Dois episódios recentes, asquerosos, repugnantes e aparentemente sem conexão, nos alertam para a mesma ameaça. O galã marombado e vigarista que assassinou, em BH, o gari Laudemir de Souza Fernandes, ( e depois entrou no carro de policia na boa, sem algemas) e a denúncia viralizada pelo youtuber Felca do oceano de pedófilos nas redes sociais, e da facilidade algorítmica de se conectar a qualquer destas redes são uma e a mesma coisa. Não vamos nos deter na necessidade imperiosa , e urgente, de regulamentar e até mesmo proibir aquelas big techs que zombam e desprezam a legislação.
Nem vamos repetir que o abuso sexual infantil acontece na grande maioria das vezes dentro de casa, e o criminoso é um parente próximo. Ou que os próprios pais e mães alugam , quando não vendem, seus próprios filhos para pervertidos. Ou, ainda, que tornou-se temerário para cada um de nós postar fotos inocentes da garotada brincando na piscina ou à beira do rio. Há países que proibem que um estranho fotografe crianças, a não ser com a anuência explicita dos responsáveis. O ponto nevrálgico é a permissividade, ou condescendência , com o uso compulsivo de celulares por crianças e adolescentes. Deixar um garoto colado ao celular ou computador 8, 10 horas por dia, é como largá-lo sozinho numa quebrada de drogados. Caiu a ficha, graças ao youtuber, melhor, ao cidadão Felca: os predadores virtuais são tão ou mais nefandos que o pedófilo em carne e osso. E o uso das redes sociais é um problema de saúde pública.
Mas , para além do horror do abuso sexual infantil, o vídeo de Felca mostra, bem no início, outro crime pavoroso. Crianças de 9, 10 macaqueando o discurso do empreendedorismo, convencidos de que sucesso na vida é exclusivamente fazer dinheiro, e a escola só atrapalha. “Se entra um ladrão em minha casa e eu gritar Aristóteles, ele não vai embora”, esclarece um deles. A grana resolve tudo, e dita tudo. É absolutamente mórbida a maneira como esta criançada vê a vida e o mundo. Neles, está germinando a personalidade daquele galã que mata o gari porque pode, humilha os vulneráveis, espanca a mulher e cospe nos pobres. Os influencers mirins foram aliciados também para outro género de pornografia, a obscenidade moral, isto é, o desprezo por qualquer valor que não seja grana e famosidade instantânea. Por enquanto são vítimas, fantoches ‘adultizados’ do novo normal . Amanhã serão aliciadores. Se não houver um basta draconiano às plataformas digitais, estaremos fomentando uma geração inteira de sociopatas.
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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