“O ataque dos Estados Unidos ao Irã, menos de dois meses depois do sequestro do presidente da Venezuela, também por forças norte-americanas, completa uma configuração nova da política internacional, iniciada com o ataque da Rússia à Ucrânia e fortalecida com a impiedosa política do governo Netanyahu na Faixa de Gaza”, analisa Renato Janine Ribeiro. De acordo com ele, valores como os da ética e do direito estão sendo colocados em xeque com essa ação conjunta dos EUA e de Israel contra o Irã. “Aparentemente, a força bruta voltou com tudo. O que prevalece nesse caso é o problema de não se perceberem as limitações da força. Há uma frase atribuída a Napoleão Bonaparte, segundo a qual muita coisa se pode fazer com fuzis, menos sentar-se em cima, um trono não se sustenta em baionetas. E a força bruta permite que você mate, que você controle, que faça sofrer, mas não constrói um poder duradouro.”
Ele observa ainda que mesmo uma ditadura depende de algum tipo de consentimento, pois não há ditadura que permaneça sem ter apoio de uma parte da população. “Isso é o que garante, por exemplo, a teocracia islâmica no Irã. Mesmo com a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, há fortes chances de que o regime dos aiatolás continue em vigor. Por quê? Porque não é apenas o fato de ele ter talvez um milhão, dois milhões de homens em armas para defender o regime. É o fato de que tudo isso está muito bem estruturado, muito bem articulado. Decapitar o poder não basta para mudar as coisas.”
Mais adiante, o colunista acrescenta que a força bruta “induz em erro grande quando as pessoas começam a pensar que não precisam da diplomacia, da negociação, em última palavra, da política. A política não tem como não existir nas relações humanas. Israel tem muita dificuldade de negociar com os países árabes, e em função disto mantém um estado de guerra muito grande. Deixo claro que a minha crítica não é ao Estado de Israel, mas ao governo atual e de alguns anteriores daquele país. O Estado de Israel tem sua existência, não vai terminar, não deve terminar, mas eu quero mostrar, sobretudo, que o problema que surge de estratégias altamente perigosas, como as de Putin, na Ucrânia, de Trump, na Venezuela e no Irã, podem representar um triunfo momentâneo, matando Khomeini, por exemplo, mas não constrói um futuro. Fica faltando toda aquela articulação que seria necessária para construir relações internacionais honestas e boas entre países igualmente soberanos, por um lado, e, por outro lado, são também incapazes de constituir a democracia no interior desses países – Irã, Venezuela e outros que possam ainda ser alvo dos ataques de Trump. Para fazer democracia, é preciso sair da força bruta e entrar na política, no direito, na ética”.
Ética e Política
A coluna Ética e Política, com o professor Renato Janine Ribeiro, vai ao ar quinzenalmente, quarta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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