Quando a bronca vira aula de linguagem

Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP

 01/08/2025 - Publicado há 8 meses
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal
Henrique Braga – Foto: Arquivo pessoal

 

A multa pode até ser duvidosa, mas a bronca – real ou não – parecia saída de um manual de gramática com humor afiado. Recentemente, circulou nas redes sociais uma imagem que mostrava um suposto auto de infração e, no campo da descrição, nada de burocracia seca: para descrever o ocorrido, a autoridade de trânsito dizia que o motociclista estava “usando o capacete como se chapéu fosse”. A legenda do post fez o arremate perfeito: “Um salve pro guarda que me multou que faz parte da Academia Brasileira de Letras”. O conteúdo viralizou – e, por trás do riso e dos comentários, ofereceu a quem olha com atenção um vislumbre dos processos de criação que movem a linguagem.

Metáfora e hipérbato: a dupla que deu estilo à bronca

Casos como esse não são meros caprichos de estilo: revelam um princípio essencial do funcionamento da linguagem. Desde os estudos de George Lakoff e Mark Johnson, na linguística cognitiva, sabemos que a metáfora não é um enfeite, mas um modo de organizar o pensamento. Ela nos permite compreender o abstrato a partir do concreto e dar forma ao novo com base em experiências conhecidas. Quando dizemos que alguém “subiu na vida” ou “explodiu de raiva”, ativamos imagens mentais – movimento vertical, pressão física – que estruturam ideias e emoções.

É exatamente isso que ocorre com “como se chapéu fosse”. A metáfora atua ao alterar a função simbólica do objeto: o capacete, cuja finalidade é proteger, é reinterpretado como “algo superficial”, um acessório decorativo, certamente por não estar de fato encaixado na cabeça do condutor. Esse “rebaixamento” não é apenas uma brincadeira estilística; ele critica o comportamento do motociclista ao sugerir que ele trata um equipamento de segurança com a mesma importância de “um enfeite”. O deslocamento de sentido, típico das metáforas, cria um contraste entre o uso correto (protetor, sério) e o uso indevido (frívolo, vaidoso), e é nesse contraste que reside a força crítica. É uma forma indireta de censura: em vez de acusar (“capacete mal posicionado”), a frase insinua com ironia, deixando que o próprio leitor complete o juízo negativo.

O efeito ganha força com o hipérbato – a inversão sintática que coloca o verbo “fosse” no final da frase. Essa ordem não é a mais comum no português atual, o que chama a atenção do leitor e faz com que a palavra “chapéu” apareça em posição de destaque, funcionando quase como um ponto de ênfase antes do fechamento. Esse recurso confere à frase um ar de cuidado estilístico, como se tivesse sido construída deliberadamente para soar mais expressiva e, ao mesmo tempo, mais irônica. O resultado é uma bronca que, em vez de seca ou burocrática, soa elegante e espirituosa – escrita por alguém que sabe escolher cada palavra e sua posição.

Capacetes, chapéus e a força da criatividade linguística

O episódio revela como a criatividade linguística está presente no cotidiano – no trânsito, nos bilhetes, nos memes – e não se restringe ao terreno da escrita literária ou da análise técnica. Essa criatividade não é mero ornamento: ela enriquece a fala, tornando-a mais expressiva, precisa e eficiente. O suposto auto de infração poderia ter usado uma frase seca, “capacete mal posicionado”, mas optou por uma construção que critica, aponta e diverte ao mesmo tempo.

Para Carlos Franchi, a criatividade é inerente ao comportamento verbal, pois todo ato de fala ou de escrita consiste em atualizar, de modo singular, as múltiplas possibilidades do sistema linguístico. Cada opção – da metáfora à inversão sintática – revela um gesto de criação que escapa às rotinas de uso frequentes, abrindo espaço para novas configurações discursivas. É esse exercício criativo que faz da frase “como se chapéu fosse” algo mais do que uma ironia: é uma ferramenta de repreensão estilosa.

No final, metáfora e hipérbato trabalham em conjunto: a metáfora desloca o capacete de seu uso protetor para um mero enfeite, expondo o descuido; o hipérbato, ao destacar “chapéu”, potencializa a crítica com sutileza. Não importa se o auto é verdadeiro ou não – a frase cumpre sua função com precisão: ela repreende, diverte e ensina. Um capacete fora do lugar virou, enfim, um exemplo concreto da criatividade linguística em ação, tal como Franchi possivelmente defenderia: escolhas feitas dentro das regras do sistema, mas com intenção e inventividade.

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