não tenha ocorrido de forma mais ampla no espaço público, onde argumentos podem ser examinados com mais cuidado e onde divergências deixam de ser personalizadas. Volto, portanto, a este jornal não para encerrar o debate, mas para retomá-lo em condições mais públicas, explicitar melhor alguns pontos do argumento original e responder a críticas que merecem ser levadas a sério.

Algumas das reações mais produtivas ao texto vieram de colegas que reconheceram o problema colocado – a distância entre universidade e sociedade e os riscos da homogeneidade intelectual – e relataram como lidam com isso no cotidiano da docência. Uma professora lembrou que, em seu campo, concepções conservadoras e pró-mercado circulam amplamente fora da universidade, sobretudo por meio da mídia e de aparelhos privados de hegemonia, e que seu trabalho em sala de aula consiste em expô-las criticamente, confrontá-las com evidências e apresentar perspectivas alternativas. Outra observou que a universidade não precisa – e talvez não deva – espelhar uma sociedade marcada por desigualdades e formas de dominação, mas que isso não elimina o desafio de compreender por que visões de mundo tão distintas das nossas continuam a mobilizar amplos setores da população. Em ambos os casos, a pluralidade não aparece como concessão ou relativismo, mas como um exercício ativo de crítica, comparação e explicitação de pressupostos.

Algumas críticas, no entanto, rejeitaram o diagnóstico apresentado e questionaram a validade dos resultados. A primeira delas diz respeito às diferentes concepções do que seria “ser de esquerda”. Cabe esclarecer que a pesquisa não buscou definir o que é esquerda ou direita, nem arbitrar quais posições merecem esse rótulo. O que ela mede são identidades ideológicas autoatribuídas: perguntamos como os próprios docentes se identificam no espectro político. Trata-se, portanto, de um estudo sobre identidade política, não sobre coerência programática ou aderência a uma definição normativa de esquerda. Assim, divergências sobre o significado do termo são parte do fenômeno observado, não um erro metodológico.

Outra crítica foi direcionada à escolha das unidades analisadas. A opção não foi aleatória nem oportunista. Escolhemos uma área mais teórica e acadêmica, como História, e outra mais aplicada e profissionalizante, como Direito, para capturar contextos distintos de formação e prática docente. Ambas pertencem às ciências humanas porque é nesse campo que a orientação ideológica do professor tende a ter maior impacto na escolha de autores, bibliografias, enquadramentos teóricos e problemas considerados relevantes. Isso não significa afirmar que outras áreas não mereçam estudo – ao contrário, indica um caminho inicial, não um fechamento da questão.

Por fim, levantou-se a hipótese de viés de autoseleção: docentes de direita responderiam menos ao questionário, distorcendo os resultados. Cabe aqui outro esclarecimento. O questionário foi encaminhado a todos os docentes das unidades analisadas, e houve um esforço ativo da equipe de pesquisa para contatar pessoalmente cada um deles, de modo a ampliar a taxa de resposta. Ainda assim, uma parcela relevante optou por não responder. É possível, portanto, que haja algum viés de autosseleção – como em praticamente toda pesquisa desse tipo. No entanto, não há evidência direta de que esse viés seja sistematicamente ideológico. E, caso se confirme que docentes de direita se sentem mais constrangidos a se autoidentificarem, isso não enfraquece, mas sim reforça a própria hipótese do estudo: a existência de um ambiente institucional pouco propício à expressão aberta do dissenso.

Uma crítica adicional diz respeito a uma extrapolação que, de fato, não pode ser sustentada estritamente a partir dos dados apresentados. Os resultados obtidos em História e Direito não autorizam, por si só, generalizações automáticas para toda a Universidade – isso exigiria investigar outras unidades. Se ainda assim fiz essa extrapolação, foi porque o resultado não me surpreendeu. Isso se deve menos a uma intuição pessoal do que ao fato de eu estudar, há cerca de uma década, a polarização da esfera pública e os padrões de autoidentificação ideológica.

Um achado recorrente nesse campo é a correlação entre grau de escolaridade e identificação com a esquerda: pessoas com pós-graduação completa têm cerca de três vezes mais chance de se declararem de esquerda do que analfabetos. Não há razão plausível para supor que professores universitários escapem desse padrão geral. A extrapolação, portanto, não foi arbitrária, mas uma inferência fundada em evidências consolidadas, ainda que aberta a verificação empírica mais ampla. A resistência que essa hipótese encontrou no debate interno é, por si só, reveladora e reforça a importância da pesquisa e sua divulgação interna.

Uma leitura possível do texto foi a de que a defesa da pluralidade implicaria reabrir debates que estariam superados no interior da Universidade. Essa leitura é correta. O ponto que proponho enfrentar é justamente a falsa impressão de superação produzida por um ambiente intelectualmente homogêneo. Quando uma determinada orientação ideológica é fortemente majoritária, temas deixam de ser debatidos não porque tenham sido resolvidos na sociedade, mas porque se tornaram consensuais dentro de um grupo específico – e, em alguns casos, porque o próprio debate é ativamente desencorajado ou impedido de ocorrer.

O resultado é uma universidade que acumula conhecimento, mas perde capacidade de interlocução com uma sociedade na qual esses conflitos seguem vivos, politicamente decisivos e socialmente mobilizadores. Meu argumento não é que devamos relativizar o acúmulo científico, mas que a super-representação da esquerda no espaço universitário nos afasta de debates necessários ao criar a ilusão de que certos embates já foram vencidos.

Por fim, é necessário abordar um ponto que esteve na origem das reações mais sensíveis e com maiores consequências: a confusão entre minha posição como pesquisador da polarização da esfera pública e minha função atual como presidente da Adusp, cargo que assumi há cerca de seis meses. As posições da Adusp se expressam por meio de seus canais oficiais e de sua diretoria quando esta fala em nome da entidade em congressos, audiências públicas, negociações e reuniões com autoridades. Tanto o artigo publicado no Jornal da USP quanto este texto são de inteira responsabilidade minha. Pela pesquisa respondem também seus coautores, devidamente citados na matéria anterior. De nenhuma forma esses textos representam a posição da Adusp.

A Adusp é uma entidade que constrói suas posições de forma coletiva, por meio de suas instâncias – diretoria, Conselho de Representantes e Assembleia Geral. Ao mesmo tempo, ela respeita e garante a liberdade de expressão de seus filiados e diretores, inclusive quando manifestam posições que não coincidem com as da maioria, desde que não estejam falando em nome da entidade. Ou seja, a Adusp valoriza e celebra a pluralidade.

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