“6ª Conferência das Cidades” reativa participação social na formulação da política urbana do País

Evento reuniu cerca de 3 mil pessoas em Brasília na semana passada; adaptação das cidades brasileiras ao clima foi um dos principais temas em discussão

 Publicado: 03/03/2026 às 17:50
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Foto mostra mesa de conferência com quatro pessoas, três sentadas e uma em pé falando ao microfone. Ao fundo, grande tela digital colorida exibe ilustrações urbanas e rurais. Banners e bandeiras de sindicatos e movimentos sociais brasileiros, como CUT Brasil e SINTEGO, decoram o palco, indicando evento voltado a direitos dos trabalhadores e organização comunitária. A cena transmite diversidade de representações e caráter coletivo de debate político‑social.
Conferência teve grande protagonismo de organizações de movimentos sociais e entidades sindicais – Foto: JD Vasconcelo/Aescom MCID

 

Ao longo de quatro dias, cerca de 3 mil pessoas estiveram em Brasília para participar dos debates que deverão orientar a política urbana das cidades brasileiras nos próximos anos. Os debates fizeram parte da programação da 6ª Conferência Nacional das Cidades, que aconteceu entre os dias 24 e 27 de fevereiro. Segundo participantes consultados pela reportagem, a principal contribuição da conferência foi oferecer aportes relevantes à atualização das políticas públicas típicas dos territórios urbanos. Temas como clima e mobilidade estiveram no centro das discussões. Os delegados também elegeram as entidades que vão compor o Conselho Nacional das Cidades (Concidades) pelos próximos anos.

A plenária final da conferência, realizada na sexta-feira (27), aprovou o texto que deverá subsidiar o trabalho do Ministério das Cidades na redação dos projetos da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano e do Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano. A cerimônia de encerramento contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cumprimentou os movimentos populares presentes por sua produção de unidades de habitação de interesse social.

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“As casas têm que ser feitas de acordo com as necessidades da pessoa. Então, se a gente não der conta de olhar com sensibilidade o direito à acessibilidade, a gente não faz as coisas corretas, e custa barato fazer as coisas corretas. E aí, eu quero dar um parabéns para o Minha Casa Minha Vida Entidades, porque as entidades conseguiram fazer casa maior do que as outras casas e com mais qualidade que as outras casas”, disse o presidente.

Ao todo, foram votadas em plenária cerca de 240 propostas, que aprofundaram o texto-base elaborado pelo Concidades para orientar as discussões. “Eu avalio muito positivamente o saldo, do ponto de vista do conteúdo das propostas aprovadas. O desafio agora, efetivamente, é elaborar uma proposta de estruturação do Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano, e eu considero que as diretrizes aprovadas nessa conferência constituem subsídios bastante consistentes nessa perspectiva”, disse Orlando Santos Júnior, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do Observatório das Metrópoles, centro de pesquisa que apoiou a sistematização dos conteúdos debatidos na conferência.

O clima como eixo central

Um dos temas mais mencionados em Brasília, tanto nas plenárias quanto por entrevistados do Jornal da USP, foi a adaptação das cidades brasileiras à mudança climática. A tragédia na Zona da Mata Mineira, onde enchentes e deslizamentos deixaram mais de 70 mortos em Juiz de Fora e Ubá, também foi reiteradamente mencionada por delegados da conferência e, inclusive, por autoridades do governo federal. Na opinião de Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP e vereador da cidade de São Paulo, a emergência climática deveria ter sido um eixo transversal destacado para orientar as discussões de todos os grupos de trabalho.

“Um dos problemas das cidades brasileiras é tratar de maneira setorial os problemas que são integrados. A gente vê, aqui mesmo nessa semana, o desastre que aconteceu em Minas Gerais. Enfrentar a questão climática é um desafio para a construção civil, é um desafio para a mobilidade, é um desafio para a questão dos resíduos sólidos, para o saneamento. Então, é um desafio integrado. Como minimizar ou mitigar as mudanças climáticas? Isso é uma questão que precisa ser enfrentada. E os efeitos dela, que é adaptar a cidade, também é uma questão integrada”, declarou o docente da USP, que fez parte da delegação paulista da conferência pelo segmento legislativo.

As propostas foram divididas em oito temas para discussão, que cobriram desde os objetivos e diretrizes do Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano até as transformações digitais das cidades, passando também por assuntos como habitação, regularização fundiária e mobilidade urbana. “Dois temas que vieram com bastante força foram o de mudanças climáticas e o de transformações digitais dos territórios. O grupo de trabalho de mudanças climáticas foi um GT longo, que teve muitas propostas, muitos delegados do Sul. Provavelmente, isso é decorrente das enchentes que aconteceram em 2024″, conta Marília Bello, pesquisadora do Observatório das Metrópoles e doutoranda da FAU.

Na foto, três pessoas estão em destaque segurando um certificado de reconhecimento. À esquerda, homem de terno cinza e gravata vermelha; ao centro, mulher com roupa vermelha, turbante e óculos; à direita, homem de terno escuro e gravata azul. O certificado homenageia Maria das Graças de Jesus Xavier por sua contribuição ao Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis. Ao fundo, tela azul com a palavra “CIDADE” parcialmente visível e outras pessoas presentes, reforçando o caráter oficial e celebratório do evento.
Lula e o ministro das Cidades, Jader Filho, entregaram certificado de participação a Maria das Graças Xavier, liderança da União Nacional por Moradia Popular (UNMP) – Foto: Ricardo Stuckert/PR

 

Outras propostas aprovadas destacadas pelos participantes incluem o Sistema Único de Mobilidade e a adoção de políticas para a adoção da tarifa zero no transporte coletivo, a urbanização integral de favelas, com intervenções integradas de habitação, saneamento e adaptação ao clima, e a cooperação interfederativa entre as diferentes esferas de governo, bem como entre cidades vizinhas. Para Santos Júnior, essas propostas enfrentam desafios históricos relacionados ao padrão de segregação socioterritorial das cidades brasileiras e à aplicação das políticas públicas, constituindo dois blocos de propostas.

“Eu diria que tem uma inovação difícil nessa conferência. Se o primeiro e o segundo tópico enfrentam os desafios históricos que a gente conhece, o último bloco enfrenta os novos desafios que atingem as cidades brasileiras: as mudanças climáticas, as transformações digitais e a questão da segurança pública e o controle dos territórios populares pelos grupos armados. São novos desafios que precisam ser enfrentados”, comenta o especialista.

Retomada das instâncias de participação

A sexta edição da conferência representou também a reativação dos espaços de participação social na política urbana, uma vez que a edição anterior ocorreu em 2013. Após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, o Concidades ficou inoperante durante o governo de Michel Temer e, posteriormente, foi extinto por decreto pelo governo de Jair Bolsonaro. O mesmo ocorreu com o Ministério das Cidades, que foi desmantelado em 2019 e teve parte de sua estrutura incorporada a outras pastas.

A recriação desses órgãos e a realização da Conferência das Cidades eram reivindicações dos movimentos sociais desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. O ciclo de conferências concluído com o evento em Brasília se iniciou em 2024, ainda na etapa de conferências municipais, e com um calendário que teve de ser alterado algumas vezes desde então. Segundo Nabil Bonduki, a retomada da Conferência Nacional das Cidades recuperou um modelo de formulação participativa de políticas públicas que foi desenvolvido no Brasil em nível federal a partir de 2003, no primeiro mandato de Lula.

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“A conferência é uma instância importante de participação social e também de pactuação daquilo que deveria ser a política de desenvolvimento urbano do País. O atual governo Lula tinha duas palavras que, de certa forma, caracterizavam o seu programa de governo: a reconstrução e a transformação. Esses três anos e pouco de governo foram mais de reconstrução de programas que tinham sido construídos antes de 2016 e que foram paralisados principalmente durante o governo Bolsonaro”, diz Bonduki, dando como exemplo o programa Minha Casa Minha Vida. Para o professor, a principal tarefa da conferência estava no campo da transformação: pensar o futuro das cidades, trazendo inovações.

Para Rud Rafael, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o intervalo de 13 anos entre a quinta e a sexta conferência represou muitos debates em relação à política urbana. Esta edição do evento permitiu uma ampliação do debate, mas velhos problemas seguem na ordem do dia, como as ameaças de despejo, o crescimento da especulação imobiliária e a criminalização dos movimentos sociais. Ele lembra, ainda, que para que o texto aprovado na conferência tenha efetividade, o governo terá de transformá-lo em um projeto de lei e aprová-lo no Congresso Nacional.

“Um dos dados mais significativos do último Censo é que cresceu 87% o número de domicílios vagos no Brasil. Tínhamos 6,07 milhões e cresceu para 11,4 milhões. A gente entende que as cidades brasileiras não sofrem com o problema da moradia, sofrem com o problema da função social da moradia, que está lá na Constituição, mas infelizmente não é implementada na realidade. Então, acho que enfrentar essa questão da especulação imobiliária, que hoje adquire outras roupagens com a história da plataformização da moradia, de Airbnb, do aluguel por temporada, é algo que tem sido uma preocupação de vários países e que o Brasil ainda não conseguiu criar uma forma de regular”, comenta o ativista.

A pesquisadora Marília Bello considera que o saldo da conferência foi positivo para a retomada de uma agenda urbana que considere novos e velhos problemas. “A gente só tende a ganhar com essa retomada do processo participativo. Sem dúvida, a gente vai encontrar dificuldades dentro desse processo, até por conta da conjuntura política, mas a retomada desse ciclo é muito importante para atualizar a política das cidades e que a gente consiga agora construir uma nova agenda com um novo ciclo de demandas, com o caderno de propostas atualizado e o novo conselho que foi eleito”, opina.

Foto mostra grupo de pessoas reunidas em torno de mesa com papéis, cadernos e dispositivos eletrônicos, engajadas em discussão colaborativa. Algumas estão sentadas, outras em pé participando ativamente. Ao fundo, público maior acompanha, em ambiente decorado com plantas e faixas coloridas, incluindo uma com a frase "povo pelo povo". A cena transmite engajamento comunitário, participação cidadã e construção coletiva de ideias.
Coordenação das plenárias recebeu pedidos de destaques ao texto durante os debates; ao todo, foram votadas cerca de 240 propostas – Foto: JD Vasconcelo/Aescom MCID

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