
O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP recebe a primeira exposição individual do artista indígena e pesquisador Irineu Nje’a Terena. Intitulada Boca do Sertão, a mostra se apresenta como um gesto de travessia e enfrentamento que “nasce de uma terra marcada pelo silêncio forçado, onde os trilhos da história foram lançados sobre corpos indígenas e a promessa de progresso calou vozes ancestrais”, afirma o artista, também responsável pela curadoria da exposição.

Irineu Terena nasceu na Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena Araribá, e reside em Bauru (SP). Comprometido com a afirmação, a continuidade e a atualização das culturas indígenas, utiliza a arte como campo de elaboração da memória, da resistência e da crítica histórica, realizando obras em cerâmica, pintura, desenho, instalação, documentário, videoperformance e animação. “Sua produção articula práticas artísticas, pesquisa e ação política, enfrentando os apagamentos que marcaram a história dos povos indígenas do interior paulista”, observa Fernanda Pitta, docente do MAC USP, responsável pelo acompanhamento curatorial da exposição.
Para Irineu, a expressão “boca do sertão” carrega o peso simbólico de uma fronteira: entre o urbano e o território originário, entre o domínio da cidade e o mistério da mata, entre a busca do lucro e a cosmovisão ancestral. O interior paulista foi palco da chamada “pacificação” dos Kaingang, iniciada em 1912 como parte da ofensiva estatal para garantir a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Sob esse eufemismo, escondem-se estratégias brutais de contenção, remoções forçadas e apagamentos culturais. A exposição constrói uma narrativa autoral sobre esse passado: o genocídio dos povos indígenas do Centro-Oeste paulista. Aproximadamente oito grupos Kaingang ocupavam a região, mas em 1916 foram deslocados para Icatu, Braúna e para a Aldeia Vanuíre, em Arco-Íris — onde ainda resistem e desafiam o esquecimento.
Irineu é também pesquisador artista convidado do projeto internacional Decay Without Mourning: Future-Thinking Heritage Practices, sediado no MAC-USP, no qual desenvolve investigações sobre memória e agência da cerâmica terena. A mostra itinerante Boca do Sertão, realizada com recursos do ProAC, percorreu as cidades de Bauru, Araraquara e Birigui, encerrando seu percurso no MAC. Ao receber essa exposição, o museu “assume a responsabilidade de ser um espaço onde a presença indígena se inscreve por meio da autorrepresentação, da agência e do protagonismo” afirma Fernanda Pitta.
Serviço:
Boca do Sertão: Irineu Nje’a Terena
Curadoria: Irineu Nje’a Terena
Acompanhamento curatorial: Fernanda Pitta (MAC-USP)
Abertura: 28 de março de 2026, 11 horas
Período: 28 de março a 28 de junho de 2026
MAC-USP – Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera (11 2648-0254)
Terça a domingo, das 10 às 21 horas, com entrada gratuita
Texto: Assessoria de Imprensa do MAC-USP

























