O peixe roqueiro: nova espécie descoberta na Argentina vive em poças de água doce

Acervo do Museu de Zoologia da USP foi importantíssimo para a caracterização desse curioso peixe pelos pesquisadores

 30/01/2026 - Publicado há 3 meses
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Imagem de uma nova espécie de peixe, conhecido como Titanolebias calvino, num aquário. É um peixe de porte pequeno, de cor entre cinza e marrom
A descoberta do Titanolebias calvinoi afirma a capacidade de adaptação e resiliência dos animais sul-americanos – Foto: ScienceDirect/Elsevier BV
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O recém batizado Titanolebias calvinoi, uma nova espécie de peixe-rei, foi recentemente identificado por cientistas argentinos e uruguaios em uma área sazonalmente úmida da bacia do rio Negro, no Parque Nacional do Chaco, no nordeste da Argentina. O peixe anual, chamado dessa forma por viver em poças de água que secam periodicamente, tem que se adaptar e evoluir rapidamente, crescendo em ritmo acelerado e atingindo sua forma adulta em poucas semanas. Também é apelidado de roqueiro por se debater quando a água se esgota. O acervo do Museu de Zoologia da USP foi fundamental para o resultado da descoberta, porque possibilitou aos pesquisadores a confirmação das características únicas do Titanolebias calvinoi.

Principais características

Murilo Nogueira de Lima Pastana – Foto: MZUSP

Murilo Nogueira de Lima, professor e curador da coleção de peixes do Museu de Zoologia, comenta as características desse animal. “Eu acho que o fator mais curioso dessa família de peixes, os rivulídeos, é o seu ciclo de vida bastante notável. Seu crescimento e maturação são muito rápidos, para conseguirem sobreviver e habitar esses ambientes de poças de água intermitentes que estão ligados ao regime de chuvas da região. Assim, durante a época de cheia, os ovos eclodem, na seca os machos e fêmeas reproduzem e a fêmea, antes de morrer, deposita esses na terra, ainda com água. Os ovos conseguem resistir à dessecação, mantendo o embrião seguro até que se inicie um novo regime de chuvas naquele local.”

A descoberta do Titanolebias calvinoi afirma a capacidade de adaptação e resiliência dos animais sul-americanos, que conseguem sobreviver e procriar em condições extremamente adversas. “Essa espécie, em específico, se diferencia das outras por conta do seu colorido único, não encontrado nem em outros familiares. Além disso, também foi descoberto em uma região mais remota, afastada das outras espécies”, acrescenta o professor.

Lima também ressalta a sensibilidade desses peixes em relação a mudanças no ambiente. “Ele é muito sensível às mudanças climáticas e no ambiente, já que necessitam dessas poças d’águas que estão adjacentes às bacias dos rios e desse regime muito específico de chuvas e secas para conseguirem se reproduzir. Por conta disso, esses animais são muito suscetíveis a qualquer tipo de mudança desses locais, como a canalização de rios, que altera os cursos de água e pode acabar com seus hábitats. Também existe muita procura por esses animais, devido a sua coloração única, o que pode levar ao tráfico destes para pessoas que têm o aquarismo como um hobby.”

A importância do acervo

O Museu de Zoologia da USP tem a maior coleção da América Latina e um dos mais importantes acervos de peixes neotropicais do mundo, com mais de 1,5 milhão de espécimes, com foco na fauna de água doce brasileira. Nesse sentido, o professor explica sua importância para o descobrimento dessa e de novas espécies. “O museu auxilia de forma indireta. Nosso acervo serve como material comparativo, onde existem os indivíduos ao qual o nome de uma espécie fica amarrado. Ou seja, aquele é o indivíduo que representa a espécie, e toda outra espécie descrita para aquele gênero vai ter que ser diferente daquele indivíduo para que ela possa receber um novo nome, como foi o caso do Titanolebias.”

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*Sob supervisão de Paulo Capuzzo


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