Os impactos da alta taxa de juros no Brasil e o entrave para o crescimento econômico

Seja pelo efeito negativo sobre o investimento ou pelo impacto sobre o endividamento público, esse fenômeno é constantemente debatido

 26/01/2026 - Publicado há 4 meses
Fotomontagem mostrando uma calculadora sobreposta a um gráfico que exibe o comportamento dos juros
Existem questões mais complexas a serem resolvidas em relação à diminuição da taxa de juros – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Afinal, por que os juros são tão altos no Brasil? A persistência de juros altos tem sido debatida como um dos principais entraves ao crescimento econômico sustentado pelo País, seja pelo efeito negativo sobre o investimento, seja pelo impacto sobre o endividamento público. Ao lado da Turquia e da Rússia, o Brasil possui a maior taxa de juros do mundo. Diante disso, a nota de política econômica do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdade (Made) da USP revisita essa questão central da economia brasileira analisando dados de 15 países entre 1996 e 2019.

Guilherme Klein, pesquisador do Made da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP e autor da nota, contextualiza o problema. “A ideia do estudo é realizar essa comparação do Brasil com os outros 14 países que possuem características econômicas relativamente parecidas, e entender como alguns fatores influenciam os juros. A partir disso, tentar compreender por que essa taxa é tão alta no nosso país e quais os determinantes para isso.”

Guilherme Klein – Foto: madeusp

Resultados e projeções do estudo

“Existem três resultados principais que valem a pena ser tratados. O primeiro deles é a volatilidade da inflação, em que países com uma inflação muito variável tendem a ter juros maiores. O segundo fator é a volatilidade do câmbio, que segue o mesmo princípio do primeiro, e, por fim, o terceiro é a meta de inflação baixa, ou seja, a diminuição dessa diretriz força o Banco Central a aumentar muito os juros. Todos esses elementos explicam muito bem o que ocorre no Brasil, mas também existem especificidades do País, que precisam ser estudadas mais a fundo para desenvolvermos um diagnóstico mais robusto”, afirma o pesquisador.

O estudo, além de explicar as principais causas desse fenômeno, também realiza projeções futuras que o Brasil deveria adotar para solucionar o problema. Uma delas é o aumento da poupança doméstica, que significa um corte de gastos do governo, cerca de dois pontos porcentuais do PIB, que geraria uma queda de juros reais de 0,5%. “Essa é uma queda relativamente pequena, considerando o esforço envolvido. Então, por outro lado, simulamos um conjunto de medidas que envolvem um aumento da meta de inflação, de 3% para 5%, e a redução da volatilidade do câmbio, para níveis como o do Chile, uma realidade relativamente próxima a nossa, e isso geraria uma queda de 2%, bem mais significante.”

Volatilidade do câmbio

Klein também explica que existem questões mais complexas a serem resolvidas em relação à diminuição da taxa de juros, como o caso da volatilidade do câmbio, que envolve diversos fatores externos ao País. “No cenário brasileiro da taxa de câmbio existem duas características principais que explicam a volatilidade, que seriam a dependência das commodities, afetadas pela flutuação de preços internacionais e que, para resolver isso, seriam necessários uma diversificação da nossa economia e o desenvolvimento do nosso sistema financeiro em relação ao câmbio. Ou seja, como temos juros reais muito altos, investidores pegam capital em lugares onde o juros é baixo, Japão por exemplo, e mandam esse dinheiro para o Brasil, e qualquer variação desse juros vai afetar a volatilidade também.”

Conclusões

“A ideia da nota é trazer uma complexificação dessa realidade, pois existem muitos diagnósticos simplistas que focam apenas o corte de gastos do governo como solução. O propósito é trazer o que talvez não seja o cenário mais animador, mas é no sentido de existirem várias razões para os juros brasileiros serem tão altos, e várias formas de combater isso. É possível, sim, que o Brasil reduza os juros reais, dando enfoque para essa multiplicidade de fatores, porque é uma questão bem complexa que não vai ter soluções simples”, finaliza o pesquisador.


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