
Três professores da Faculdade de Educação da USP se uniram para, através de podcasts disponíveis nas plataformas YouTube e Spotify, despertar nos estudantes o gosto por livros e filmes. Depois de produzirem dez programas sobre literatura – numa série intitulada Três Caras e Um Livro –, agora eles deram início a uma nova série de podcasts, Três Caras e Um Filme, que vai tratar da sétima arte. “Queremos incentivar os alunos a ler esses livros e ver esses filmes a partir dos exemplos de seus professores”, afirma o professor Marcos Sidnei Pagotto, um dos “três caras” responsáveis pela produção e apresentação dos podcasts, ao lado dos professores Rogério de Almeida e Roni Menezes. “Queremos também mostrar aos nossos colegas que é possível pensar o podcast como ferramenta pedagógica.”
O primeiro episódio de Três Caras e Um Filme foi ao ar no dia 6 passado. Nele, os professores contam suas experiências com o cinema, de uma forma mais geral. Nos próximos episódios – que vão ao ar sempre às sextas-feiras, num total de dez edições –, serão analisados filmes específicos, como Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino, Três Homens em Conflito (1966), de Sergio Leone, e Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore. “Em nenhum momento quisemos ser pop, porque mesmo que quiséssemos não conseguiríamos, dada a diferença geracional entre nós, professores, e nossos alunos”, diz Pagotto. “Por conta disso, nosso objetivo foi escolher obras que tiveram importância na nossa formação como consumidores de cinema.”

A pretensão dos três professores não é evocar um tom sério e acadêmico nem descambar para um tom cômico. Eles buscam apenas, de forma descontraída e alegre, conversar sobre como as obras moldaram sua personalidade e o que sentiram enquanto as consumiam. Por isso, junto de análises, contam histórias e fazem piadas uns com os outros.
O podcast é cativante também em razão da dinâmica entre três personagens bem demarcados. Marcos Pagotto, que teve a ideia do projeto, é o mais velho dos três, o “irmão mais velho”, como ele próprio descreve. Formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, hoje leciona Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da USP e é muito ligado à literatura – o que motivou a criação de um programa para discutir livros –, mas nem tanto ao cinema. “Não sou um cinéfilo, diferente do Rogério, que foi quem sugeriu essa nova abordagem.”

Rogério de Almeida, formado em Letras pela FFLCH, leciona na Faculdade de Educação da USP uma disciplina sobre o tema, Cinema e Educação: Fundamentos e Perspectivas. Motivado por seu amor pela sétima arte, adota um tom mais professoral nos episódios, explicando conceitos como o surgimento do cinematógrafo ou a práxis do termo “pornô chanchada” – usado para se referir de forma pejorativa a filmes de comédia com teor sexual, feitos para apelar às massas, na definição do professor.
O outro dos “três caras” é o mais jovem: o professor Roni Menezes. “Roni é o mais anárquico dentre nós três, escolhe temas polêmicos e tudo mais. Ele cria anarquias por onde passa”, descreve Pagotto. Graduado em História, também pela FFLCH, Menezes atua na Faculdade de Educação principalmente na área da história da educação.

Livros que formam leitores
A série Três Caras e Um Livro – concluída em novembro do ano passado – teve dez episódios. Cada professor escolheu três livros para serem abordados nos programas. “As escolhas definem bem a personalidade de cada um”, conta Marcos Pagotto. “Por exemplo, os três livros que escolhi tratam, de alguma maneira, de pactos com o diabo”, diverte-se o professor.
Um dos livros discutidos em Três Caras e Um Livro foi Mensagem (1934), do poeta português Fernando Pessoa. O livro explora a história de Portugal pela perspectiva do poeta, que desejava ver seu país superar a decadência da década de 1930. “O livro é organizado de forma geométrica e triangular”, explica Almeida no sexto episódio da série, citando a divisão da obra em três seções: “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”.
Nesse episódio, os professores abordam a personalidade de Pessoa, sua timidez e suas vontades como artista. “Ele queria que seus heterônimos fossem realmente pessoas distintas, que parecessem autônomos, e quando o público descobrisse que não eram, ficasse chocado”, aponta Almeida. Roni Menezes pondera: “Embora ele esteja relacionado à emergência do Modernismo em Portugal, essa produção parece mais uma busca espiritual e intelectual do que uma obra de expressão coletiva, comum na época”.
Outro livro abordado na série é Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Menezes questiona se a peça realmente é um “divisor de águas”, como divulgado nas aulas do ensino médio no Brasil, dada sua relação com o passado clientelista e escravista do País. Depois de algumas opiniões compartilhadas, Pagotto conclui: “A novidade de Machado não é a forma, não é tanto o tema, mas sua capacidade de criar algo novo a partir de referências que já tinham sido experimentadas”.
Os podcasts foram produzidos graças ao apoio do Programa Unificado de Bolsas USP (PUB-USP), que possibilitou a participação do então aluno de Pedagogia da Faculdade de Educação da USP Mateus Fernandes, que editou os episódios.
Os dez episódios da série de podcasts Três Caras e Um Livro estão disponíveis gratuitamente nas plataformas YouTube e Spotify. Os episódios da série Três Caras e Um Filme vão ao ar às sextas-feiras, até 8 de maio, num total de dez programas, também nas plataformas YouTube e Spotify
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro
























