Por Davi Caldas*

Após o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 com Ainda Estou Aqui, o próximo longa a representar o Brasil poderá ser O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. A lista dos indicados ao prêmio máximo do cinema será divulgada nesta quinta-feira (22), mas O Agente Secreto tem a seu favor o fato de já ter conquistado recentemente dois Globos de Ouro, nas categorias de melhor filme em língua não inglesa e de melhor ator em drama para Wagner Moura. Mas ainda que essas premiações sejam relevantes, filmes são discursos artísticos que representam obras de arte, como relata Rogério de Almeida, professor da Faculdade de Educação (FE) da Universidade de São Paulo. “É sempre muito curioso imaginar que um filme possa disputar com outro. Assim como poemas, é difícil dizer qual é o melhor, este do Carlos Drummond de Andrade ou aquele do Manuel Bandeira”, comenta.
Na visão do especialista, os filmes possuem uma diversidade artística e estética mais importante do que a competição presente nesses festivais, motivada por interesses comerciais e explorada pelo mercado do entretenimento. “Funcionam mais como uma vitrine de exposição dos filmes do que propriamente um juízo de quais seriam as melhores produções. Por isso que grandes filmes da história do cinema, muitas vezes, não são premiados em festivais. Enquanto outros, até vencedores, depois são completamente esquecidos.”
Contudo, não é impossível o estabelecimento de alguns critérios para qualificação das obras cinematográficas, de acordo com Almeida. Do ponto de vista artístico, a inovação da linguagem pode ser avaliada; do ponto de vista político, a análise dos temas tratados; do ponto de vista comercial, o apelo internacional e o poder de atração de um público maior.
Prêmio principal
O Oscar é o espetáculo mais conhecido de todos, mas talvez o menos relevante, na opinião do professor, do ponto de vista da contribuição estética ou da discussão do cinema, já que a sua relevância parte principalmente de um caráter comercial. Almeida afirma que a indústria de Hollywood é colocada no centro do processo avaliativo, enquanto o restante do mundo, com filmes de alta qualidade, disputa por uma vaga entre os indicados para melhor filme, ou somente para melhor filme internacional. Em 96 edições, apenas 16 filmes de língua não inglesa foram indicados na categoria principal, e só Parasita (Coréia do Sul) levou o prêmio, em 2020.
O especialista encara a própria existência da categoria internacional como “curiosa”, já que vende ao mundo uma ideia de que os filmes norte-americanos são os melhores do mundo, enquanto o restante precisa disputar um outro troféu. Ainda assim, o processo de seleção ao melhor filme internacional, feito por cada país, atrai bilheteria e interesse nos filmes nacionais. Um exemplo é o último vencedor da categoria, Ainda Estou Aqui, produção brasileira de Walter Salles.

“O Oscar tem um poder de penetração muito grande. Quando a Argentina ganhou um Oscar, isso deu uma visibilidade maior ao cinema argentino e estimulou a produção local”, complementa. Representantes de outros países em 2025, filmes como Dahomey (Senegal) e Grand Tour (Portugal) também ganharam destaque, apesar de não terem sido escolhidos entre os indicados.
Outro aspecto positivo é o impacto político que o Oscar gera: “Os filmes selecionados revelam um certo posicionamento do cinema e a contribuição social para tratar de alguns temas. ‘Ainda Estou Aqui’ aborda justamente o período da ditadura e, de alguma forma, como estamos em um momento particular do País, com a democracia em risco, ganha uma relevância muito maior voltar à história e pontuar politicamente como nós nos colocamos a favor da democracia”. No contexto global, Almeida lembra que diversas democracias são ameaçadas em várias partes do mundo, o que contribui para o valor do tema e a sua relação com a memória.
Cinema e literatura
Segundo Almeida, a relevância do filme brasileiro gerada pelo Oscar possibilita um maior investimento e produção na indústria nacional. “Ganhar o Oscar tem uma dimensão simbólica. Significa que o cinema brasileiro está entre os melhores do mundo. Simbolicamente, é isso que representa”, afirma.
No caso de Ainda Estou Aqui, a obra foi adaptada de um livro do Marcelo Rubens Paiva e ganha uma dimensão muito forte, de acordo com o professor, porque se trata de um caso real e de um escritor respeitado nacionalmente. “Há uma dimensão memorialística e histórica. É aí que a narrativa que o Walter Salles traz às telas ganha uma força maior.”

Esse tipo de adaptação não foi inédito na cinegrafia de Walter Salles, que já dirigiu On the Road (livro de Jack Kerouac), por exemplo, e nem foi algo único na história do cinema. Almeida explica que há uma relação muito estreita entre cinema e literatura: “Quando os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo, a perspectiva era que só serviria para fazer registros de imagens reais, mas sem um grande futuro. O cinema se torna a ‘sétima arte’ quando se propõe a contar histórias. E a grande matriz de narrativas que nós temos, desde a Grécia Antiga, é a literatura. Por isso, o cinema vai fazer adaptações de obras literárias desde o início”.
Com percepções de Maurice Merleau-Ponty e André Bazin, o especialista interpreta as adaptações como uma linguagem artística diferente, mas de mesma relevância, para uma determinada narrativa. O cinema, apesar de não adentrar diretamente nos pensamentos e descrições internas dos personagens, consegue trabalhar por meio da percepção visual e sensorial. “A ideia é que as obras tenham uma certa independência, são modos distintos de abordar uma mesma história. Os grandes clássicos da literatura passaram por essas experiências. Surgiam discussões sobre a fidelidade dos filmes, mas a questão de ‘inspirado’ ou ‘baseado’ no livro deixa de colocar o cinema como inferior ou dependente da primeira obra”, conclui.
Outros festivais
Além do Oscar e do Globo de Ouro, existem vários outros festivais, divididos entre duas dimensões principais, como aponta Almeida. A primeira é mais consolidada e clássica, representada pelos festivais de Cannes, Berlim e Veneza: “Eles pontuam, a partir de uma centralidade europeia, um outro conjunto de filmes que teria uma expressão mais estética, embora também de ordem política”. De acordo com o professor, eles lançam uma outra perspectiva às produções cinematográficas, que prioriza a forma artística de “fazer cinema” e busca inovações de linguagem, técnica e estilo.

Apesar do prestígio, muitos filmes premiados nesses festivais acabam de fora do Oscar, já que não existe uma relação direta. “Mas é claro que há sempre uma rivalidade. As pessoas que acompanham o mundo cinematográfico têm expectativas diferentes. O Cannes tem uma respeitabilidade maior, por parte dos críticos, do que o Oscar, que tem um caráter mais global, e atinge um público que vê cinema mais esporadicamente”, complementa. Na visão de Almeida, o evento que mais se aproxima ao Oscar é o Globo de Ouro, já que também é norte-americano e, mesmo com características diferentes, antecipa um pouco as premiações da Academia.
Já a segunda dimensão é focada nos festivais pequenos e alternativos, como o Sundance e outros que priorizam o cinema independente, indie ou até queer. “São festivais que vão direcionar para temáticas específicas ou para formas de produção, inclusive fazendo com que o prêmio possibilite financiamentos, seja para continuidade de um filme ou transformação de curtas em longas.”
Há também mostras que não são de competição, a fim de situar politicamente um conjunto de filmes que vão contribuir para uma determinada causa. Um exemplo é a Mostra Internacional do Cinema Negro: “Todos os anos, entre novembro e dezembro, expõe gratuitamente um conjunto de filmes que tratam do cinema negro, não só de atores e atrizes, mas também de produtores e diretores que trabalham com o cinema de minorias”.
Para Almeida, esses festivais e mostras ajudam a criar novas pautas de discussão temática. No aspecto artístico, com obras que causam uma fruição estética, e na dimensão política, com filmes que propiciam debates, discussões e, portanto, a construção e reconstrução de imaginários sobre determinados temas.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.


























