
O hidrogênio pode ser considerado uma fonte energética limpa, ou seja, dependendo da sua utilização ele não emite gases do efeito estufa, nem prejudica o meio ambiente. Porém, segundo um artigo da revista Nature, o hidrogênio é considerado um gás de efeito estufa indireto. O professor Reinaldo Bazito, do Departamento de Química Fundamental do Instituto de Química da USP, afirma que existem três tipos de hidrogênio e a forma como eles impactam a atmosfera é diferente.

“O hidrogênio cinza é um nome que se deu para o hidrogênio obtido a partir de reforma catalítica de gás natural. Para obtê-lo, se reage gás natural e água, o que forma vapor de água, hidrogênio e gás carbônico. Esse gás carbônico é emitido para a atmosfera. Então ele é um hidrogênio, que, pode-se dizer, sujo, por produzir gases de efeito estufa. O hidrogênio azul usa o mesmo processo, mas você faz a captura do gás carbônico que é emitido. É utilizado um processo, uma substância, membranas ou sólidos que possam absorver esse gás carbônico e depois liberar em uma atmosfera controlada para que esse gás carbônico possa ser armazenado ou utilizado. Ele é chamado de azul porque ainda assim ele vem de um combustível fóssil, o metano. O hidrogênio verde é aquele obtido pela eletrólise da água com fontes de energia limpas, também chamadas de verdes. Por exemplo, energia elétrica vinda de hidrelétrica, eólica e solar. Ele não emite gás carbônico no processo de produção”, comenta.
A utilização desse gás para o fornecimento de energia é diverso. “Ele pode ser usado, por exemplo, para carros movidos a hidrogênio, que usam uma fonte chamada célula de combustível. Ele não queima o hidrogênio, ele converte o hidrogênio em água através de um processo eletroquímico. Além disso, o hidrogênio é uma maneira de armazenar energia elétrica excedente, obtida, por exemplo, da energia solar, que, para seu uso constante, necessita ser guardada. Ao invés de usar uma bateria, você converte o gás em um produto químico que pode ser armazenado. O Instituto de Química desenvolveu um projeto de conversão do gás carbônico e hidrogênio obtidos de maneira limpa. O gás carbônico vem de processos de fermentação e o hidrogênio vem de eletrólise da água. Assim, a reação entre eles gera metanol, um combustível líquido, o que o torna mais fácil de armazenar. O metanol está sendo pensado, inclusive, como combustível alternativo para navios, para substituir o óleo combustível.”
Um gás de efeito estufa indireto
Bazito explica como a utilização desse combustível pode ou não agravar o efeito estufa. “Ele nunca foi contado em balanços de energia da atmosfera, porque se achava que ele, sozinho, não absorvia radiação infravermelha – no caso, efeito estufa. Por outro lado, de forma indireta, ele reage com outras espécies da atmosfera que provoca um acentuamento do efeito estufa. O artigo diz que a principal fonte de hidrogênio na atmosfera não é o vazamento de processos. Um abastecimento pode vazar um pouco, chamado vazamento de processo. Isso coloca um pouco de hidrogênio na atmosfera.”
Os efeitos que o hidrogênio causa na atmosfera são resultado da interação com outros compostos químicos. “O gás hidrogênio preserva a vida do metano, um gás extremamente agressivo do efeito estufa. Porém, na atmosfera, o metano sofre um processo de degradação. Nesse processo de oxidação ele forma formaldeído. E o formaldeído é foto-oxidado a hidrogênio. E aí é um processo que se retroalimenta. O metano coloca mais hidrogênio na atmosfera, que preserva a vida do metano, e assim sucessivamente.”
O professor finaliza comentando que existem outras formas de introdução do hidrogênio na atmosfera. “A plantação extensiva de plantas como a soja, que hoje a Embrapa faz a combinação com leguminosas na raiz para fazer a fixação do nitrogênio, elas também são importantes fonte de hidrogênio para a atmosfera. O artigo coloca isso também. Ele coloca que são fontes comparáveis à própria emissão de hidrogênio por processos industriais.”
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
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