G20 se compromete a combater a tríplice monotonia do sistema agroalimentar global

Ricardo Abramovay comenta os principais pontos definidos no documento final que envolvem a segurança alimentar, dentre os quais a recomendação para a redução do uso de antibióticos

 20/01/2026 - Publicado há 6 meses
Fotomontagem que mostra animais da agropecuária nacional, como suínos ao centro, tendo à esquerda bovinos e à direita galináceos
Criações de animais concentracionais, sobretudo de aves e de suínos, são altamente dependentes de antibióticos – Montagem com fotos de: Freepik, Cecília Bastos/USP Imagens e Marcos Santos/USP Imagens
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A reunião do G20 na África do Sul incluiu em seu documento final a ideia de que a segurança alimentar contemporânea está ameaçada pela tríplice monotonia do sistema agroalimentar, cenário que tem como característica a concentração da produção, consumo e cultura alimentar em poucas opções de insumos. Dos cerca de 7 mil produtos comestíveis do mundo, apenas 400 são cultiváveis, mas, ainda assim, 75% das calorias que consumimos vêm de apenas seis produtos: trigo, milho, arroz, batata, soja e cana-de-açúcar, O professor Ricardo Abramovay, do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, tem mais a dizer sobre o documento resultante da reunião do G20.

“O G20 funciona por forças-tarefas. Nós apresentamos o nosso documento junto da Cátedra Josué de Castro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, o Instituto Comida do Amanhã, o Nupens,  que é também da Faculdade de Saúde Pública. Nosso documento é assinado pela Embrapa, pelo CIRAD, que é uma organização francesa de pesquisa na área, e pelo Instituto Federal Catarinense. Para você apresentar um documento no G20, você precisa reunir um conjunto de organizações do seu país, mas também com vínculo internacional. Nós mandamos esse documento para um grupo, essa força-tarefa se chama Solidariedade e Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que é, digamos assim, o coração da pauta do multilateralismo global.”

Ricardo Abramovay – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

As novidades estabelecidas pelo G20

Abramovay comenta os principais pontos definidos no documento final que envolvem a segurança alimentar. “O primeiro é uma recomendação explícita para que seja reduzido o uso de antibióticos nas criações animais contemporâneas. As criações de animais concentracionais, sobretudo de aves e de suínos, são altamente dependentes de antibióticos, e esse é um dos vetores importantes de um problema seríssimo contemplado pela Organização Mundial da Saúde, que é a resistência aos antibióticos com as superbactérias.”

“O segundo ponto importante é que o documento do coordenador da força-tarefa Solidariedade e Objetivos do Desenvolvimento Sustentável menciona a tríplice monotonia do sistema agroalimentar, explicando os riscos da concentração excessiva da oferta agroalimentar contemporânea em poucos produtos e poucas regiões, este é um imenso risco para a segurança alimentar global, porque essas regiões são atingidas por eventos climáticos extremos e, como essas regiões concentram muita produção, nelas se concentra também o uso de produtos químicos, fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, que é profundamente prejudicial para a saúde humana e para os serviços ecossistêmicos.”, comenta.

Como colocar em prática?

O professor explica as dificuldades para colocar as mudanças em prática. “Essas tecnologias estão avançando muito e o Brasil é vanguarda nesse avanço. Só que, ao mesmo tempo, as grandes empresas agroquímicas continuam lançando no mercado produtos, ou seja, sementes, cujo uso exige o emprego em larga escala de produtos químicos que são altamente prejudiciais à saúde humana e aos serviços ecossistêmicos. Nós temos um problema sério com os químicos que fazem parte da nossa alimentação. A começar pelos agrotóxicos, mas também pelos produtos químicos que compõem as embalagens, os processos de fabricação dos ultraprocessados, etc.”

“A solução para isso é um cronograma de eliminação, um processo de abandono de tecnologias que foram importantes no passado, mas que estão superadas e que têm que ser abandonadas em benefício daquilo que a ciência está apontando como o mais saudável e sustentável do ponto de vista dos serviços ecossistêmicos.”, finaliza o professor.


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