China assume a liderança de 90% das pesquisas em tecnologias cruciais

Marislei Nishijima explica como o país assumiu o protagonismo no campo científico e porque o Brasil fica para trás

 12/02/2026 - Publicado há 3 meses
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Estudo publicado pela revista Nature apontou que a China assumiu a liderança de 90% das 74 áreas da tecnologia consideradas cruciais para os interesses nacionais de um país, ameaçando a hegemonia americana no campo científico. Marislei Nishijima, professora do Instituto de Relações Internacionais da USP, explica o que são as chamadas “tecnologias cruciais”.

Marislei Nishijima – Foto: Lattes

“Dentro dessas tecnologias cruciais, nós temos a IA e o Machine Learning, que também utilizam tecnologias de dados, plataformas digitais, computação em nuvem, infraestrutura digital, cibersegurança e criptografia, que incluem a Blockchain e outras finanças digitais. Há também a biotecnologia e tecnologia da saúde, como, por exemplo, a técnica CRISPR. Tecnologias verdes, como a energia solar, hidrogênio verde e captura de carbono também são consideradas tecnologias cruciais. Dentro desse conjunto maior, existem as tecnologias estratégicas e geopolíticas, que incluem os semicondutores, computação quântica, tecnologia espacial, sistemas autônomos de defesa e outras.”

“Não se trata de uma divisão predeterminada, mas existe uma intersecção entre elas, como, por exemplo, as tecnologias de materiais, que são desenvolvimento de materiais importantes para áreas diversas. Esse desenvolvimento tecnológico é importante para os países, porque você tem todo o progresso tecnológico que está sendo desenvolvido que é importante para o crescimento econômico de longo prazo.”

Como a China assumiu a liderança?

Marislei conta como foi o caminho da China até o protagonismo do campo científico. “Está associado com a própria história do desenvolvimento da China nas últimas décadas. Ela entrou num processo de copiar e aprender, copiando com os Estados Unidos e os outros países que têm tecnologias, desenvolver internamente isso e contaram com o mercado interno gigante deles, com 1,4 bilhão de pessoas. A estratégia utilizada era fazer negócios oferecendo a China como um campo de trabalho, com oferta de mão de obra barata, mas condicionado à aprendizagem dessas tecnologias no país. Houve o cuidado de contratar empresas para desenvolver essas tecnologias lá e colocar estudantes para aprendê-las.”

“Combinado a isso, houve uma política muito agressiva de mandar estudantes chineses para estudar fora. Um exemplo é o caso das engenharias que, para desenvolver a própria engenharia, enviavam alunos chineses para as melhores universidades dos Estados Unidos. Quando eles voltavam, faziam testes e comparavam com os alunos que ficaram fazendo engenharia na China para corrigir a diferença tecnológica. A China teve como projeto ser a maior nação do mundo e virar um país que é desenvolvedor de tecnologias,” explica Marislei.

O Brasil no cenário científico

A professora explica que a razão de o Brasil não estar entre os primeiros nesse tipo de pesquisa começa desde cedo. “O Brasil é um país pequeno do ponto de vista de desenvolvimento tecnológico, visto que nós nunca tivemos uma política de orientação forte de melhora da qualidade da educação. Até o momento, o que nós conseguimos fazer foi incluir mais crianças na educação, então a gente fez um movimento de inclusão, mas a qualidade da educação ainda é muito precária no Brasil. É necessário ter um movimento de melhoria da educação dessas pessoas para poder gerar e formar cientistas, isso tem que vir da educação básica. O Brasil patina com isso,” finaliza a professora.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo


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