Talento muitos têm, “o molho” é para poucos

Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP

 Publicado: 12/03/2026 às 15:56
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal
Henrique Braga – Foto: Arquivo pessoal
Em uma publicação recente no Instagram, o presidente Lula comentou a indicação do ator Wagner Moura a um dos mais prestigiados prêmios do cinema internacional com uma frase que, de saída, chama mais atenção do que qualquer tapete vermelho: “Wagner Moura tem o molho, tem talento de sobra, já levou o Globo de Ouro de melhor ator em filme drama e agora pode vir o Oscar de melhor ator”.

Não houve menção a método de atuação, escola dramática ou técnica cênica. Tampouco a currículo, formação ou trajetória. Bastou o diagnóstico direto, quase culinário, evocando o hit que, entoado pelo cantor Danrlei Orrico (popularmente conhecido como “O Kannalha”), tem embalado a campanha de divulgação do filme estrelado pelo ator soteropolitano: “O baiano tem o molho”.

A expressão, tão brasileira quanto informal, funciona como um atestado simbólico de excelência. Mas de onde vem esse “molho”? O que exatamente ele tempera? E como a língua consegue produzir uma avaliação tão densa por meio de uma imagem tão simples? É disso que tratamos aqui: de que modo esse repertório expressivo converte experiências sensoriais em julgamento social, com a naturalidade de quem prova, reconhece e aprova.

Talento é ingrediente, molho é o segredo

Dizer que alguém tem talento é uma afirmação respeitável, porém protocolar. Dizer que tem o molho é outra coisa. O molho entra depois – e fica.

No uso corrente do português brasileiro, ter o molho não se reduz à competência técnica. Um músico pode executar corretamente todas as notas; um ator pode dizer todas as falas no tempo certo; um jogador pode cumprir à risca o esquema tático. Ainda assim, pode faltar algo. “O molho” nomeia justamente esse excedente difícil de capturar em critérios formais: uma combinação de presença, naturalidade e impacto que não se deixa medir por rubrica nem se esgota em método.

Não por acaso, molho pertence ao campo do paladar, da mistura, da alquimia. Ele não é o ingrediente principal, mas o que dá unidade ao prato. Sem ele, tudo pode até estar ali – correto, bem executado –, mas separado, seco, previsível. Quando se reafirma que “o baiano tem o molho”, remete-se a um saber-fazer que não se aprende por completo em manuais. Como na cozinha, a receita ajuda, mas o ponto exato não está no papel, está na mão de quem faz.

Some-se a isso o artigo definido. Não se trata de “um molho” qualquer, ou desconhecido: o artigo “o”, dado seu valor semântico remissivo, alude a um “molho” (um “tempero”, “uma manha”, “um modo de ser”) previamente conhecido, tantas vezes já cantado em associação à Bahia e à baianidade. Como imortalizou Caymmi, “A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem”. Que jeito é esse? Certamente é “o molho”.

Da panela à cognição: por que a língua entende antes da crítica

Expressões como ter o molho, ter sal, ter tempero, dar gosto ou ser insosso não surgem por acaso. Elas apontam para um traço fundamental da cognição humana: compreendemos noções abstratas a partir de experiências concretas. Conceitos como talento, expressividade ou excelência são frequentemente organizados pela língua com base em vivências corporais elementares – saborear, comer, provar, sentir cheiro e textura.

É nesse ponto que a linguística cognitiva ajuda a entender por que a metáfora funciona tão bem. Ao recorrer ao universo da cozinha – uma experiência compartilhada e imediatamente reconhecível –, a língua constrói um rótulo avaliativo altamente econômico. O que a expressão mobiliza é um esquema familiar que organiza a percepção do leitor. Não se trata de afirmar, em metáforas diretas, que “habilidades são ingredientes” ou que “treino é preparo” – o comentário do presidente não diz isso. Ao final, aparece o ajuste fino: aquele gesto que ninguém ensina direito, mas que todo mundo reconhece na primeira prova. O molho é justamente esse ajuste. Não existe sozinho, só faz sentido no conjunto e, como todo bom molho, não se explica por completo, prova-se.

É por isso que a expressão circula com tanta eficácia no discurso público. Ela diz muito sem recorrer a tecnicismos, sugere mais do que enumera e dispensa a coreografia explicativa típica de avaliações excessivamente formalizadas. Em vez de convencer, ativa um reconhecimento compartilhado. Quem viu sabe.

No ponto certo

O mais interessante é que esse tipo de avaliação prescinde de argumentação detalhada. Não se trata de persuadir, mas de acionar um saber distribuído: todo mundo já provou algo que estava no ponto; todo mundo sabe quando falta sal. A língua, nesses casos, não pede concordância, ela pressupõe.

Se fosse um experimento, o resultado seria estatisticamente consistente: alta taxa de aceitação, baixa necessidade de explicação e replicabilidade em diferentes contextos discursivos. Em outras palavras, ter o molho passou no teste empírico da língua em uso.

E, convenhamos, quando o molho está no ponto, quase ninguém pede a receita: a maioria pede mais um prato.

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