A segunda visita a João Gilberto

Por Selma Boragian, orientadora de técnica vocal do Coralusp

 Publicado: 24/03/2026 às 19:19
Selma Boragian – Foto: Arquivo pessoal

 

Os encontros com João Gilberto foram uma aula de música, de humildade, de respeito pelos autores antigos. Em seu apartamento no oitavo andar, no Leblon, a mesa de centro da sala era um enorme baú. Ele disse: “Escrevo as harmonias, estudo. Tenho esse baú todo cheio de partituras”. Abriu o baú: letras e letras de música escritas em azul, com cifras escritas em vermelho. Estavam organizadas, as cifras claras, destacadas; os símbolos dos acordes tão falados de João Gilberto, tão discutidos, imitados. Ele disse que não precisava ler nada para tocar algo que conhecesse; podia acompanhar qualquer música, em qualquer tom. Mas as escolhas dos acordes, muito testadas por ele, eram escritas, pois podia esquecer e tocar cada vez de um jeito diferente.

João Gilberto buscava a harmonia ideal; o canto ideal, a expressão, a respiração, as divisões ideais.

Dizia que as pessoas que falavam tanto do que ele fazia não procuravam fazer o que ele fazia. Usavam portamento, ele evitava: “No jazz tudo bem, mas no samba…”. Como quem diz: “Me admiram, mas não me imitam”.

“Cante uma música, Selminha, pode ser qualquer uma, você escolhe, eu te acompanho.”

Meu Deus, é isso mesmo? Nenhuma música me veio à cabeça. Ele perguntou: “Conhece o Largo da Lapa? A Gracinha (Gal) cantava isso tão bem…”. Eu conhecia, mas não sabia a letra. Ele cantou e tocou um trecho. Miúcha, que estava junto nesse dia, disse: “Então vamos cantar essa de novo.”

Ele tinha acabado de cantar Eu sambo mesmo, de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, que gravou no disco João. Comecei a cantar junto, e no refrão “é… só no samba que eu sinto prazer”, ele começou a abrir vozes. Mas eu estava tão emocionada que minha voz vibrava. Quando acabou, ele disse algo como “deixei de usar o vibrato porque ele não ajuda na clareza da melodia. A emissão limpa e lisa é melhor para o entendimento da música e da letra”. Quase falei: “Eu não quis fazer vibrato nenhum, saiu assim porque estou comovida…”. Mas não falei. Por dentro eu gritava: “Abri vozes com João Gilberto!”

Em nenhum momento ele dizia: eu quis romper com isso ou aquilo, procurei um jeito moderno de cantar ou quis cantar diferente do Orlando Silva, ou não gosto do que eles faziam. O foco era sempre a reverência à música popular, o respeito às palavras, a clareza da melodia, a expressão sem exageros, sem sobras, a beleza das escolhas.

Isso tudo foi no segundo encontro em seu apartamento, depois de um belo jantar (depositado pelo entregador no elevador de serviço) de um dos seus restaurantes preferidos. Couve, carne de porco e tutu. Interfonou para o porteiro colocar por favor um limão no elevador porque estava fazendo falta.

A lembrança maior da aparência de sua cozinha é da quantidade enorme de garrafas de água mineral sobre uma bancada; dezenas delas, e também de refrigerantes de sabor laranja.

A hospitalidade e o carinho de João foram surpreendentes e uma grande lição para mim: o quanto não devemos acreditar em boatos ou fofocas. Pediu palmitos frescos na brasa, um luxo inesquecível para mim, pois lembrou que sou vegetariana.

Sofri com os lagostins na primeira visita, que acabei comendo para não chatear o anfitrião, até que confessei ser vegetariana quando colocaram o segundo bicho em meu prato.

Lembro também de sua paixão por chocolate, por gatos, e pelos grupos vocais. Contou que participou dos Anjos do Inferno por pouco tempo, mas que ninguém falava sobre isso… falavam sempre só dos Garotos da Lua. E ficava chateado quando lia que o expulsaram do grupo: ele saiu porque quis. Falou de sua admiração por Jonas, líder dos Garotos da Lua, e de seu talento como compositor, então cantou Rosinha e Eu e meu coração.

Foram muitas horas de conversa nos três encontros, entre 2004 e 2005. Sempre eu, Fernando Faro e a querida Edinha Diniz, que hoje mora na Bahia.

Me esforço sempre para lembrar seus ensinamentos e tudo que falou; cantava bastante também. Dizia que às vezes assistia às missas às 6h da manhã na televisão, antes de dormir, e fazia exercícios de respiração, yoga, pranaymas… Dizia se sentir cada vez mais espiritualizado.

Saltava dos assuntos musicais para outros, os mais diversos: política, a vida nos Estados Unidos, a diferença entre Rio e São Paulo, os amigos, decepções, seus shows no Japão, pessoas queridas, pessoas não tão queridas. Mas o tom geralmente era amigável e amoroso; não se prendia muito tempo em falar mal de alguém ou se queixar de algo.

Um homem (quase) normal, inteligente e sensível acima da média. Destacou os músicos Luiz Bonfá, Tom Jobim, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Marino Pinto, Gal Costa, Vinicius de Moraes, Rita Lee, Herivelto Martins. Disse que o Mário Reis não tinha sido grande influência para ele como alguns diziam. Disse que não gostava de cantar músicas com as palavras “morte” ou “morrer”; as exceções eram Sinfonia do Rio de Janeiro e Guacyra (“e se ela não quiser eu vou morrer cheio de fé”); gostava muito da música Morrer de Amor, mas nunca gravaria uma música com esse nome.

Falava com paixão sobre as palavras. O geminiano João, antes da visita, ligou para o Faro e este falou: “Hoje é aniversário da Selma, fale com ela” e passou o telefone para mim. João, meio sem graça, me deu os parabéns e disse: “Geminiana como eu!”. Eu disse: “Não, eu sou canceriana…”.

Senti raiva de ser canceriana; bem que eu podia ser geminiana como ele estava comemorando.

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