Solidariedade é o tema desta coluna do professor Renato Janine Ribeiro, que foi buscar entre os azande, um povo da África Central, a noção que estes têm a respeito daquele sentimento e, com tal exemplo, ilustrar uma situação que está acontecendo no Brasil de hoje, que é a ameaça que paira sobre a nação num momento em que o presidente norte-americano, Donald Trump, se vale de uma chantagem para dobrar o País aos seus interesses. O que Janine mostra com esse exemplo é a explosão de conflitos intensos dentro do Brasil, o que estilhaça o conceito do que todos nós vemos como solidariedade. “Temos conflitos fortes, até porque, nos últimos anos, a propaganda de extrema-direita espalhou muito ódio na sociedade brasileira e isso fez que pessoas que antes tinham relações ficassem com ódio. Quer dizer, você tem bolsonarista que rompe relações com petista, petista que rompe relações com o bolsonarista, e por aí vai”, diz o colunista, o que, por outro lado, lança por terra a lição dos azande, segundo a qual é preciso cultivar a solidariedade mesmo em relação a inimigos externos.
Como explicar, pergunta Janine, “que pessoas que são brasileiras, que até mesmo se dizem patriotas, que usam e gostam dos símbolos nacionais, num determinado momento comecem a apoiar, a aplaudir um agressor externo, alguém que está ameaçando o Brasil, que vai prejudicar nossa economia, que vai reduzir a prosperidade brasileira? Como você explica isso, se não por muita lavagem cerebral, por um distúrbio bastante sério – eu não vou dizer que é um distúrbio mental, mas é algo muito preocupante quando você tem níveis de solidariedade que se partem. Ou seja, há pessoas que estão dispostas a deixar a solidariedade com o próprio país num segundo plano, mesmo que isso vá prejudicar a elas ou as pessoas próximas”. Para o colunista, é algo bastante chocante e, ao mesmo tempo, contraditório, mas o fato é que, de repente, as pessoas não mais veem contradição entre usar a camisa da seleção, ou se dizerem patriotas, e apoiarem o inimigo do País, “alguém que está querendo fazer mal ao País. Isso tudo, tradicionalmente, representava um conceito que hoje a gente usa com muita discrição, é o conceito de traidor da pátria. A traição à pátria, a alta traição foram crimes muito sérios, crimes que levavam à pena de morte e ainda continuam levando. Quer dizer, em caso de guerra, alguém que trai a pátria provavelmente será condenado à morte e executado, em qualquer país que esteja em guerra – em guerra, lembrem bem, não estou falando em situação de paz -, mas é muito preocupante ver essa coisa esquisita de gente que está disposta a trair o Brasil em favor de uma potência externa que está nos tratando como inimigos, e que, no entanto, acha isso normal, é muito estranho isso tudo”, conclui o professor.
Ética e Política
A coluna Ética e Política, com o professor Renato Janine Ribeiro, vai ao ar quinzenalmente, quarta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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