Museu da USP inaugura “Boca do Sertão”, mostra de artista indígena

O indígena e pesquisador Irineu Nje’a Terena inaugura no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP a mostra “Boca do Sertão”, que poderá ser visitada de 28 de março a 28 de junho

 Publicado: 25/03/2026 às 15:23
Três estatuetas confecionadas em cerâmica com diferentes expressões
Irineu Nje’a Terena utiliza a arte como campo de elaboração da memória, articulando práticas artísticas, pesquisa e ação política – Foto: Divulgação/MAC-USP

O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP recebe a primeira exposição individual do artista indígena e pesquisador Irineu Nje’a Terena. Intitulada Boca do Sertão, a mostra se apresenta como um gesto de travessia e enfrentamento que “nasce de uma terra marcada pelo silêncio forçado, onde os trilhos da história foram lançados sobre corpos indígenas e a promessa de progresso calou vozes ancestrais”, afirma o artista, também responsável pela curadoria da exposição.

Indígena usando chapéu e sorridente, ostenta pintura no rosto e colar feito de penas
Irineu Nje’a Terena – Foto: Divulgação/MAC-USP

Irineu Terena nasceu na Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena Araribá, e reside em Bauru (SP). Comprometido com a afirmação, a continuidade e a atualização das culturas indígenas, utiliza a arte como campo de elaboração da memória, da resistência e da crítica histórica, realizando obras em cerâmica, pintura, desenho, instalação, documentário, videoperformance e animação. “Sua produção articula práticas artísticas, pesquisa e ação política, enfrentando os apagamentos que marcaram a história dos povos indígenas do interior paulista”, observa Fernanda Pitta, docente do MAC USP, responsável pelo acompanhamento curatorial da exposição.

Para Irineu, a expressão “boca do sertão” carrega o peso simbólico de uma fronteira: entre o urbano e o território originário, entre o domínio da cidade e o mistério da mata, entre a busca do lucro e a cosmovisão ancestral. O interior paulista foi palco da chamada “pacificação” dos Kaingang, iniciada em 1912 como parte da ofensiva estatal para garantir a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Sob esse eufemismo, escondem-se estratégias brutais de contenção, remoções forçadas e apagamentos culturais. A exposição constrói uma narrativa autoral sobre esse passado: o genocídio dos povos indígenas do Centro-Oeste paulista. Aproximadamente oito grupos Kaingang ocupavam a região, mas em 1916 foram deslocados para Icatu, Braúna e para a Aldeia Vanuíre, em Arco-Íris — onde ainda resistem e desafiam o esquecimento.

Irineu é também pesquisador artista convidado do projeto internacional Decay Without Mourning: Future-Thinking Heritage Practices, sediado no MAC-USP, no qual desenvolve investigações sobre memória e agência da cerâmica terena. A mostra itinerante Boca do Sertão, realizada com recursos do ProAC, percorreu as cidades de Bauru, Araraquara e Birigui, encerrando seu percurso no MAC. Ao receber essa exposição, o museu “assume a responsabilidade de ser um espaço onde a presença indígena se inscreve por meio da autorrepresentação, da agência e do protagonismo” afirma Fernanda Pitta.

+ Mais

desenho feito a mão e pintura retratando o que parece um solo degradado

Arte indígena, Amazônia e resistência são destaques em exposição no Marp

Trançados indígenas são uma forma de transmissão de conhecimento na região amazônica

Serviço:

Boca do Sertão: Irineu Nje’a Terena
Curadoria: Irineu Nje’a Terena
Acompanhamento curatorial: Fernanda Pitta (MAC-USP)

Abertura: 28 de março de 2026, 11 horas
Período: 28 de março a 28 de junho de 2026
MAC-USP – Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera  (11 2648-0254)

Terça a domingo, das 10 às 21 horas, com entrada gratuita

Texto: Assessoria de Imprensa do MAC-USP


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.